2004 O ANO DE TODOS OS ESTÁDIOS... DO EURO
2023-08-18 06:00:20

Construção Sector vivia na ressaca da Expo 98 e da adesão europeia, mas havia muito trabalho a fazer, sem contar com o novo aeroporto ou o TGV 2004 Os estádios e uma “crise” com muito trabalho no horizonte A 4 de julho de 2004, aos 52 minutos de jogo, o avançado grego Angelos Charisteas batia o guarda-redes português Ricardo e sagrava a Grécia a vencedora do Campeonato Europeu de Futebol desse ano. A vitória grega no Estádio da Luz foi considerada surpreendente dado o favoritismo da seleção das Quinas e constituiu um “duche de água fria” para um país cujo entusiasmo com o evento só rivalizou com o sentido por ocasião da Expo 98. Para trás ficava a preparação de um campeonato que alimentara grandes perspetivas quanto ao desempenho económico do país, permitindo que a contração do PIB sentida no ano anterior e o aumento do desemprego tivessem sido menores do que o previsto, segundo os economistas. E os 10 estádios construídos para o evento acabaram por marcar simbolicamente o início do fim de uma “época de ouro” do sector da construção e obras públicas. De alguma maneira os estádios foram também uma “montra” de arquitetura, com a participação de Souto de Moura (Braga), Manuel Salgado (Dragão) e Tomás Taveira (Alvalade), entre outros. Uma época que começara com a adesão à Comunidade Económica Europeia em 1986 e cujo “pico” terão sido as infraestruturas criadas para a Expo 98. Segundo os gestores contactados pelo Expresso, os estádios do Euro tinham dado algum contributo nos anos anteriores para a carteira de algumas das grandes construtoras na altura. Entre as quais, algumas entretanto desaparecidas como a Soares da Costa, que construiu o de Braga (em consórcio) e de Coimbra com a Abrantina; ou a Tâmega e a Lena que estiveram em Aveiro (ver caixa). O destaque vai para a Somague (comprada em 2004 pela espanhola Sacyr), que construiu cinco dos 10 estádios utilizados em 2004. Uma fatia importante mas que não aconteceu por acaso, como salienta Rui Vieira de Sá, administrador e último presidente português da Somague. “Entrámos nos estádios ainda antes de se falar no Euro 2004, por via de uma abordagem de um parceiro de obras marítimas que eram os neerlandeses da Ballast Nedam. Uma empresa que além de dragagens tinha uma componente de construção civil e construíra o estádio do Ajax, o Arena de Amesterdão, e que verificara que os nossos estádios já eram antigos”, explica Vieira de Sá. O antigo gestor da Somague lembra que a primeira abordagem foi com o Sporting, na altura dirigido por José Roquette, e começaram as negociações logo a seguir à Expo 98. Seguiu-se o Futebol Clube do Porto, onde também houve boa receção. Só depois aparece o projeto político da Federação Portuguesa de Futebol e a candidatura de Portugal é aceite a 12 de outubro de 1999. Os estádios da Luz e do Dragão acabaram por ser ajuste direto e os restantes por concurso público municipal, acrescentou. O Sporting, entretanto mudou de presidente, abriu concurso e a obra foi entregue à Opway, já desaparecida. Havia trabalho para toda a gente, o “sector respirava saúde” Com os 10 estádios terminados ainda em 2003, as duas associações do sector na altura, ANEOP e AECOPS, salientavam que a atividade estava em queda desde 2001. A chuva de milhões anunciada desde o final da Expo 98, com anúncios da construção do novo aeroporto de Lisboa, a alta velocidade ferroviária ou a terceira travessia do Tejo, entre outros projetos, ainda não passava de um ligeiro aguaceiro. Estava-se também no fim do primeiro ciclo de concessões rodoviárias e o clima recessivo adiava o lançamento de concursos públicos. Filipe Soares Franco, na altura presidente da ANEOP, admitia uma crise sem precedentes e previa que a atividade caísse 5,9% em 2004, depois de 9,4% em 2003. “O sector vai mal, mas recomenda--se”, resumia no início de 2004, um estudo da ANEOP, que previa para 2005 “um novo pico de investimento público, superior aos níveis registados nos anos de ouro da Expo 98”. Dezanove anos depois, os