DEFESA - INTEGRAÇÃO NA INDÚSTRIA EUROPEIA SERÁ CRUCIAL
2025-05-02 06:00:09

obre, germânio, aço, mercúrio, tântalo e alumínio são algumas das matérias-primas críticas essenciais usadas nos sistemas de defesa. Travam-se guerras por elas. A procura é grande e promete acelerar com a nova ordem geoestratégica em marcha. A Europa, pressionada a reconstruir a indústria da defesa, depois de décadas de desinvestimento, vai posicionar-se neste mercado, onde tem participado sobretudo como compradora. ê nas mãos da China que estão muitas destas matérias-primas críticas, sem as quais não se fabricam tanques, navios e aviões militares sofisticados ou equipamentos para soldados do século XXI, mais tecnológicos. Claramente deficitária e dependente do exterior, a Europa quer voltar a investir na extração, transformação e reciclagem. O desígnio de Bruxelas é futuramente comprar dentro de fronteiras europeias 65% das matérias-primas até 2030. O projeto começou em 2024, com a Lei das Matérias-Primas Críticas da União Europeia (UE), e tornou-se mais urgente este ano, quando ficou evidente que Donald Trump já não olhava para a Europa como grande aliado, e o futuro da NATO se tornava incerto. Há vários Estados-membros a desenhar estratégias de investimento, como França, Alemanha, Espanha e Polónia. Atualmente, para obter matérias-primas estratégicas relevantes para a Europa, como cobre e germânio, a UE está dependente da importação em 17% e 42%, respetivamente. A China é o maior produtor mundial, e claramente dominante no caso do germânio (com 80% do mercado). E é a maior produtora de alumínio, determinante para a construção naval, e do qual a UE depende em 58% do exterior. Na indústria da defesa a Europa até tem empresas com dimensão global, como a alemã Rheinmetall, a francesa Thales ou a pan-europeia Airbus. Mas na mineração tem um longo caminho a percorrer. O coronel Carlos Mendes Dias, académico e militar reformado, considera que o desafio será gigantesco. “Onde estão as matérias-primas essenciais para a construção de equipamento militar? Não estão em França, não estão na Alemanha, não estão em Espanha. A Europa quase não tem. Estão na China, na Ucrânia”, sublinha. Se com o volfrâmio Portugal foi estratégico para a indústria da defesa europeia na II Guerra Mundial, hoje a expectativa sobre um maior contributo do país para a reindustrialização vem de áreas mais tecnológicas e nichos de mercado. Portugal tem quase 300 empresas do sector aeroespacial, defesa e segurança, que gera um volume de negócios de EUR2,1 mil milhões por ano e que se desenvolveu nas duas últimas décadas de norte a sul do país. Tem um fabricante de aviões não tripulados (drones) de dimensão internacional a Tekever, com uma presença forte na Ucrânia e a querer afirmar-se como multinacional. E empresas como a Beyond Vision ou UAVision. O país prepara-se para lançar no mercado em 2028 a sua primeira aeronave desenvolvida e fabricada cá, o Lus222, um bimotor que resulta de uma parceria do Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto (Ceiia) com a Força Aérea e a Geosat. E tem ainda empresas de soluções de alta tecnologia para controlos de voos ou gestão de missões, como a GMV Portugal. Na proteção balística há empresas em crescimento, como a Beyond Composite, que passou a ter a Sonae Capital Industrial como acionista. Portugal tem conseguido atrair o investimento de gigantes do sector como a Embraer (que comprou a Ogma), a Airbus ou a Thales (que se tornou acionista da Edisoft). Vêm à procura de talento e de boas infraestruturas. São investimentos que acabam por puxar a indústria duas décadas, mas não tem escala. Pode dar um salto se aproveitar a reindustrialização da UE Indústria nacional cresceu nas últimas FRASE portuguesa para patamares mais sofisticados. Para crescer, o país precisará de fazer parcerias. As compras de material militar são a chave para que Portugal possa integrar as cadeias de produção europeias, avisam as empresas do sector. “Uma coisa são os anúncios políticos, outra coisa é a existência de encomendas firmes para as empresas poderem trabalhar dentro de um quadro temporal de médio e longo prazo. As empresas precisam que os governos façam encomendas”, aponta Miguel Monjardino, professor de Geopolítica e Geoestratégia. Tratando-se de investimentos consideráveis, José Neves, presidente da AED, defende “um acordo de regime” entre os partidos de poder, para que as empresas se sintam confortáveis para avançar. Vai haver mais investimento, mas ainda não é claro o seu destino, e faltam projetos com escala a Portugal. Luís Montenegro já disse que O Governo irá antecipar a meta de 2% do PIB de investimento na área da Defesa prevista até 2029, sem especificar para quando. Ricardo Pinheiro Alves, presidente da estatal IDD Portugal Defence, afirmou recentemente em entrevista ao “Jornal de Negócios” que Portugal deverá mais do que duplicar o investimento na defesa nos próximos cinco anos. O seuimpacto na economia dependerá de como são gastos e que contrapartidas envolvam, frisa Mendes Dias. O ministro da Defesa, Nuno Melo, diz ao Expresso que “a Europa precisa de produzir mais e comprar mais dentro da Europa”. Hoje cerca de 80% do equipamento militar europeu são comprados fora das fronteiras da UE. Sem detalhar, afirma que o Governo está a “abrir as portas aos empresários portugueses” em áreas como “a produção de munições, a aeronáutica, veículos autónomos, componentes, engenharia, espaço, têxteis tecnológicos ou o calçado”. e unânime no sector da aeronáutica e da defesa a convicção de que se Portugal quer fazer parte da nova dinâmica de industrialização europeia não pode arrastar os pés. Tem de delinear uma estratégia que envolva as Forças Armadas, as empresas e o poder político, e integrar a cadeia de produção desde a primeira hora. PARA INTEGRAR AS CADEIAS DE PRODUçáO DA INDúSTRIA EUROPEIA PORTUGAL TEM DE SABER FAZER PARCERIAS “Uma coisa são os anúncios políticos, outra é a existência de encomendas firmes para as empresas poderem trabalhar num quadro de médio e longo prazo” Miguel Monjardino Académico NuMEROS 2% do PIB é a meta de investimento na Defesa prevista até 2029 e que o Governo quer antecipar 1000 milhões de euros por ano é quanto o presidente da IDD Portugal Defence considera que deve ser investido no âmbito da Lei da Programação Militar nos próximos cinco anos 300 é o número de empresas a operar na aeronáutica, espaço, defesa e segurança em Portugal União Europeia quer passar a comprar mais de metade do equipamento militar e das matérias-primas críticas dentro de fronteiras FOTO GETTY IMAGES ANABELA CAMPOS