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EDUARDO RANGEL - HÁ UMA SEPARAÇÃO ENTRE DIREITA E ESQUERDA QUE NÃO É SAUDÁVEL. O PAÍS PRECISA DE UM BLOCO CENTRAL

Exame

2023-06-29 20:01:02

Aos 70 anos, Eduardo Rangel tem muitas vidas dentro da vida. A ditadura em que cresceu criou-lhe uma “ânsia de revolta” a que pôde dar largas na juventude. Foi um dos militares de Abril e deixou-se “embalar” na extrema-esquerda. A sua evolução como empresário acompanha a evolução do País. O seu apelido é sinónimo do maior grupo português de logística global. Teve, e continua a ter, várias propostas de compra. Mas como se vende uma vida? Considera-se um homem “mais de emoção e coração” do que de razão. Ao contrário do C filho, Nuno , a quem passou a gestão executiva do Grupo Rangel, em 2013 ,, lutou “para ter alguma coisa”. Teve olho para aproveitar as oportunidades da integração de Portugal na CEE. Fatura EUR250 milhões. “Vivo bem, mas não tenho a fortuna de muitos outros”, que sem terem criado empresas “souberam aplicar o dinheiro em ações ou imobiliário”, diz. “Não tenho inveja. Cada um ganhou o que pôde.” Eis o resumo de uma longa conversa, descontraída e sem filtros. Quem era o jovem que, em 1980, se despediu para criar a sua própria empresa? Comecei a trabalhar com 16 anos na Alfândega do Porto, primeiro como praticante de despachante e depois como ajudante. Quando cheguei a ajudante, tirei ilações. Despedi-me e montei atividade de transitários internacionais [a Eduardo Rangel, Lda.]. Já tinha 27 anos e a ambição de ser autónomo. Mas tinha um problema: não era despachante. Portanto, tinha de concorrer a despachante e conseguir um lugar era um totoloto. Os concursos eram raros. Só apareceu um em 1983 e eram 600 candidatos para 17 vagas. Lutava-se pelo lugar como leões. Concorri e fui o primeiro classificado. Para isso, tive de estudar muito. Gravei 60 cassetes de 60 minutos, com informação aduaneira, e estive cerca de três meses a estudar, fechado num hotel. O que fazia, então, um despachante? Os clientes entregavam-me os seus documentos quando recebiam mercadorias em Portugal. E tratava de tudo junto da alfândega, hoje Autoridade Tributária Aduaneira. Calculava impostos as pessoas não têm noção, mas cada artigo tem um número, uma classificação, sobre a qual incide o imposto. Atribuía um número a todo o tipo de artigos. Mas a pauta aduaneira tem milhares de artigos e tudo é possível de importar. Até mesmo um cadáver, alguém que morreu fora. Era um trabalho muito minucioso e rigoroso. Não era fácil. Havia uma biblioteca enorme para consultar. Só nos têxteis, eram milhares de artigos pautais para classificar. Até tínhamos de ter uma lente para ver a trama do tecido, porque as taxas eram todas diferentes. Hoje é tudo muito mais simples Seis anos depois de ter criado a empresa, Portugal aderia à CEE e eliminava as barreiras alfandegárias. Houve um decréscimo violento. Logo, 70% do meu negócio ia voar. Já tinha noção disso? Já. Havia colegas mais velhos que diziam: “Oh pá, isso nunca vai acontecer.” Mas dediquei-me muito a perceber o que seria o futuro e comecei a frequentar Bruxelas. Conhecia o Diretor-Geral das Alfândegas e, como era muito ativo, ele convidava-me, por vezes, a ir com ele às conferências do Conselho Europeu. Uma delas impressionou-me muito, com os conferencistas da Europa do Norte, sobretudo alemães, suecos, noruegueses, todos pelo fim das alfândegas. E um alemão pega numa barreira das alfândegas, começa a parti-la em cima da secretária, e a gritar: “Acabou--se, acabem com isto.” E eu: “Vou tratar doutra vida, porque isto de alfândegas não vai durar muito.” Viveu em Bruxelas? Tinha lá um apartamento e ficava por lá dois ou três meses, para ir acompanhando. Até porque comecei a