TRIBALISMO IMPERIAL
2023-09-01 20:55:08

As primeiras horas a seguir à queda do Embraer de Prighozin foram de confusão e silêncio, nos meios políticos russos. Mas tudo começou a mudar, porque a história não vai desaparecer por encanto, a não ser para os ingénuos. Explicar a queda por um mero acidente poderia parecer suspeito. Atribuir tudo a um míssil russo seria gravíssimo para o regime. Admitir um atentado, estrangeiro ou doméstico, no coração da federação, criaria ainda mais desconfiança quanto à competência do poder. A partir daí começaram as tentativas de recuperação de imagem, em Moscovo, ou de incineração da mesma, no “Ocidente coletivo”. O primeiro campo apontou imediatamente uma conspiração, mas que seria descoberta após “rigoroso inquérito”, salientou as condolências de Putin e minimizou tudo: “Concentrem-se antes nas dificuldades dos nacionalistas ucranianos”. O segundo partido materializou-se nas teses sobre uma vingança mafiosa de VP, ou de Shoigu e Gerasimov, ou dos três ao mesmo tempo. A verdade, porém, é que as acusações ao Kremlin começaram não em Washington ou Londres, ou no artigo tremendista de Boris Johnson, mas nos meios da própria comunidade mercenária Wagner. Estes apontaram consequências últimas da rebelião de junho, a crescente popularidade de Prighozin (que poderia ser um candidato viável contra Putin, em 2024) e as imagens de destroços cravejados de pequenos orifícios, como os estilhaços de um míssil terra-ar Buk ou S-300. A partir daí, variaram as teses. Bomba numa prenda de vinhos, entregue à última hora, ou no chassis esquerdo ou no sistema de refrigeração, ou ainda no compartimento de carga, ou no lavabo; mísseis ar-ar ou terra-ar das bases de Borisovsky Khotilovo (Bologoye, Tver), Migalovo ou do sistema de proteção da Unidade 55943, detectados (ou não) pelo sistema global americano SBIR; derrube por erro humano, em clima de suspeição face a drones da resistência ou da Ucrânia, ou como retaliação da força aérea pelo abate de um Il-22 há dois meses; atentado do SBU, MI6, CIA, DGSE, Mossad, como resposta às acções da Wagner em África ou na Síria; retorsão planeada pelo FSB, ou pelo GU (ex-GRU) ou pelo Estado-Maior; “vingança servida fria” do Kremlin; terrorismo do Daesh; complot dentro da própria Wagner, acidente com munições a bordo, falha de um avião mal mantido, por economia de custos, manobras perigosas ou proibidas pela Autoridade Federal de Aviação e pelo Código Penal (art. 263), e um longo et cetera. Sei das vicissitudes e complexidade da investigação sobre incidentes aeronáuticos. Passei anos nos vários meandros do caso Camarate, e no do voo MH17. Se a investigação russa fosse transparente, e envolvesse a Embraer em todas as fases, deveríamos esperar pelas conclusões. Mas o percurso do atual regime putinista leva o observador a duvidar de tudo, e a ser cínico perante qualquer tirada oficial. O assunto, claro, não pode ser escondido nem escamoteado, nem relativizado. Não respeita apenas à Rússia, mas ao mundo. E tem relevância em função do que se possa revelar: se fosse descoberta uma pista de sangue até ao Kremlin, ou ao Estado-Maior, haveria consequências de tomo. Senão, não. Para os analistas, o que se passou em Junho não foi nem uma montagem, nem um plano para atacar a Polónia pela Bielorrússia, nem um acto criminoso a punir pelos tribunais russos, com tempo. Tratou-se de um real golpe de estado não sucedido, que resultou num acordo de “divisão de funções e territórios”, com a Wagner a deixar em paz a Rússia e a Ucrânia, e a ocupar-se do “longo braço” no resto do mundo. É evidente que sobre tudo isto há ainda enigmas e mentiras. Por exemplo, Prighozin não esteve presente no encontro entre Putin e Nyusi, no dia 22. Mas sabe-se que o chefe da Wagner (que não falava em pessoa com o Presidente desde 29 de junho) tinha reformulado e aumentado o seu plano africano, e o Kremlin parecia concordar. Uma morte não-acidental de Prighozin iria causar profundas alterações a este projecto. Os comandantes da Wagner esperam assim para ver. Ninguém, a não ser farsantes, se pronunciou em público sobre a “próxima fase”, nesta Rússia para-imperial mas tribalizada. Está lá fora um general Sempre anónimas “fontes do Pentágono” são invocadas, quando se quer dar um ar de respeitabilidade aos artigos de jornais norte-americanos, acerca da guerra na Ucrânia. Às vezes os relatórios são credíveis, mas não originais, e outras vezes originais, mas não credíveis. E há mesmo elementos anedóticos. Um deles explicava que Kiev devia “concentrar todas a forças” na ofensiva de Zaporizhia. Outro predicava: “Não ataquem a Crimeia, porque é um desperdício”. Um terceiro aconselhava: “Não usem tantos drones no reconhecimento, mas mais unidades terrestres”. E ainda: “Passem ao lado dos campos de minas; são pequenos”. Felizmente que não são os marechais de opereta que defendem a Ucrânia, no terreno. A moeda inexistente No passado, Putin achou “inviável” uma moeda comum e única aos BRICS. Mas agora propôs a mesma, paralelamente à ideia de Lula de uma moeda internacional, que coexistisse com as nacionais. O Ministro das Finanças de Pretória negou que isso tivesse sido discutido, formal ou informalmente. Explicou que não há nem banco central nem proposta do mesmo, e nenhum dos países membros desiste da sua “soberania monetária”. Enoch Godongwana acrescentou: sair da mera zona dólar não significa criar uma alternativa “única” ou “comum”, mas antes aceitar mecanismos de cálculo das moedas nacionais, baseados ou em acordos bilaterais, ou num acordo geral. O Presidente-arguido voltou assim a ser desautorizado. Bares da sua graça Setembro ainda é mês de férias para muitos. Daí a sítios de praia vai um passo. No Bar do Guincho, depois de se viajar por uma das mais bonitas marginais do mundo, desapareceram as filas, com escolha e pagamento totalmente eletrónico. Carapauzinhos e um Monte Cascas branco, lingueirão ou amêijoas exemplares, gin de fim de tarde, em frente de um oceano mágico. Na Caparica, o Bicho d Água também inovou, mantendo a classe dos grelhados, renovando as casas de banho e introduzindo o gelado Santini, em ambiente único. No Pego (Carvalhal), a Cabana do JNcQUOI tem preços altos, mas comida e serviço exemplares, e toda a infraestrutura foi substancialmente melhorada. Com a água azul aos vossos pés. Descubra as Edições do Dia Publicamos para si, em dois períodos distintos do dia, o melhor da atualidade nacional e internacional. Os artigos das Edições do Dia estão ordenados cronologicamente aqui , para que não perca nada do melhor que a SÁBADO prepara para si. Pode também navegar nas edições anteriores, do dia ou da semana Nuno Rogeiro