GRANDES E PEQUENAS EMPRESAS RENDIDAS AO DESÍGNIO DA CONSTRUÇÃO VERDE
2023-08-26 07:33:04

Há soluções desenvolvidas em Portugal que estão a ditar o caminho da sustentabilidade de um dos setores mais poluentes do mundo. Desde novos materiais, onde a preocupação é o aproveitamento de resíduos, até tecnologias que permitem construir edifícios eficientes, há uma revolução em curso Empresas de construção cada vez mais comprometidas com a defesa do ambiente.. © Rui Oliveira/Global Imagens Comentar Até 2060, a quantidade de embodied carbon (carbono incorporado) proveniente dos materiais de construção pode atingir a marca alarmante de 100 gigatons - o equivalente à edificação de uma cidade como Nova Iorque, por mês, lembram os fundadores da build.ing. Esta startup portuguesa quer inverter esse caminho, assim como as outras quatro empresas que o Dinheiro Vivo ouviu e deixa aqui como exemplo. São apostas para a construção de um mundo mais amigo do ambiente. build.ing põe IA ao serviço do ambiente A build.ing, startup criada pelos jovens engenheiros civis Elias Silva e Leonardo Pappas, desenvolveu uma solução baseada em Inteligência Artificial (IA) e machine learning que permite analisar e simular diferentes cenários de disposições construtivas, tendo em conta critérios como a eficiência energética, materiais, custo, tempo de construção e emissões de carbono. Como explicam, a plataforma da build.in é uma ferramenta para utilizar na fase de conceção dos empreendimentos, momento em que é possível estudar e testar os materiais a usar na obra, em que quantidade e em que pontos da estrutura. "Garantimos edifícios mais sustentáveis e eficientes, porque estudamos múltiplos cenários de design", recorrendo a elementos de arquitetura e engenharia, dizem os empreendedores. A solução tecnológica permite construir imóveis "mais sustentáveis e eficientes" e "reduzir os ciclos de projeto, re-trabalho e desperdícios". A startup ainda está a dar os primeiros passos, mas já despertou atenções. A build.ing foi uma das três ideias vencedoras da Final Nacional do ClimateLaunchpad 2023, organizada pela UPTEC - Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto, e vai agora representar Portugal na final europeia daquela que é a maior competição mundial de projetos cleantech (em português, tecnologias limpas). Elias Silva e Leonardo Pappas, cuja experiência profissional engloba trabalhos em edifícios em betão, aço e estruturas mistas, coberturas metálicas, pontes e pavilhões industriais, lançaram-se neste projeto com a vontade de "promover mudanças positivas", num setor "responsável por aproximadamente 40% de todas as emissões de carbono e cerca de 1/3 de todo o lixo gerado na Europa". Como afirmam, "trabalhamos para construir edifícios que sejam neutros na emissão de carbono" e com a ambição de ir "para além de Portugal". Com a build.ing "temos o grande sonho de salvar 1 trilião de Kg CO2e e estar presentes em toda a Europa até 2028". Poupança de água é o foco da Oli Cerca de 70% do consumo de água numa casa ocorre dentro do quarto de banho e, destes 70%, cerca de 30% deve-se ao autoclismo. Alterar esta realidade através de soluções que limitem o uso deste recurso, evitem o seu desperdício e permitam a utilização de águas salgadas é o foco da maior fabricante de autoclismos da Europa do Sul. Desde o início da década de 90 que a portuguesa Oli trabalha no desenvolvimento de produtos que garantam a proteção dos recursos hídricos. Foi, aliás, pioneira na massificação da dupla descarga, hoje comum nas casas portuguesas, mas que exigiu uma alteração de comportamento dos consumidores. A empresa de Aveiro, que exporta para mais de 90 países, tem uma equipa de 20 engenheiros alocados ao desenvolvimento de projetos e produtos inovadores com o objetivo de criar um espaço de banho sem desperdício de água. Só no ano passado, investiu 1,2 milhões de euros em inovação, adianta António Ricardo Oliveira, administrador da empresa. Entre as mais recentes apostas da Oli, destaca-se a inclusão de matéria-prima reciclada em alguns materiais e a incorporação de tecnologia dentro de tanques de autoclismos para monitorizar o consumo e a aferição de