BRICS DECIDEM ALARGAR ORGANIZAÇÃO PARA SER MAIS ALTERNATIVA
2023-08-26 07:02:07

- A 15. â cimeira do grupo de economias em desenvolvimento conhecido por BRICS vai ficar na História por ter sido decidido o alargamento da organização, mas também por terem sido acordados passos para a criação de uma alternativa nos mercados financeiros ao quadro definido pelo mundo ocidental, por agora, com . a aposta no reforço do papel das moedas locais. No final foi reafirmada a exigência de reestruturação profunda das instituições internacionais para refletirem um novo mundo Foi o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o português António Guterres, quem melhor sintetizou o que aconteceu na 15. a cimeira dos BRICS, que decorreu esta semana em Joanesburgo, na África do Sul. ao dizer que estamos na antecâmara de uma nova ordem global. "Estamos a entrar num mundo multipolar", afirmou Guterres, para manifestar a sua profunda preocupação com o "risco de uma rutura da ordem global", devido às crescentes divisões e ao aumento das tensões entre Estados. Falava na cerimónia de encerramento da cimeira, que se tornou histórica, com a decisão do alargamento do grupo de economias emergentes. mas também com a promessa de criação de processos para a criação de uma alternativa ao dólar norte-americano nas relações comerciais entre estes países. Em Joanesburgo, os líderes de Brasil. Rússia. índia. China e África do Sul. o grupo que ficou conhecido como BRICS (iniciais dos países, em inglês), puseram--se de acordo quanto ao alargamento da organização, defendida por Pequim e Moscovo, mas que tinha, até agora, enfrentado reticências de Brasília e de Nova Deli. "Quase uma surpresa foi o facto de as resistências da índia e do Brasil ao processo de alargamento dos BRICS terem sido ultrapassadas", diz ao NOVO Tiago André Lopes, professor de Diplomacia da Universidade Portucalense. Isto permitiu ao presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, anfitrião e que ocupa a presidência rotativa dos BRICS, encerrar a cimeira com o anúncio de que, no próximo ano, os BRICS passam a ser II, com a integração de Arábia Saudita. Argentina. Egito. Emirados Árabes Unidos. Etiópia e Irão. "Os BRICS passam a contar com mais 442 milhões de pessoas, um número impressionante se pensarmos que os 27 Estados da União Europeia representam pouco mais do que 448 milhões de pessoas", aponta Tiago André Lopes. "A escolha dos seis países demonstra o peso da diplomacia chinesa, com uma aposta no reforço da representação no Médio Oriente e em África, geografias úteis ao megaprojeto da Nova Rota da Seda", acrescenta. Tem um sinal geopolítico significativo e relevante", acrescenta ao NOVO Luís Tavares Bravo, presidente da International Affairs Network, apontando como objetivos a redução de "forma significativa do isolamento crescente a que alguns dos membros consideram estar votados por parte da comunidade internacional" e a construção de "uma nova ordem internacional que seja concorrencial com o statu quo ocidental, situação que se tem agravado após a deterioração das relações entre China e Rússia, com os Estados Unidos e a Europa Ocidental". "A decisão do alargamento foi liderada em grande medida pela China e também pela Rússia, que são os membros que dão um valor mais efetivo ao objetivo geopolítico desta organização. que é o de efetivamente construir uma solução de contrapoder aos países ocidentais - a Rússia como consequência da invasão da Ucrânia e a China pelo acentuado desgaste comercial e político com os Estados Unidos. Já Brasil e índia serão países mais interessados na geração de valor económico e comercial. uma vez que mantêm laços sólidos com o Ocidente", acrescenta Tavares Bravo. "A criação de parcerias comerciais é diferente da criação de alianças geopolíticas. A primeira, para já, será a mais fácil de implementar", conclui. Na declaração final, os BRICS confirmam que o processo de alargamento continuará a estar na agenda da organização e que será revisitado na próxima cimeira. Até lá, os ministros dos Negócios Estrangeiros estão mandatados para aprofundarem o modelo de parcerias e também para fazerem uma "lista prospetiva de países parceiros". Recorde-se que agora foram escolhidos apenas seis países de uma lista de 23 que pediram formalmente a adesão ao grupo. Os BRICS decidiram ainda um calendário para se criarem normas que levem a uma "gradual. coerente e progressiva" desdolarização das suas economias, sem se comprometerem com a criação de uma moeda comum, mas insistindo na utilização de moedas locais nas transações entre os Estados-membros e na interligação entre sistemas de pagamento. "O objetivo, por agora, é apenas macroeconómico e terá, em princípio, de conter mecanismos que evitem a valorização excessiva de algumas divisas", diz Lopes. Os ministros das Finanças e ou governadores dos bancos centrais dos cinco foram incumbidos de "considerar a questão das moedas locais, de instrumentos e de plataformas de pagamento", para que o tema seja abordado na próxima cimeira. Entre os 94 pontos da declaração final da cimeira está a defesa da reforma das instituições internacionais, não só da ONU. incluindo o Conselho de Segurança, mas particularmente as financeiras, herança das decisões de Bretton Woods, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. mas ainda a Organização Mundial do Comércio, para que as economias emergentes tenham um papel mais relevante. Questionado sobre a exigência de reforma profunda das instituições globais. António Guterres defendeu que "o mundo mudou e a governação global deve mudar com ele". Um facto colateral da cimeira foi a limitação da participação do presidente russo. Vladimir Putin, por videoconferência, por ser alvo de um mandado de captura do Tribunal Penal Internacional por alegados crimes de guerra na Ucrânia, tendo sido representado presencialmente pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, o que foi visto como uma derrota diplomática de Moscovo. No próximo ano, a presidência dos BRICS caberá à Rússia e a 16. a cimeira realizar-se-á em Kazan, no Tartaristão. contando com o "total apoio" dos restantes quatro Estados da organização. Lula da Silva, presidente do Brasil; Xi Jinping, presidente da China; Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul; Narendra Modi, primeiro--ministro da índia; e Sergey Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, em Joanesburgo Tiago André Lopes Professor de Diplomacia da Universidade Portucalense Luís Tavares Bravo Presidente da International Affairs Network