pensar em escrever um livro sobre o impacto disto: A União Aduaneira e Seus Reflexos nas Alfândegas (a legislação europeia e a legislação nacional). E escrevi. Sentiu vontade de desistir? Sim. Mas disse: “Bom, meus amigos, vou ter de fazer outras coisas.” A primeira relação dos despachantes é com os transportes internacionais. Comecei por aí. Fui buscar uma equipa jovem bastante boa a um concorrente e, em 1989, montámos a Rangel Transitários, três anos antes de entrar em vigor [a 1 janeiro de 1993] o mercado único. Deu algum tempo de conforto. E foi uma grande oportunidade. Transferi algumas pessoas do despachante para o transitário. Éramos uns 70 e despedi aí uns 20. Não tinha solução. Mas continuei a pensar no que seria a evolução do mundo dos transportes e da logística. Desapareceriam as fronteiras alfandegárias, mas haveria sempre circulação de mercadorias. Exatamente. E muita! E cada vez mais! Era muito mais simples, o crescimento das importações foi enorme. Comecei a conhecer melhor os processos de gestão da logística. São curiosos. É preciso muita tecnologia para gerir muita mercadoria que se tem no armazém, alocada em determinados sítios, saber onde estão e depois fazer o picking, que é tirar dali as quantidades encomendadas. Que estudos fez para chegar aí? Com 16 anos, só tinha chegado ao 9.º ano de escolaridade. Depois dos 16, estudei sempre à noite. Primeiro, cheguei ao 12.º ano na Escola Comercial de Vila Nova de Gaia. Depois, fui para a Escola Comercial do Porto, onde fiz um bacharelato em Contabilidade. Estudava de noite e trabalhava de dia como despachante. Foi assim durante anos. Nasceu e cresceu em Valadares, Vila Nova de Gaia. É filho de mãe costureira e pai sapateiro. Eram os estilistas da época. A minha mãe fazia vestidos lindíssimos. E o meu pai desenhava sapatos e fazia-os muito bem. Muito me honra isso. Tive uns pais fantás-ticos. Éramos quatro filhos, três rapazes e uma rapariga. Eu era o segundo mais velho. Os outros dois eram muito mais novos. O meu irmão mais novo tem menos 13 anos, e a minha irmã menos 15, já faleceu. E outro irmão era mais velho um ano. Os dois mais novos vieram trabalhar comigo. Como foi a sua infância? Tive uma mãe muito rigorosa, que me obrigava a estudar. Era daquelas portuguesas de chinelo na mão [Risos]. O meu pai era mais amoroso, simpático, não tão exigente. Tinham apenas a 4.ª classe. Os meus avós maternos eram lavradores e vivemos ali todos em comunidade. Os avós paternos não conheci, porque o meu pai era filho de pai económico [sic], que é o mesmo que incógnito [Risos]. Eu apreciava imenso o pai da minha mãe. Era um homem com uma estrutura mental fora do comum. Não sabia ler nem escrever. Por isso, a preocupação dele era que eu estudasse. Se eram lavradores, tinham muitos terrenos? No início, não. Depois, sim. O meu avô emigrou para o Brasil com 21 anos, num barco clandestino. Foi a sorte dele. Ao fim de cinco anos regressou, de paletó branco, com um relógio de bolso de ouro , que me ofereceu na primeira comunhão , e comprou uns terrenos. Eu era o mais parecido com ele, loiro e de olhos azuis. E o que fez o seu avô no Brasil? Primeiro, descarregou, dos navios, sacos de farinha às costas. Depois, acabou nas padarias a cozer pão, até se estabelecer. Teve uma padaria, com um sócio, mas o sócio roubou-o. Então, veio embora, tinha saudades das filhas. Já tinha algum dinheiro guardado e foi uma boa base para o seu negócio agrícola. Comprou uma quintazinha, uns terrenos, fez uma casa para a minha mãe, outra para a minha tia. Em cinco anos, ganhou uma pequena fortuna. Mas a trabalhar muito. Dizia-me que só dormia três ou quatro horas à tarde e, de resto, era sempre a andar Morreu com 89 anos. Era um homem muito especial, com muita