2001 O ANO EM QUE A ECONOMIA RESISTIU AO 11 DE SETEMBRO
2023-07-28 06:00:27

Resiliência O colapso da nova economia agravou-se e o ataque terrorista prolongou a agonia bolsista. O crescimento da economia mundial abrandou para menos de 3% e Portugal entrou em plano inclinado 2001 O ano que escapou à crise apesar do 11 de Setembro Uma tragédia nunca vem só. O primeiro ano do século XXI conjugou a continua ção do colapso da bolha das dot.com com a surpresa do ataque terrorista da Al-Qaeda nos Estados Unidos a 11 de setembro que mataria quase três milhares de pessoas e fecharia a Bolsa até 17 de setembro. O choque foi tremendo, recorda Filipe Garcia, presidente da consultora Informação de Mercados Financeiros. “A sessão europeia a 11 de setembro até tinha começado bem e parecia que iríamos ter um ressalto que valeria a pena aproveitar. A meio do almoço ligam-me do escritório a dizer que tinha havido uma explosão em Nova Iorque, que um avião tinha batido nas Torres Gémeas. Quando cheguei ao escritório, vi o segundo avião a bater na outra torre.” O pior viria depois: “O que aconteceu na hora seguinte foi trágico, marcante, traumatizante. Sobretudo quando quisemos falar com brokers amigos que trabalhavam na Liberty Street, no distrito financeiro. Não atendiam e eu sabia que eles chegavam cedo ao escritório.” O ano terminaria sem se conseguir sair da onda negativa. Em dezembro, a crise argentina acabava com a declaração de uma bancarrota na dívida externa. As ilusões que a maioria tinha Ora nada disto era o que se esperava quando se entrou em 2001. Os analistas vaticinavam que a derrocada da nova economia seria travada. Mas enganaram-se, apesar de terem sido avisados muito cedo. Marc Andreessen, o responsável pela massificação da Web, quando criou o primeiro navegador, o Netscape, avisara, logo em janeiro, numa entrevista à revista “Fast Company” que “chegara a hora de cortar com os mitos”. A maioria não cortou e o resultado foi a continuação da catástrofe financeira. Só uma minoria não tinha ilusões. “Eu nunca pensei que o crash acabaria tão cedo. Devido ao enorme número de Ofertas Públicas Iniciais (IPO, na designação em inglês) em 1999 e 2000 e à baixa qualidade de muitas dessas empresas, sempre julguei que levaria muito tempo a ver-se a retoma”, diz-nos Peter Cohan, professor no Babson College em Boston, que escreveu diversos livros sobre a bolha tecnológica. O resultado das ilusões foi brutal. A capitalização bolsista global caiu de 28,13% do Produto Interno Bruto mundial em 2000 para 21,63% em 2001, segundo as contas do Banco da Reserva Federal de St. Louis, nos EUA, que dispõe de uma das melhores bases de dados do mundo (ver gráfico). Uma queda que só seria ultrapassada neste novo século pela crise financeira de 2008. Em Lisboa, o índice PSI-20 afundava-se 25%, quase o dobro da queda no ano anterior. O colapso bolsista estender-se-ia pelo ano seguinte e, no caso de alguns índices, como o Dow Jones e o S&P 500 nova-iorquinos e o próprio PSI-20 lisboeta, as perdas ainda seriam maiores em 2002 (ver gráfico). “No final do ciclo de queda, em 2002, as bolsas norte-americanas tinham perdido 5 biliões de dólares (4,8 biliões de euros, ao câmbio da altura) em capitalização desde o pico. Mais de 1000 empresas saíam de bolsa em 2001 e 747 no ano seguinte nos EUA”, afirma Cohan. “Segundo dados da National Venture Capital Association, os investimentos do capital de risco norte-americano nos últimos três meses de 2001 reduziram-se a 7,1 mil milhões de dólares (6,8 mil milhões de euros), quase um terço do registado no último trimestre do ano anterior, quando a bolha já estava a esvaziar”, acrescenta o especialista nos mercados