O "ÚLTIMO REDUTO": ECONOMIA E INFRA-ESTRUTURAS NUNCA TIVERAM MINISTRAS
2025-03-08 06:00:07

As mulheres tendem a ocupar a liderança de pastas "soft", como a Cultura, ao passo que os homens dominam as áreas "hard", como a Economia e as Infra-estruturas. Os ministérios da Economia e das Infra-estruturas são os únicos que nunca foram liderados por uma mulher. É uma realidade que pode estar ligada à "influência de género na política" e ao próprio "viés de género" nestas áreas e que compara mal com a maioria dos Estados-membros da União Europeia, no caso da Economia: Portugal é um de nove países que não têm, hoje em dia, uma única ministra com funções económicas. Ao PÚBLICO, Maria Helena Santos, professora do Iscte, explica que "a investigação tem vindo a tornar clara a influência do género na política, constituindo, sem dúvida, uma das grandes barreiras ao maior progresso da igualdade de participação". Algo que "é particularmente evidente na distribuição das pastas ministeriais, onde a lei da paridade não se aplica". Assim, apesar das "mudanças" dos últimos anos, nomeadamente nos governos de António Costa, os homens tendem a "dominar as chamadas pastas hard" e as mulheres a "ocupar as pastas ditas soft". A tese é corroborada por Eva Macedo, professora da Universidade Portucalense, que explica que há uma "separação muito clara" entre "as áreas do cuidado", como a Cultura e a Educação, que são vistas como "próprias das mulheres", e as "áreas hard, da Economia, da Defesa, das Infra-estruturas, consideradas tipicamente masculinas". Até porque são "ligadas a grandes empreitadas e a muito dinheiro envolvido". As áreas da Cultura e da Saúde são precisamente das que tiveram mais ministras até hoje, seis desde 1976, a par da Educação, que teve cinco mulheres na liderança, ao contrário das restantes áreas mencionadas. Desse ponto de vista, as pastas da Economia e das Infra-estruturas são aquelas que "por último" resistiram à "incursão progressiva de mulheres nas áreas hard": "É o último reduto", defende Eva Macedo. Essa incursão tem, ainda assim, acontecido. É o caso da área das Finanças, que foi chefiada por Manuela Ferreira Leite e Maria Luís Albuquerque, embora seja vista como uma pasta de "disciplina" e "à parte, que serve para colocar um freio nos outros" governantes, como aponta Susana Peralta. Mas a economista e professora da Nova SBE ressalva que são "poucas". Juntando isso ao facto de nunca ter existido uma mulher à frente da Economia, é possível "relacionar com a evidência de que é uma especialidade pouco dada à inclusão de mulheres", aponta. "A investigação mostra um viés de género na economia", já que as mulheres estão "sub-representadas", tanto nos cursos universitários como nos empregos. E o mesmo se pode verificar na política: "Há um perfil de maior dificuldade em chegar a lugares de Governo de mais peso. Se as mulheres têm menos peso na aprendizagem da economia, isso explica a falta de mulheres" nos executivos, defende a também colunista do PÚBLICO. Vários ministérios só com uma ministra Os restantes ministérios já foram liderados por mulheres, mas alguns só tiveram uma ministra até hoje (e até recentemente): a Defesa com Helena Carreiras, os Assuntos Parlamentares com Ana Catarina Mendes, a Agricultura com Assunção Cristas ou os Negócios Estrangeiros com Teresa Patrício Gouveia. Também neste Governo há uma ministra da Juventude e Modernização pela primeira vez, Margarida Balseiro Lopes. É uma das governantes que contribui para a percentagem acima de 40% de ministras no executivo de Luís Montenegro. O Governo tem sete ministras e dez ministros (41,2%), fazendo parte de uma maioria de governos da União Europeia que está à frente da média europeia de 2020 (32,8%). Segundo a base de dados do Instituto Europeu para a Igualdade de Género relativa aos ministros dos governos nacionais dos 27 Estados-membros no quarto trimestre de 2024, Portugal tem 38,9% de ministras (contando com o primeiro-ministro), ficando atrás apenas de dez países. Mas, no caso dos ministros com funções económicas, compara pior: não tem nenhum, estando atrás da maioria dos países (18). Nem sempre foi assim. Embora nunca tenha havido uma ministra da Economia, já houve governantes mulheres que tinham sob a sua alçada pastas económicas. Por exemplo, no segundo trimestre de 2024, no governo do PS, e no último trimestre de 2011, no governo de Pedro Passos Coelho, existiam 33% de ministras com funções económicas, segundo a mesma base de dados, que não explicita a que governantes se refere. Poderíamos supor que o aumento de mulheres na área da economia teria um efeito no número de ministras com a pasta. Mas a tese Mulheres Ministras no Portugal Democrático (2015) de Alexandra Monteiro, do Iscte, indica o oposto: o aumento de mulheres no ensino superior e no mercado de trabalho "não mostrou ajudar a uma maior nomeação de mulheres para cargos ministeriais" até 2011. "São os factores políticos aqueles que têm maior peso na hora da escolha de mulheres" (nomeadamente, o número de mulheres deputadas e nos órgãos do partido), que "recai totalmente sobre o primeiro-ministro". Para Eva Macedo, a solução passa, por isso, por criar "mecanismos de paridade legal" que impliquem a "representação paritária" no Governo. tp.ocilbup@ahnogeb.ana Ana Bacelar Begonha