gestores contactados pelo Expresso relativizam o cenário traçado na altura. Vieira de Sá lembra que ainda “havia trabalho para todos”. A mesma opinião é partilhada por Arnaldo Figueiredo, administrador “histórico” da Mota-Engil empresa que já liderava o sector mas que não entrou diretamente na construção dos estádios, embora a sua participada Martifer tenha feito a cobertura de cinco das infraestruturas. Admitindo que a memória é “seletiva”, Figueiredo diz que em 2004 o sector “respirava saúde” e havia muitas perspetivas de haver trabalho. “Continuava-se a falar na alta velocidade, no novo aeroporto. Havia muitas estradas por fazer e muita ferrovia por requalificar também”, recorda, acrescentando que “tomara o sector ter hoje a crise de que se falava na altura. No pós-troika é que foi muito complicado”. Muitas empresas, mas com pouca dimensão Muitos dos problemas que havia na altura residiam no facto de haver empresas a mais para o mercado que existia, com pouca dimensão para se internacionalizarem. Havia algumas exceções na altura diz, recordando que a Mota já efetuara a fusão com a Engil e faturava cerca de 30% no mercado internacional. A pulverização do mercado português contrastava profundamente com o processo de concentração observado em Espanha na década anterior, com o surgimento de gigantes como a FCC, Ferrovial, Acciona ou Dragados. Uma concentração que se sentia na conquista de obras em Portugal. No nosso país, único caso de vulto tinha sido a fusão entre a Mota e a Engil. Por outro lado, lembra que em 2004 se falava de recessão depois de um ciclo de grandes investimentos em obras públicas desde a adesão europeia e com a Expo 98, com taxas de crescimento de dois dígitos que eram impossíveis de manter. Por outro lado, as empresas nacionais eram sobretudo generalistas, embora começasse haver tímidos passos de especialização. “A solução estava à vista. Nunca houve um programa de obras públicas médio/longo prazo, consensualizados entre os partidos como em Espanha”, afirma. Por isso, os ciclos de atividade na construção são muito marcados, com “picos” que quase esgotavam a capacidade instalada, seguidos por períodos de escassez de obras. “Isto porque não havia, não houve, nem há um plano de desenvolvimento de médio a longo prazo que trouxesse tranquilidade às empresas e que lhes permitisse prepararem-se”, conclui. “Nada foi feito e na primeira crise sério foi uma razia”, acrescentou. Das 10 maiores empresas da altura, restam Mota-Engil, que continua a liderar destacadamente, seguida pela Teixeira Duarte. A Somague sobrevive na órbita da Sacyr. Desapareceram Soares da Costa, Opway, MSF, Bento Pedroso (integrada na Odebrecht), Monte-Adriano, Edifer e Tâmega. Alexandre Portugal, administrador da Coba, uma das maiores empresas de projeto nacionais na altura, salienta que 2004 “foi uma época boa para o sector éramos felizes e não o sabíamos”, ironiza. Lembra que a EDIA estava a “todo o gás” a fazer os projetos dos perímetros irrigados e das obras complementares agora que já tinha a barragem grande de Alqueva feita e estava em curso o reforço do abastecimento de água a Lisboa a partir de Castelo do Bode e múltiplos estudos e obras para ampliação e reforço do abastecimento de água e do saneamento em todo o país. Na ferrovia, a RAVE estava a iniciar os estudos prévios da futura rede de alta velocidade, enquanto na rodovia estava em curso uma miríade de concessões de autoestradas A25 (ex-IP5) a Euroscut Norte, A21 Ericeira-Mafra. E a Brisa estava a fazer o projeto da ligação entre a A10 e A13, que incluía a Ponte da Lezíria e o alargamento de vários troços da A1. Ricardo Gomes, administrador da Seth, lembra que em 2004 o sector vivia na ressaca da Expo 98 e da conclusão de grandes obras como a autoestrada para o Algarve dois anos antes. E que, ao contrário do que acontecera seis anos antes, o Euro “não criou cidade” e centrou-se apenas nas infraestruturas desportivas sem novas linhas de metro ou novas pontes, nem aceleração de outras infraestruturas. “Por arrastamento, os maiores