coragem. Se tivesse tido oportunidade de tirar um curso superior, seria um génio. Foi essa a lição que tirou? Que é preciso coragem? Foi. E a inspiração. Ele é que me empurrava para arranjar emprego na alfândega. O marido de uma vizinha era despachante. E ele disse-me: “Vais aproximar-te desta senhora, que é ela que te vai mandar para a alfândega.” E foi! Ele não desistia: “Vai lá levar uns ovinhos à senhora.” Isso era a tradicional cunha [Risos]. A senhora lá acabou por falar com o marido. Fui com ele para a sala de despachantes e assustei-me com tanta gente, aquele ruído todo. [Percebi que] para ter carreira tinha de estudar mais. Aí percebeu o valor da educação? Era muito importante. Mais tarde, fiz vários cursos de gestão, um na AESE [Business School]. E fiz um programa de alta direção de empresas, durante um ano. Depois, fui convidado para ir a Londres fazer um curso intensivo de logística e transportes. Ser despachante não foi uma vontade sua? Não. Nem sabia o que isso era. Pareceu--me boa ideia, porque o senhor vivia muito bem e tinha uma grande casa [Risos] e um grande carro. Ganhava-se muito dinheiro, sem dúvida nenhuma. Abri a minha empresa em 1980, só fui despachante três anos depois, mas nesses três anos contratei um despachante para assinar [por mim] os documentos. Consegui, de facto, juntar rapidamente muito dinheiro. Em 1984, investi logo na minha primeira casa, uma vivenda em Miramar, com piscina, etc. Mas tinha 16 anos quando foi para a alfândega, em 1968 e fui para ajudante em 72. Depois apanhei o serviço militar. Fui um militar de Abril, um dos que fizeram a revolução. Ainda tenho um cravo guardado. Então é mesmo caso para lhe perguntar: onde é que estava no 25 Abril de 1974? [Risos.] Entrei, em 1973, nas Caldas da Rainha, como furriel miliciano, para fazer a recruta. Depois, fui transferido para a Póvoa de Varzim. Como era homem de contabilidade e alfândegas, fui gerir messes e alimentação. Em 1973, sentia que alguma coisa ia mudar no regime? Sentia, porque tive sempre uma vocação um bocado revolucionária. Ainda na alfândega, lia, escondido, uns livros que me arranjavam. E na sala dos despachantes, passavam, por vezes, uns folhetos de esquerda. Considerava que vivia num regime fascista? Numa ditadura. Na noite de 23 [de abril de 1974], os oficiais e sargentos foram chamados à messe pelos dois capitães do quartel, que nos disseram: “Vai haver uma mudança de regime, porque vamos fazer um golpe de Estado e precisamos da vossa ajuda. Quem quer participar, participa. Quem não quer, já não sai daqui. Vai ali para uma sala e vai ter de lá ficar.” Houve só um alferes, monárquico, que disse: “Eu não faço revoluções.” A cada um foi atribuída uma missão. A mi-nha era interessante. Não era possível comunicar, por rádio, na noite de 24 para 25 e, portanto, tinha de ser verbal. O quartel que vinha tomar conta do aeroporto do Porto e cercar a Via Norte era o BC9 [Batalhão Caçadores], que estava em Viana do Castelo, [formado] por mil homens prontinhos para irem para Angola. A minha missão era ligar o quartel-general do Porto com o BC9 e informar qual o andamento da situação. Saí da Póvoa numa carrinha civil, com uma G3 e uma granada no banco de trás. E fui, de noite, do quartel-general do Porto até ao de Viana. A estrada naquela altura era violenta, demorava muito tempo. E não sabia se não era logo preso à chegada. Mas não. Estava tudo bem controlado. Já havia um oficial à espera de aparecer alguém a dizer como é que estava a rapaziada. “Estão ansiosos que vocês cheguem. Podem pôr-se a andar, porque às 3h da manhã é o toque final.” E assim foi. Voltei para o quartel-general do Porto e depois para a Póvoa. E, na Póvoa, fizemos a segurança das pontes para o BC9 passar, porque se destruíssem