tecnológicos. Em Lisboa, as cotadas diminuíram de 110 para 101 em 2001 e a capitalização bolsista emagreceu 18%. Mas no meio da tragédia do 11 de Setembro foi possível fazer dinheiro. “Fiz umas contas em segundos e comprei opções de venda sobre o Nasdaq [a bolsa das tecnológicas] através de warrants [títulos que conferem o direito, mas não a obrigação de comprar ou vender um ativo a um determinado preço numa determinada data]”, recorda Filipe Garcia. “Comprei e passado uns minutos o mercado fechou. Só consegui fechar essa posição curta vários dias depois. Acabei por o fazer com um ganho generoso, maior do que a perda nas ações. Ainda hoje isso traz-me um sentimento dúplice. 200 100 50 0 ASCENSÃO E QUEDA DA REVOLUÇÃO DOT.COM Capitalização bolsista mundial em % do PIB 22,1 1993 1995 1997 99 02 Nota: 1993 foi o ano em que Marc Andreessen criou o primeiro navegador na Web, o Mosaic FONTE: FEDERAL RESERVE ECONOMIC DATA/FEDERAL RESERVE BANK OF ST. LOUIS, EUA 28,1 21,6 20 21 Tomei uma decisão rápida e certeira. Talvez a minha melhor operação em termos de reação-decisão. Mas foi muito doloroso fechar uma posição ganhadora em cima de uma tragédia”, conclui. Apesar do colapso bolsista, a economia mundial aguentou-se em 2001. Desacelerou para quase metade do crescimento do ano anterior, mas evitou uma recessão (ver gráfico). O PIB mundial conseguiu crescer 2,5%. Mas no Japão a travagem foi brutal, crescendo apenas 0,4%, e nos EUA registou-se uma contração de oito meses, entre abril e novembro. Contudo, a economia norte-americana acabaria por avançar 0,95%. A zona euro e o Reino Unido comportaram-se muito melhor que as outras economias desenvolvidas, com um crescimento de 2,2%. A economia portuguesa ficaria abaixo da média da zona euro, com um crescimento de 1,94%, quase metade do ano anterior. Entrou em plano inclinado, mas escapou à crise que só lhe bateria à porta dois anos depois. Mas o comércio internacional ressentiu-se imenso: o seu crescimento caiu a pique de 12,4% em 2000 para 0,1% em 2001. A morfina monetária A política monetária ajudou em 2001 para se evitar uma crise. O custo do dinheiro desceu na vertical. A Reserva Federal norte-americana, chefiada pelo mítico Alan Greenspan, cortou 11 vezes os juros, de 6% para 1,75%, e o Banco Central Europeu, então dirigido pelo neerlandês Wim Duisenberg, desceu a taxa diretora quatro vezes entre maio e novembro, de 3,75% para 2,25%. Os analistas falaram, então, da salvação trazida pela “morfina monetária”. Em Portugal juntou-se-lhe um “relaxamento da política orçamental” na última parte do segundo Governo chefiado por António Guterres, referia o relatório anual do Banco de Portugal. O défice orçamental de 2001 levaria a várias correções sucessivas: de uma previsão inicial de 2,2% do PIB até 4,1%, depois de uma análise às contas públicas feita no ano seguinte já no Governo de Durão Barroso, até 4,8% no apuramento final. Mas o ano foi salpicado por algumas boas notícias. A Apple lançou em outubro o iPod, um dispositivo portátil de música que logo atraiu uma legião mundial de fãs, e a Microsoft introduziu a consola de jogos Xbox em novembro. Apareceu a Wikipedia, a enciclopédia online gratuita, e começaram sagas que ficaram célebres, como o primeiro filme de adaptação de “Harry Potter”, o “Shrek” e “O Senhor dos Anéis”. economia@expresso.impresa.pt Aviação: controlo, burocracia e uma década a sofrer O 11 de Setembro pôs fim ao processo de simplificação da aviação e veio mostrar que nas crises o Estado continua a ser o salvador Foi uma reviravolta que pôs fim à crescente simplificação das viagens aéreas que se vivia no início do século. É impossível esquecer a imagem irreal