REPÚBLICA AEROESPACIAL DE PORTUGAL!
2025-09-01 08:35:07

Em quatro anos passámos de dois para seis cursos de Engenharia Aeroespacial e de 185 vagas anuais para 326. Ou vamos ser a próxima superpotência aeroespacial, ou andamos com a cabeça na Lua! Até 2020, havia em Portugal três cursos de Engenharia Aeronáutica e/ou Aeroespacial: Engenharia Aeronáutica na Academia da Força Aérea, em Sintra; Engenharia Aeronáutica na Universidade da Beira Interior (1991), na Covilhã; e Engenharia Aeroespacial no Instituto Superior Técnico (1992), em Lisboa. Nos últimos anos, assistimos a uma profusão de cursos nesta área: Universidade de Aveiro (2021), Universidade do Minho (2022), Universidade do Porto (2024) e Universidade de Évora (2025). Em quatro anos, passámos de dois para seis cursos de Engenharia Aeroespacial e de 185 vagas anuais para 326. Ou vamos ser a próxima superpotência aeroespacial, ou andamos com a cabeça na Lua! Se, em 1991, quando começou o curso na UBI, o mercado se cingia às atividades da OGMA e da TAP, é indubitável que o setor cresceu imenso, tendo como pontos particularmente marcantes: [1993] O consórcio do PoSAT lança o primeiro satélite português. [2000] Entrada de Portugal na Agência Espacial Europeia. [2009] No âmbito de um contrato de contrapartidas do Ministério da Defesa, o CEiiA, em Matosinhos, inaugura a sua unidade de aeronáutica, participando no desenvolvimento de helicópteros do grupo Leonardo. [2011] Início da participação de várias empresas nacionais no consórcio de desenvolvimento do maior avião que a Embraer já produziu, o C-390 Millennium. [2012] Inauguração das fábricas de estruturas de componentes metálicos e compósitos da Embraer, em Évora. [2015] Estabelecimento de um centro de engenharia de desenvolvimento da Embraer, em Évora. [2022] Chegada da Airbus a Portugal, com a criação de uma fábrica em Santo Tirso. [2022] Início do desenvolvimento do primeiro avião português (LUS-222) pelo CEiiA, em Évora, cuja produção terá lugar em Ponte de Sôr. [2023] Criação de centros de serviços da Airbus em Lisboa e Coimbra. Há hoje, em Portugal, profissionais a trabalhar em quase todos os domínios do mercado aeroespacial - desde a investigação, desenvolvimento, fabricação, certificação e operação até à manutenção de aeronaves e satélites. Entre as principais empresas, temos nomes internacionais como a Embraer, a Aernnova, a Airbus, a Lauak, a Mecachrome e a Beyond Gravity, e também empresas nacionais de diferentes dimensões, como o CEiiA, a Lusospace, a UAVision, a Active Space Technologies, a Critical Software, a Omnidea, a Tekever, a MESA, a Nortávia, a Aerohélice, a Portugália Airlines, a OMNI, o GAir Training Center, o Air Dream College, entre outras. Sobretudo no domínio da manutenção e fabricação, a escassez de técnicos qualificados é uma realidade amplamente reconhecida, e a capacidade formativa nacional, via ensino, é bastante limitada, estando fortemente ancorada nas capacidades da Força Aérea, da OGMA e da TAP. Em 2018, o então presidente da OGMA, Eng. Marco Túlio, queixava-se de que poderia ter o dobro dos seusb1800 trabalhadores em Alverca, mas não dispunha de mão de obra qualificada para expandir as operações da empresa. Esta tremenda lacuna, que tem limitado as possibilidades de crescimento numa área de elevado valor acrescentado há demasiado tempo, não teve qualquer resposta efetiva. Paradoxalmente, foi ao nível dos quadros superiores - domínio no qual o país tem sido manifestamente excedentário nas últimas duas décadas, com cerca de 50% dos diplomados a emigrar - que se assistiu a um reforço (enorme) no número de vagas e de instituições públicas. À primeira vista, parece uma estratégia algo néscia, no sentido em que não há escassez de profissionais nesta área, e uma maior concentração de vagas por universidade promoveria cursos com mais qualidade e diferenciação. No entanto, esta análise parte de uma premissa ingénua e manifestamente falsa: a existência de uma estratégia nacional. Creio que não tem havido. De facto, o Ensino Superior público parece funcionar sem qualquer estratégia visível, já que esta enxurrada de cursos e o aumento injustificado de vagas num curto espaço de tempo não são benéficos para o país no seu conjunto, nem para a qualidade e diferenciação dos conteúdos lecionados, tampouco para os próprios diplomados. A razão para estas aberturas extemporâneas poderia residir em interesses regionais, mas não parece ser o caso. O principal motivo decorre da crise que o Ensino Superior atravessa. Como se verificou na 1.