estádios foram construídos com modelos de financiamento em que se garantiram direitos de construção que tiveram impacto na malha urbana, mas a posteriori”. Casos do Estádio da Luz e do Dragão, e o que está a acontecer atualmente em Alvalade, com o projeto Campo Novo. Quanto aos custos, um estudo do Tribunal de Contas de 2007, publicado no Expresso, concluía que a construção dos seis estádios a cargo do Estado foi três vezes mais cara. A estimativa inicial era de EUR140 milhões para Braga, Guimarães, Aveiro, Coimbra, Leiria e Algarve, mas a fatura final ficou acima dos EUR344 milhões. A este valor juntam--se ainda as verbas municipais, com autarquias a pagar empréstimos até 2030. Benfica e FCP já têm os estádios integralmente pagos. Só seis estádios com uso regular Dos 10 estádios construídos, Dragão, Alvalade, Luz, Bessa, Afonso Henriques (Guimarães) e Braga recebem jogos da I Liga. Em Leiria, depois da despromoção do clube a afluência era muito reduzida, mas este ano com a subida à II Liga as coisas mudaram. Este estádio tem também uma pista de atletismo que é muito usada pela federação e em campeonatos nacionais. Já Aveiro recebe a Supertaça nos últimos anos, o Beira Mar está nas distritais mas continua a utilizar o recinto. O estádio do Algarve recebe alguns jogos da seleção e também alguns encontros pré-época, além de jogos entre equipas algarvias. hmartins@expresso.impresa.pt 2004 EM REVISTA Portugal + Espanha? O empresário José Manuel de Mello diz, em entrevista ao Expresso, que “Portugal deve juntar-se imediatamente a Espanha”, a 24 de janeiro. Compromisso Portugal A 10 de fevereiro tem lugar a primeira convenção do movimento Compromisso Portugal. Fuga do Brasil; TAP com lucros “Empresários portugueses fogem do Brasil” e “TAP obtém lucros ao fim de 30 anos” são notícias de 14 de fevereiro. Semapa ganha Portucel “Os relatórios elaborados pelas administrações da Portucel SGPS e Portucel, SA, convergem na interpretação do júri: os 30% do Estado na papeleira devem ser vendidos à Semapa, liderada por Pedro Queiroz Pereira”, diz o Expresso a 27 de março. TAP na Star Alliance “A TAP vai integrar o grupo Star Alliance, liderado pela Lufthansa e composto ainda pelas SAS, Air Canada, United, Varig, Air New Zealand, Singapore, Thai, Austrian, entre outras”, é noticiado a 24 de abril. Petróleo sobe “Subida espetacular do preço do barril de petróleo ameaça retoma mundial”, lê-se a 15 de maio. Futebol esgota publicidade “O espaço publicitário nos três canais de televisão generalistas está esgotado até e durante o Euro 2004”, diz o Expresso a 22 de maio. Negociações na Galp “As negociações entre a Parpública e os consórcios Petrocer e Grupo Mello para a venda de 33,34% da Galp estão numa fase crucial e muito perto do fim ”, é noticiado pelo Expresso a 19 de junho. Ikea estreia em Portugal A 22 de junho a empresa sueca Ikea abre uma loja em Alfragide, nos arredores de Lisboa. Sousa Cintra cercado “Credores cercam Sousa Cintra”, conta o Expresso a 10 de julho, explicando que há 34 empresas a reclamar créditos ao empresário. Ota suspensa “O Governo vai continuar os estudos para o aeroporto da Ota, mas a obra não é prioritária e não arrancará na presente legislatura ” 24 de julho. Aviões em Évora “Évora vai fabricar aviões”, noticia o Expresso a 7 de agosto. EDP em Espanha “O Governo espanhol autorizou ontem a EDP a assumir o controlo de 95,7% da Hidrocantábrico” 2 de outubro. Media Capital cobiçada A 9 de outubro o Expresso conta que a “RTL quer reforçar na Media Capital” e que o presidente do grupo de media, Miguel Pais do Amaral, “tentou evitar entrada dos alemães”. Stresse na Caixa “A solução encontrada pelo Governo para cumprir os 3% de défice exigidos por Bruxelas abriu uma crise na CGD. Em total desacordo com a transferência de mais mil milhões de euros do fundo de pensões da CGD para a Caixa Geral de Aposentações, o presidente e o vice-presidente da CGD demitiram-se”, lê-se na edição de 24 de dezembro. Pedro Lima plima@expresso.impresa.pt EXPRESSO 1973.2023 No ano do Campeonato da