uma ponte daquelas ia ser uma grande confusão para aqueles mil homens chegarem ao Porto. O mais engraçado é que às 3h, 4h da manhã, mais ou menos, o BC9 ainda não tinha passado. Mas passavam muitas carrinhas de hortaliças dos agricultores da Póvoa e de Vila do Conde para o mercado. Tínhamos instruções para os mandar parar, mas não paravam. Aceleravam, com medo [Risos]. “Oh pá, ninguém dispare. Não parou, não parou, acabou”, disse. Mas também ninguém tinha balas [Risos]. No dia seguinte, foi a festa na Póvoa. Tivemos um banho de multidão. Lá me puseram um cravo na arma, que guardo até hoje. Está embalsamado. Quando diz que, naquela altura, era muito revolucionário, o que é que isso queria dizer para si? Porque depois me deixei embalar na ala esquerda. Tornou-se comunista? Não, ainda mais à esquerda. Nunca gostei muito do Partido Comunista. Nunca fui militante, mas convivi muito com a malta da UDP [União Democrática Popular] e depois com a do MES [Movimento de Esquerda Socialista]. Porque, depois do 25 Abril, fui colocado na 2.ª repartição do quartel-general do Porto, onde se juntaram os revolucionários e o COPCON [Comando Operacional do Continente, criado pelo MFA , Movimento das Forças Armadas]. Fez parte do COPCON? Acabei por fazer, porque toda a 2.ª repartição era do COPCOM e quem mandava era o Otelo. Conviveu com Otelo? Não. Convivia com o [Eurico] Corvacho, que era o comandante da Região Militar do Norte. A mulher do Corvacho era uma francesa da Córsega, uma senhora muito revolucionária. Mais do que ele. Também havia ali muita malta socialista, da fação mais à esquerda, que criou o MES. Comecei a frequentar o grupo, mas sem militância ativa. Defendeu algum movimento armado? Nunca. Achei sempre que era possível a gente conversar, discutir, fazer manifestações , e algumas. Nunca houve matar por matar. Vinganças, não vi. Aliás, uma vez fui buscar um militante do MRPP, apanhado com mapas militares junto à fronteira de Espanha, que foi preso pelo quartel de Chaves ou de Bragança. Era o Saldanha Sanches! Tinha de o trazer para o Porto. Tratámo-lo muito bem, mas não falou connosco toda a viagem, umas seis a sete horas, naquela altura. E ele não comia nem bebia. “Oh pá, ainda vai morrer antes de chegar ao Porto.” Comprei-lhe um prego no pão e uma bebida e ele não lhes tocou. Acabou por passar o PREC no meio militar sempre próximo dessa extrema-esquerda? Sim. Depois, fui saindo da extrema-esquerda e aproximando-me da esquerda socialista. Tanto, que me tornei simpatizante de Mário Soares e, mais tarde, até tive uma relação próxima. Em 1975, houve o golpe de 11 de março, depois o 25 de novembro Como viveu estas oscilações? Era normal. Estava tudo a tirar as amarras e ninguém sabia para onde ia. Eu próprio nunca defini bem o meu rumo político. Acabei no Partido Socialista, que depois também deixei Nunca tive militância em partido nenhum. Acabei por seguir a ideologia que mais se adequasse ao momento. Houve momentos em que o PS era bom. Depois de Mário Soares, já não consegui engrenar muito bem com o PS. Gostei do tempo do Cavaco. Conheci-o, era um homem de rigor, muito eficaz no que dizia e fazia. Mas logo a seguir ao 25 de Abril, tínhamos Spínola, Vasco Gonçalves Vasco Gonçalves nunca me cativou. Nem o Spínola. Porque ele entrou no extremismo da direita. Ajudou os militares de Abril a resolver os problemas com Marcelo Caetano e Américo Tomás, fez ali um bom trabalho, até ser Presidente. Era um homem com bom senso. De repente, quis encostar toda a gente à direita, o que já não era de tão bom senso. Começou a ter as ideias de uma direita absolutista, difícil de compreender até, dado que ele tinha escrito um livro fantástico antes do 25 de Abril [sobre a libertação das colónias]. Já o Vasco Gonçalves foi sempre um radical, manipulado pelo PC. O MRPP também nunca tive em conta. O MES, sim, era um partido de intelectuais, advogados, escritores, jornalistas, gente com um nível cultural mais alto. Ninguém era radical. Discutiam-se muito essas coisas dentro da sua unidade? Sim. Mesmo na 2.