ª fase de colocações do Concurso Nacional de Acesso de 2025, existe uma desadequação entre a oferta formativa disponível e a procura, por razões demográficas, geográficas, económicas, de mercado de trabalho e, ainda, pela incapacidade das instituições públicas de adequar a sua oferta às necessidades do mercado e à procura dos alunos. A Engenharia Civil é o caso paradigmático. Percebe-se facilmente que o Ensino Superior público é gerido em função dos interesses dos corpos docentes estabelecidos, e não com qualquer perspetiva estratégica nacional ou sequer regional - e muito menos de acordo com as necessidades do mercado de trabalho ou da procura efetiva dos alunos. Veja-se como se mantêm, há décadas, no papel, três cursos de Engenharia Civil na Beira Interior - em Castelo Branco, Covilhã e Guarda - num raio despovoado de apenas 90 km, que, este ano, e em linha com os anos anteriores, registaram, no total, apenas cinco alunos colocados na 1.ª fase. No passado, existiram cursos de Engenharia Civil em Évora, Beja e Portalegre. Como nem a Universidade, nem os Politécnicos locais, nem o poder central tomaram a decisão de encerrar um ou dois desses cursos para garantir a continuidade de um único curso de Engenharia Civil no Alentejo, hoje não existe nenhum. (Portalegre é o único que ainda figura no papel, mas não teve qualquer aluno colocado!) Parece que a Beira Interior seguirá o mesmo destino. A panaceia para os cursos vazios parece ter sido encontrada: basta abrir um curso de Engenharia Aeroespacial. Pela atratividade do nome - muito em voga nos últimos anos, por figurar entre os cursos com as médias de entrada mais altas do país e por notícias que indicam que os seus diplomados auferem salários superiores aos das demais engenharias - a procura é tal que todas as vagas são preenchidas, onde quer que o curso seja oferecido. E melhor ainda: são preenchidas por alunos com médias muito acima da média. Tem tudo para ser um sucesso! Só que não é. Qualquer pessoa que conheça fundamentos de otimização sabe que o conjunto de ótimos locais pode facilmente resultar numa solução não ótima do ponto de vista global. Esta dispersão fragmenta os recursos humanos, materiais e financeiros; condiciona fortemente a especialização do corpo docente e dificulta a criação de polos de excelência, minando a massa crítica necessária para concorrer a projetos de investigação ambiciosos e estabelecer parcerias industriais robustas, especialmente de âmbito europeu. Em vez de fortalecer o setor aeroespacial nacional, esta fragmentação irá enfraquecê-lo. Os novos cursos dificilmente alcançarão níveis de elevada qualidade e, ainda assim, os cursos já estabelecidos sairão prejudicados. Pior: as aprendizagens dos alunos - que deveriam ser o foco principal -, bem como a sua diferenciação e reconhecimento num mercado aeroespacial altamente exigente, serão inevitavelmente igualmente prejudicados. É inviável ter universidades de excelência que pretendam cobrir todos os domínios do conhecimento, salvo nos grandes centros urbanos. A estratégia adequada deveria passar pela diferenciação e pela concentração de recursos por áreas de conhecimento, dispersando essas áreas, por sua vez, pelo território. Na Beira Interior, em Trás-os-Montes e no Alentejo, em particular, não deveria existir qualquer redundância de cursos, para que todas as instituições pudessem atrair alunos e ser conhecidas e reconhecidas nas suas áreas específicas. Cada universidade e politécnico deveria especializar-se num domínio diferente. No caso da Engenharia Aeroespacial - uma área de nicho, ainda que em crescimento -, não é desejável abrir tantos cursos, muito menos concentrados geograficamente. Justifica-se ter um curso no noroeste de Portugal? Sem dúvida. Mas justificar-se-á abrir três cursos em Aveiro, Braga e Porto, num intervalo de apenas quatro anos? Não me parece. Senhor Ministro Fernando Alexandre, o senhor tem demonstrado grande capacidade e vontade de reformar o setor. Por favor, ponha cobro aos disparates que grassam no Ensino Superior: cursos fantasmas, universidades públicas a canibalizarem-se mutuamente - sobretudo em zonas despovoadas - e cursos que se abrem apenas para atrair alunos, sem critérios de diferenciação, qualidade ou distribuição regional. O futuro de Portugal agradecer-lhe-á. Pedro Albuquerque Mestre em Eng. Aeroespacial, Doutor em Eng. Aeronáutica Militante do PSD Pedro Albuquerque