dos aviões a chocarem contra as Torres Gémeas, no coração financeiro de Nova Iorque. Há um antes e um depois do 11 de Setembro de 2001 e o impacto foi grande na aviação outra coisa não seria de esperar, os aviões foram a arma letal da Al-Qaeda contra a sociedade norte-americana. “A partir de 12 de setembro de 2001, as companhias tinham de mandar com 24 horas de antecedência a lista dos passageiros que iriam viajar para os EUA, e a TAP não foi exceção”, conta António Monteiro, então diretor de comunicação da transportadora. Foi um ponto final na privacidade dos dados, e no caminho de simplificação que se estava a traçar, permitindo tornar o processo de viajar mais fácil, mais célere nos horários e mais barato, sintetiza Monteiro. Na altura, a TAP tinha um voo diário para os EUA, precisamente para Nova Iorque, hoje tem muito mais, logo o impacto seria maior. Quase tudo mudou. A porta que liga o cockpit ao corpo da aeronave passou a estar trancada. E as medidas de segurança nos aeroportos treparam enormemente, passou a ser proibido viajar com objetos cortantes e as bagagens começaram a ser passadas a pente fino. Viajar tornou-se mais pesado para os passageiros, que passaram a ter de chegar com duas horas de antecedência para os voos internacionais. A identidade dos passageiros passou a ser certificada e controlada as bagagens só podem agora ser despachadas por quem vai voar. Houve novos episódios de tentativas de atentados com explosivos que apertaram ainda mais as regras. Foram, entretanto, instalados nos aeroportos detetores de corpo inteiro, para despistar dispositivos escondidos. E em 2017, na sequência de um ataque (falhado) usando dispositivos escondidos em material eletrónico, telemóveis e computadores Com o terrorismo e a pandemia consolidou--se a ideia de que todas as décadas o sector terá de enfrentar um problema sério começaram também a ser sujeitos ao raio-x. O terrorismo e a reversão das prioridades Os aviões tinham-se tornado vulneráveis ao terrorismo internacional. “O 11 de Setembro reverteu as prioridades da indústria, que teve de converter-se a uma realidade diferente daquela que estava à espera e que era de crescimento contínuo. Calcula-se que no primeiro ano após o 11 de Setembro as empresas de aviação tenham perdido 30% do seu valor”, avança António Monteiro, o histórico porta-voz da TAP. Voar tornou-se mais difícil, aumentou a burocracia e os custos para as companhias e os passageiros. As empresas passaram a ter de fazer mais simulações de voos e de contratar mais pessoas para fazer o controlo, lembra. “A ideia de simplificar o processo de viajar ficou no caixote dos projetos bonitos. A aviação passou a ter de lidar com um novo paradigma, consolidou-se a ideia nos últimos anos de que todas as décadas o sector tem de enfrentar um problema sério: depois do terrorismo veio a pandemia. As companhias têm de se adaptar”, defende. O céu não é o limite. A última foi uma crise muito dura, os aviões ficaram colados ao chão durante longos meses, e se não fossem os Estados a apoiar, o panorama do sector hoje seria diferente muitas companhias tinham falido. António Monteiro não tem dúvida, a aviação tem vindo a revelar nas duas últimas grandes crises que nem sempre é possível sobreviver sem o apoio do Estado. Por isso, deixa um conselho: a privatização da TAP deverá ter isso em conta. Anabela Campos acampos@expresso.impresa.pt 2001 EM REVISTA Espionagem no BPN “Dias Loureiro convida peritos em espionagem ”, é noticiado pelo Expresso a 12 de janeiro: “Daniel Sanches, ex-diretor do SIS Serviço de Informações de Segurança, e Lencastre Bernardo, ex-diretor do Serviço de Informações Militares, vão trabalhar