ª repartição, onde supostamente o COPCOM mandava, tínhamos tendências diferentes. Mas havia os fanáticos. Não esqueçamos que Otelo teve um milhão de votos na candidatura a Presidente da República. Se bem que Otelo não intervinha muito na 2.ª repartição. Era o [Eurico] Corvacho, um militar, tipo “fizemos a revolução, agora temos de aguentar isto”. O que significaria para o País, o que é que pensou? Todos ansiávamos por liberdade, que era o bem mais precioso. Hoje, os mais jovens nem sabem o que é isso, não é? Mas antes de 74 não podíamos fazer 90% do que fazemos hoje. Para mim, o 25 de Abril tinha dado um grande passo nesse caminho. Depois, era preciso pôr a economia a funcionar. Nunca tinha saído do País até então? Só a Espanha e a salto, com um cunhado, para ir buscar Coca-Cola a Tui, que não havia em Portugal. Tinha 19 anos. Nunca tinha bebido Coca-Cola e como todos falavam Acampámos em frente à igreja de Valença, num largo onde havia um campo de milho. E atravessámos durante a noite, pela ponte da linha de ferro de Valença. Espanha era outra ditadura. Aliás, tenho outra história curiosa em Espanha, quando lá fui já casado. Fui, em 1976 ou 77, à Plaza Maior, em Madrid, e estava a decorrer uma grande mafiz nifestação contra o Franco. Era um perigo entrar ali, com tanta polícia. Ainda estava com o sangue da revolução e andámos ali no meio. Levei umas mangueiradas e conheci uns jovens que nos levaram depois para a casa deles, onde estavam argentinos, chilenos Foi uma visita histórica para mim. Casou-se em que ano? Em 76. Saí da tropa em 75, naquele processo de limpeza das Forças Armadas das pessoas que se julgavam ligadas ao COPCON. O Presidente era o general Ramalho Eanes. Há dias estive com ele, num jantar, e disse--lhe: “Sabe que fui um dos que andaram lá na revolução?” E ele: “Então nem sei como não o prendi.” [Risos.] Em 1980, cinco anos depois, surgiram as FP-25 [Forças Populares do 25 de Abril] Sobre isso, também tenho uma história. Na 2.ª repartição, havia uma rapariga que era mulher de um rapaz que trabalhava com um ajudante de despachante. Tornou-se minha amiga. Era uma militante socialista. Conversávamos muito sobre política e, um dia, veio jantar a minha casa, a Miramar. Quando ela entrou, achei estranho ver um carro a dar sinais de luzes! Mas não associei a nada. Saímos depois para ir tomar café e continuei a ver uns carros esquisitos atrás de nós. Bom, no dia seguinte, li no JN que tinham sido apanhadas 25 metralhadoras G3 em casa dela. E ela e o marido tinham sido presos. Depois vi que tinham entrado no meu quintal e que andaram lá a escavar, supondo que eu também podia ser [das FP] Mas não tive problema nenhum. Eles estiveram presos dois anos. Foram libertados com uma amnistia de Mário Soares. Quando sai da tropa, vindo desse ambiente, volta para o seu emprego de ajudante de despachante. Como é que se enquadrou? Aí percebeu que tinha de ser patrão? Eu era muito amigo do meu patrão, até foi meu padrinho de casamento. Só que ele, a determinada altura, começou a desaparecer durante meses. Ia viajar com um amigo. E deixava-me o encargo do escritório. Tinha 22, 23 anos, e era muito violento assumir tudo perante os clientes e alfândegas. Deixou-lhe o menino nos braços Comecei a ficar irritado. Escrevi-lhe uma carta a dizer: “Ou fazemos sociedade ou vou embora.” Ele não deve ter acreditado. Fui embora. Arranjei um escritório na Rua da Restauração, convidei o meu irmão e um colega que