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GUIMARÃES - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL AO SERVIÇO DOS ATOS MÉDICOS

Jornal de Notícias

2024-12-29 07:02:05

Nasce em Guimarães tecnologia para libertar o médico do computador Investigação do maior laboratório associado do país, instalado há um ano em Couros, centra-se no uso de inteligência artificial locais Ciência - Na Universidade do Minho, há estudantes de doutoramento em inteligência artificial que estão a desenvolver uma tecnologia que liberta os médicos do teclado do computador, para que possam focar-se nos doentes. É uma das aplicações práticas da investigação que se faz, há cerca de um ano, no Laboratório Associado de Sistemas Inteligentes (LASI) e que podem servir finalidades tão distintas, como ajudar no diagnóstico médico de pacientes ou melhorar a gestão das cidades. O LASI está sediado no campus de Couros, em Guimarães, e junta mais de 500 cientistas e 13 centros de investigação de sete universidades na área da inteligência artificial. É o maior “laboratório associado” entre os 40 existentes no país. Atualmente, os médicos são obrigados a fazer uma série de perguntas aos doentes, ao mesmo tempo que vão preenchendo um formulário no computador. Isto impede que se estabeleça um diálogo normal entre o doente e o médico e corresponde a uma das queixas mais frequentes dos utilizadores dos serviços de saúde, que veem esta tarefa como falta de atenção do clínico. É para resolver este problema que um grupo de doutorandos do LASI está a trabalhar num software que é capaz de, a partir da gravação de uma conversa normal, extrair a informação relevante para preencher a anamnese (o questionário médico). AGILIZAR O DIAGNÓSTICO José Machado, investigador do LASI, dá o exemplo dos diagnósticos médicos com recurso a imagens, onde a inteligência artificial já tem um papel importante. "Antigamente, quando se fazia um raio-x, o médico tinha apenas uma chapa. Atualmente, com tecnologias como a TAC (tomografia axial computorizada) ou a ressonância magnética, são produzidas centenas de imagens em corte. O médico não vai olhar para todas elas ou vai levar imenso tempo a fazê-lo”, esclarece. A imagiologia é uma área da medicina em que a inteligência artificial já está a ser abundantemente usada para aumentar a agilidade e a eficiência, mas também para reduzir os erros e conseguir diagnósticos mais precisos. Estes dispositivos são capazes de detetar padrões subtis que escapariam ao radiologista, até porque os bancos de imagens usados para treinar estas “máquinas” têm uma quantidade imensa de dados, em permanente atualização. “A inteligência artificial é como um binóculo que nos permite ver no meio da complexidade”, ilustra Paulo Novais, investigador e coordenador do LASI, que pertenceu, durante mais de uma década, à equipa de direção da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial. Num tempo em que somos inundados por enormes volumes de informação, é impossível a um ser humano gerir, em tempo útil, os dados que estão disponíveis para tomar decisões. É aqui que entra a inteligência artificial. AJUDAR A TOMAR DECISÕES Este processo de auxílio na tomada de decisão é o que se pretende numa “smart city”, outra das linhas de investigação do LASI. Trata-se de recolher dados, através de sensores, sobre um conjunto de aspetos do funcionamento da cidade “para, depois, detetar padrões e, a partir daí, tomar as melhores decisões”, frisa Paulo Novais. O LASI tem em andamento uma candidatura para construir um gémeo digital do Bairro C (uma zona distinguida, pela UNESCO, como Património da Humanidade, em setembro do ano passado), em Guimarães. Podemos imaginar o presidente da Câmara vimaranense com acesso a um “Sim City” (jogo de construção de cidades) do Bairro C, em que pode testar as soluções antes de implementá-las no terreno. O investigador José Machado reconhece que as primeiras versões “não serão um clone da realidade”, mas um modelo digital de alguns aspetos da cidade. O professor aponta o caso de Singapura, que criou um gémeo digital para aumentar a eficiência dos transportes, melhorar a gestão de energia, facilitar o acesso aos serviços públicos e promover a segurança pública. PERIGOS DA TECNOLOGIA A propósito das aplicações nocivas da inteligência artificial, Paulo Novais diz que esta é como com todas as tecnologias humanas. “Uma enxada serve para cavar a terra e produzir alimentos, mas também pode servir para resolver uma disputa e acabar por ser uma arma mortal”. Em todo o caso, o professor reconhece que, “desta vez, há alguma coisa de diferente, porque estamos a mexer com aquilo que nos coloca no topo da pirâmide”. Paulo Novais destaca o facto do Direito já não se referir a estas tecnologias como ferramentas, mas sim como “artefactos”. Este especialista não despreza os perigos de aplicações como o reconhecimento facial ou os programas de atribuição de créditos sociais (ambos proibidos na União Europeia) e aponta o caminho da regulação e do diálogo entre os diversos ramos do saber. “A ovelha Dolly foi clonada em 1997 e, hoje, não temos o mundo cheio de clones. Há uma bioética que é geralmente aceite, o que não quer dizer que não há violações”. CHATGPT PORTUGUÊS “Amália” exclui uma parte da comunidade Paulo Novais não concorda com o modelo escolhido pelo Governo, que entregou o desenvolvimento do LLM (“large language model”) português - Amália - ao Nova Lincs, da Universidade Nova, e ao Instituto de Telecomunicações, do Instituto Superior Técnico, “excluindo o resto da comunidade científica de IA”. O coordenador do LASI não contesta a competência, mas questiona o método “num país em que tudo tem de ser feito por concurso público”. Paulo Novais é o coordenador do Laboratório Associado de Sistemas Inteligentes SABER MAIS Linhas temáticas O LASI tem como linhas temáticas as indústrias inovadoras e sustentáveis, as cidades inteligentes, a energia e a mobilidade, a saúde e o bem-estar, as infraestruturas e a sociedade conectada e a administração e a governança. Bairro C digital Os objetivos da criação de um Bairro C digital passam pela monitorização das emissões e do consumo de energia em tempo real, para desenvolver estratégias de redução das emissões de carbono; pela criação de uma logística verde e transportes ecológicos multimodais; e por fazer uma transição industrial, promovendo a economia circular e diminuindo desperdícios e consumo de energia.