Europa em Portugal, o sector da construção fechava um ciclo de obras públicas, ainda com muito trabalho no horizonte E16 ESTÁDIOS EURO 2004 ESTÁDIO DA LUZ Construção Somague Capacidade 64.642 espectadores Custo EUR165 milhões Inauguração 25 de outubro de 2003 Arquiteto Damon Lavelle ESTÁDIO DO DRAGÃO Construção Somague Capacidade 50.214 espectadores Custo EUR125 milhões Inauguração 16 de novembro de 2003 Arquiteto Manuel Salgado ESTÁDIO JOSÉ ALVALADE Construção Opway Capacidade 50.095 espectadores Custo EUR184 milhões Inauguração 6 de agosto de 2003 Arquiteto Tomás Taveira ESTÁDIO MUNICIPAL DE BRAGA Construção Consórcio Soares da Costa, Grupo Rodrigues e Névoa, Casais, DST, ABB, Eusébios e J. Gomes Capacidade 30.286 espectadores Custo EUR181 milhões Inauguração 30 de dezembro 2003 Arquiteto Souto de Moura ESTÁDIO BESSA SÉCULO XXI (BOAVISTA) Construção Somague Capacidade 30 mil espectadores Custo EUR45 milhões Inauguração 9 de novembro de 2003 Arquiteto Paulo Almeida ESTÁDIO D. AFONSO HENRIQUES (GUIMARÃES) Construção Casais Capacidade 29.966 espectadores Custo EUR27,3 milhões Inauguração 27 de julho de 2003 Arquiteto Eduardo Guimarães ESTÁDIO MUNICIPAL CIDADE DE COIMBRA Construtor Soares da Costa Construtora Abrantina Capacidade 29.774 espectadores Custo EUR45 milhões Inauguração 27 de setembro de 2003 Arquiteto António Monteiro ESTÁDIO MUNICIPAL DR. MAGALHÃES PESSOA (LEIRIA) Construção Somague Capacidade 30 mil espectadores Custo EUR48,1 milhões Inauguração 19 de dezembro de 2003 Arquiteto Tomás Taveira ESTÁDIO MUNICIPAL DE AVEIRO Construção Construtora do Tâmega Lena Capacidade 30.970 espectadores Custo EUR63 milhões Inauguração 15 novembro de 2003 Arquiteto Tomás Taveira ESTÁDIO DO ALGARVE Construção Somague Capacidade 30.305 espectadores Custo EUR30,6 milhões Inauguração 23 de novembro de 2003 Arquiteto Damon Lavelle FONTES: “A SOMAGUE NOS ESTÁDIOS DO SÉC. XXI”, STADIUMDB.COM, EMPRESAS a a EM 2004, CONTINUAVA-SE A FALAR NO NOVO AEROPORTO E NO TGV, MAS AINDA HAVIA MUITAS ESTRADAS PARA FAZER 2000 2004 2009 2,4 INFLAÇÃO ABRANDA PARA A CASA DOS 2% Taxa de variação anual de preços no consumidor, em % 10 0 -10 FONTE: SÉRIES LONGAS DA ECONOMIA PORTUGUESA (INE E BANCO DE PORTUGAL) 2000 2004 2009 67 RÁCIO DA DÍVIDA PÚBLICA CONTINUA A AUMENTAR Dívida bruta consolidada das Administrações Públicas, em percentagem do PIB 60 30 0 2000 2004 2009 8,2 DESEMPREGO SOBE PELO QUARTO ANO CONSECUTIVO Taxa de desemp. da população com 16 e mais anos, em % 10 5 0 2000 2004 2009 -6,2 DÉFICE ORÇAMENTAL ULTRAPASSA OS 6% DO PIB Saldo anual das finanças públicas, em % do PIB 0 -4 -8 -12 2000 2004 2009 1,8 ECONOMIA VOLTA A CRESCER, MAS DE FORMA MODESTA Taxa de variação real do produto interno bruto, em % 5 0 -5 DESEMPREGO ACIMA DOS 8% E DÉFICE SUPEROU OS 6% DO PIB Depois da recessão anual sofrida em 2003, a economia portuguesa regressou ao verde em 2004, com o Produto Interno Bruto (PIB) a avançar 1,8%. Mas foi um ano de memórias agridoces para os portugueses. E não apenas pela desilusão de o país ter perdido a final do Europeu de Futebol realizado em Portugal contra a Grécia, depois de semanas de entusiasmo e crença cada vez maior na vitória nacional. Na frente económica, o crescimento do PIB foi modesto e não travou a subida do desemprego, pelo quarto ano consecutivo, chegando aos 8,2%. Foi o valor mais elevado desde 1986, ou seja, em quase duas décadas. E, pior, continuará a subir nos anos seguintes. O primeiro-ministro, Durão Barroso, à frente de um Governo PSD/ PP, demite-se logo após o fim do Europeu, para presidir à Comissão Europeia. Jorge Sampaio, então Presidente da República, dá posse a um novo Governo PSD/PP, chefiado por Santana Lopes, mas poucos meses depois marcados por uma série de incidentes , no final de novembro, decide dissolver a Assembleia da República e convocar eleições. O défice orçamental fecha 2004 nos 6,2% do PIB e o rácio da dívida pública atinge os 67%. No ano seguinte as eleições darão o poder ao PS de José Sócrates. Sónia M. Lourenço 2004 ECONOMIA VOLTA A CRESCER... MAS POUCO