trabalhava lá e começámos com dois ou três clientes. Depois, foi sempre a andar. Tinha muita dedicação ao trabalho. Trabalhava 16, 17 horas por dia, sempre ao sábado de manhã e a partir das 17h ao domingo. Durante a semana, nunca chegava a casa antes das 9h da noite. Tinha pena, muita pena, de nunca ver os meus filhos. Em 79, tive o meu filho. E em 83, a minha filha. Chegava tarde, tinha muitos jantares fora e acompanhava-os pouco à noite. Levava-os ao colégio de manhã. Um andava no Colégio Alemão, outro nos Cedros. Nos primeiros anos, tive uma vida muito violenta. E à medida que o grupo ia expandindo para outras áreas de negócio, como quando ficámos com a representação da Federal Express (FedEx) e outros negócios importantes, era preciso trabalhar muito para pôr tudo a funcionar bem. E quanto mais crescia, mais trabalhava. Eu era diretor financeiro, diretor de marketing, diretor de recursos humanos, o dono, o despachante, tudo! Até aos 50 e tal anos, tive uma vida sempre muito dura. Nos primeiros anos, tirava uma semana de férias. Mais tarde, tirava duas e uns dias no Natal. Passou de um revolucionário-capitão--de-Abril para um facho-empresário--capitalista, fazendo uso da linguagem da época? [Risos.] Se perguntar aos que passaram por mim, nunca tive problemas com sindicatos ou comissões de trabalhadores. Dos 2 600 trabalhadores que temos hoje, há só um com quem me incompatibilizei. Nunca ninguém me chamou fascista ou me acusou de não cumprir. Mas começou a viajar ou a sua vida foi só o trabalho? Viajava para ver como tudo funcionava. Tinha uma grande curiosidade pela tecnologia. Em 1984, percebi que as alfândegas estavam muito desatualizadas, aqueles papéis deviam ser informatizados. Ainda estávamos na fase de cartões da IBM, mas desafiei o Diretor-Geral das Alfândegas, que era do Porto, a fazermos qualquer coisa. “Estou a desenvolver programas para digitalizar documentos, fazer a transmissão de dados entre despachantes e alfândegas”, disse. Associei-me a um engenheiro informático e fizemos duas empresas. Uma desenvolvia software e outra vendia equipamentos. Primeiro, fiz software para o meu escritório e para despachantes. Cheguei a passar 48 ou 72 horas sem dormir, à espera, como quem espera por uma criança, que saísse o primeiro papel digitalizado do sistema informático! Fizemos muitos programas e vendemos muitos computadores a 50% dos concorrentes. Ainda hoje temos uma equipa enorme a desenvolver muitos programas. Já estava a diversificar? Um dia, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais veio ver como era. Foi o primeiro a fazer a ligação com as alfândegas. E eu fui o primeiro despachante a enviar documentos por via eletrónica à alfândega. Os meus colegas da Câmara dos Despachantes protestaram junto do governo, acusaram-me de ter sido privilegiado, quando eu é que fiz o trabalho todo e até ajudei as alfândegas! A partir daí, fui proscrito, não pelos colegas, mas pela Câmara dos Despachantes. Eu andava mais à frente e, em vez de se aliarem comigo, eram contra mim! Uma coisa muito portuguesa. Foi à conta da tecnologia que, em 2009, entraram no mercado farmacêutico e criaram a Pharma? Sim. Consegui um contacto com o presidente da Roche, na altura, um italiano muito simpático. Fui almoçar com ele e disse-lhe que gostava de fazer logística farmacêutica. “O que sabe?”, perguntou-me. “Não sei nada. Mas queria aprender com a empresa mais exigente, mais tecnológica e mais eficaz. Esta é uma boa razão para apostarem em mim.” Meio ano depois, telefonou e disse-me: “Vamos falar.” Andámos um ano a preparar a entrada no setor. Temos a gestão de frios, de temperatura controlada, de psicotrópicos, e tudo tem de ser guardado em sítios diferentes. É tecnologicamente muito avançado. Foi um investimento brutal. Mas, passados 14 anos, somos líderes do mercado. 