potenciais fugas ou perdas. A fabricante reconhece que a poupança da água é um desafio constante, mas com artigos eficientes pode chegar aos 30%. Um claro benefício ambiental, a que acresce uma redução substantiva na fatura mensal. A Oli tem soluções de dupla descarga que garantem essa eficiência, assim como autoclismos capazes de funcionar com água salgada, que são cada vez mais utilizados em países onde a água potável é cada vez mais escassa, diz. Ainda assim, a Oli depara-se muitas vezes com requisitos legais e normativos em mercados externos que impedem a implementação destas inovações. Microcrete inova com excedentes de produção A Microcrete, empresa especializada no fabrico de microcimento - material para revestimento de acabamentos, com aplicação em paredes, pavimentos, tetos e inclusive móveis -, desenvolveu um produto para o setor da construção à base de excedentes de produção que simula a pedra natural. O M Sabi é fabricado com microcimento, pó de mármore, granito e óxidos de ferro. Como explica Sérgio Vasconcelos, CEO da Microcrete, os resíduos provenientes do processo da limpeza das máquinas de produção de microcimento são incorporados no fabrico do M Sabi, evitando o desperdício e contribuindo para a economia circular. O desenvolvimento deste novo material, que exigiu um investimento de 50 mil euros, foi também uma resposta às necessidades do mercado. O M Sabi permite criar um ambiente em pedra em espaços internos e externos, em paredes e chão, e pode ser aplicado sobre revestimentos já existentes, evitando demolições e transporte de escombros. Segundo o gestor, o produto é leve e flexível, apresenta grande resistência mecânica, e tem uma espessura de apenas sete milímetros, o que facilita o transporte e a instalação. Este ano, ganhou o Prémio Inovação da Tektonica, mas está a ser produzido desde 2022. Sérgio Vasconcelos já o aplicou numa obra na Comporta - cerca de mil metros quadrados foram revestidos com M Sabi -, e está a desenvolver o trabalho de apresentação nos mercados externos, onde está a despertar muita curiosidade em países como França, Itália e Estados Unidos. Entretanto, a Microcrete decidiu voltar a olhar para o M Liner, produto premiado em 2018, de forma a que possa ser aplicado em paredes e ligar e desligar as luzes de uma casa sem interruptores, eliminando em mais de 80% a utilização de fios elétricos. DST desenvolve betão ecológico A DST está apta a lançar no mercado um novo tipo de betão, cuja produção assenta na utilização de resíduos de construção e demolição e de subprodutos da indústria siderúrgica. O betão ecológico reduz em 30% a incorporação de agregados naturais, de que são exemplo as areias, e potencia a economia circular, através da reciclagem dos detritos da indústria da construção. É também uma resposta à pegada ambiental do setor da construção. O betão (tradicional) é o segundo produto mais consumido no mundo a seguir à água. Segundo Mafalda Rodrigues, responsável do projeto, "existem vários caminhos que a indústria da construção pode seguir com vista à sustentabilidade do setor e um deles tem a ver com a redução do consumo intensivo de agregados naturais, nomeadamente na produção de betão e de misturas betuminosas através da sua substituição por agregados reciclados". O outro é "dar um fim aos resíduos inertes provenientes de demolições" e promover-lhes uma nova vida. O betão ecológico foi desenvolvido no âmbito do CirMat, projeto orçado em meio milhão de euros que envolveu a DST, o Instituto Superior Técnico, a Universidade do Minho e a Norwegian University, tendo-se materializado para já na construção de duas paredes estruturais. O desafio agora é a sua colocação no mercado. Como refere Mafalda Rodrigues, o betão ecológico pode ser utilizado em qualquer tipo de obra, estando a sua utilização dependente da abertura dos donos de obra a estes produtos inovadores. O papel de projetistas, promotores e arquitetos é "fundamental para potencializar a sua aceitação", sublinha. O grupo DST tem capacidade produtiva assegurada nas suas cinco centrais de betão no país, a que soma duas unidades licenciadas para receber resíduos inertes de construção e demolição.