para o Banco Português de Negócios a convite de Dias Loureiro. O antigo ministro de Cavaco Silva, atual acionista do BPN, conheceu os dois peritos em informações no tempo em que ocupava o Ministério da Administração Interna”. Nasce a Vivo no Brasil “A Portugal Telecom e a Telefonica, de Espanha, acordaram a constituição de uma holding para as suas empresas de telefones móveis no Brasil”, escreve o Expresso a 27 de janeiro. OGMA e aeroporto de Beja “OGMA vai participar na construção de novo Airbus militar” e “aeroporto de Beja quer ser alternativa a Lisboa e Faro” notícias de 2 de março. Bolsa em queda “Recessão mundial no horizonte: a grande queda registada esta semana na Bolsa portuguesa poderá deixar sequelas”, diz o Expresso de 24 de março. Jerónimo Martins ameaça “O grupo Jerónimo Martins está a equacionar a transferência para o estrangeiro das suas holdings. A informação foi avançada ao Expresso pelo presidente do grupo, Alexandre Soares dos Santos”, a 7 de abril. PQP, BES e ministro “Pedro Queiroz Pereira parte a loiça: empresário diz que Ricardo Salgado o traiu e que Pina Moura mentiu descaradamente ”, conta o Expresso a 9 de junho. Em causa a privatização da Cimpor, a que a Semapa se candidatou. Fusão na Bolsa portuguesa “Fusão BVLP/Euronext concluída no início de 2002”, diz o Expresso de 16 de junho. Orçamento com buraco “Orçamento retificativo já tem buraco de 50 milhões”, escreve o Expresso a 7 de julho. Turismo ameaçado “Recessão ameaça turismo”, diz o Expresso a 21 de julho. Barragem de Alqueva “Alqueva custa mais 10 milhões”, lê-se a 1 de setembro. Impactos do 11 de Setembro “Economia mundial e bolsas: no fio da navalha”, lê-se na edição de 22 de setembro, onde são detalhadas as consequências dos atentados terroristas de 11 de Setembro nos EUA: “Fed e BCE dão confiança aos mercados; Recessão nos EUA é inevitável, mas deve ser curta; Europa também vai sentir abrandamento; receios de guerra fazem cair bolsas mundiais; companhias aéreas à beira da catástrofe”. BCP com prejuízos nos EUA “BCP perde 80 milhões pelas regras dos EUA”, lê-se a 27 de outubro. TAP perde 3 de novembro: “TAP perde 15% do tráfego”. Moeda única substitui escudo “Adeus, escudo, olá euro!”, título de 29 de dezembro. Pedro Lima plima@expresso.impresa.pt FOTO GETTY IMAGES ECONOMIA ABRANDA E CONTAS PÚBLICAS DEGRADAM-SE Depois de quatro anos de crescimento acima dos 3% e mesmo dos 4% chegando a aproximar-se dos 5% , a economia portuguesa entra numa nova fase, com a primeira década do século XXI a ficar marcada por estagnação e mesmo recessão. Em 2001, o Produto Interno Bruto (PIB) ainda cresce, mas o avanço de 1,9% fica já bem abaixo do registado nos anos anteriores. Ainda assim, a taxa de desemprego mantém-se quase inalterada e perto de mínimos, nos 5%. Já a inflação acelera para 4,4%, o valor médio anual mais elevado desde 1994. Nas contas públicas, o défice orçamental agrava-se, para os 4,8% do PIB, e o rácio da dívida pública também aumenta, para os 57,4% do PIB. Mantém-se, contudo, abaixo da fasquia dos 60%, inscrita no Tratado de Maastricht que traçou o caminho para a moeda única europeia. Será o último ano que o peso da dívida pública portuguesa no PIB ficará abaixo dessa linha vermelha. Seguem-se anos de forte aumento, ultrapassando já os 100% em 2010. Mantém-se, ainda hoje, acima dos 100% do PIB. O ciclo político também muda. No final de 2001, o primeiro-ministro António Guterres demite-se, após os resultados do PS nas autárquicas. Seguir-se-á Durão Barroso à frente de um Governo PSD/PP. Sónia M. Lourenço Os atentados terroristas mudaram a nossa vida. Mas, apesar da turbulência financeira, o mundo escapou a uma recessão E10