76 laboratórios, a maioria, trabalham connosco. Houve momentos-chave no crescimento da empresa. O primeiro foi a colaboração com a americana FedEx? Foi um grande momento, porque divulgou internacionalmente o Grupo Rangel. Era a maior companhia do mundo da rede expresso. Se, no setor farmacêutico, me diziam “se trabalha para a Roche, não precisa de mostrar certificados de qualidade”, nos transportes era “se a FedEx confia em si, também confiamos”. Ter confiado em nós, entregando-nos a representação exclusiva, foi fantástico. Tudo, desde as carrinhas aos escritórios, tinha o nome FedEx. Mas era tudo da Rangel. A FedEx não tinha cá um tostão, só trazia os aviões aos aeroportos. Era um negócio que crescia muito e com margens muito boas. Como conseguiu esta parceria? Procuramos oportunidades e vemos onde estão as que melhor nos servem. O caso da FedEx é curioso, porque não se via em Portugal. Descobri que era representada por uma empresa espanhola, que fazia entregas em Portugal. E que o chefe da FedEx para Portugal estava em Zurique e era português! Falei com ele, que me disse que essa tarefa tinha passado para um francês responsável pela abertura do escritório em Madrid. Falei com este, namorei-o uns tempos, até que o trouxe a Portugal. Perguntei-lhe como é que se fazia, que começava a fazer. Assim nasceu a FedEx aqui, primeiro na atividade aduaneira, também importante para eles, porque muitas encomendas vinham dos Estados Unidos e da Ásia. Precisavam de um despachante e eu era despachante. Ótimo. E, depois, também percebíamos de transportes. A partir daí, criámos uma relação muito próxima. Que ainda temos, porque continuamos a representar a FedEx em África. A FedEx abriu portas à internacionalização do grupo? Abriu. Em 2006 fui a Angola na comitiva do Sócrates e deixei-me seduzir. Comprei uma empresa pequena e nasceu a Rangel Angola. Temos hoje 300 empregados lá, filiais em vários sítios, com várias operações logísticas e de transportes internacionais. É a maior operação FedEx que temos neste momento. Memórias da revolução Imagens que Eduardo Rangel guarda do período revolucionário em que esteve nas Forças Armadas, incluindo o cravo que lhe deram a 25 de Abril de 1974 Em Portugal, a parceria acabou em 2019. Porquê? Isso também teve a sua graça. Quando a FedEx comprou a [holandesa] TNT, naturalmente ia migrar o nome FedEx para a TNT. Tinha de jogar uma cartada qualquer: ou segurar o mais possível o negócio ou vender uma parte. O que aconteceu? Quem trabalhava muito com a FedEx em Espanha eram os correios espanhóis. Contactei-os e pus o meu filho a negociar com eles a venda de uma posição importante da Rangel Expresso, que tinha o logótipo da FedEx. Vendemos 51% do capital aos correios espanhóis e ficámos com 49%. Ficaram eles a mandar, mas foi uma boa decisão. Era mais do que lógico que tentasse ganhar algum dinheiro depois de tantos anos com a FedEx. E correu bem. Era tudo gerido por si. Nunca teve medo de, ao crescer rapidamente, perder o controlo? Ter exercido muitas funções prejudicou um bocado. Era muito o “one man show”. Tinha a mania de que não precisava, que sabia Claro que fui criando equipas. Sempre que me metia num negócio novo, procurava pessoas de muita qualidade. Era exigente. Muitos, fi-los eu. Terminavam a faculdade de Economia ou Gestão, trazia--os, mantinha-os dois, três anos comigo, e depois soltava-os no negócio. A verdade é que nunca houve nomes sonantes [no conselho]. O defeito de princípio era a empresa chamar-se Rangel. Quando percebiam que era uma pessoa, queriam falar com ela. Lá ia eu visitar empresas até com poucos negócios. Nunca virei as costas a ninguém. Temos de manter a humildade. Somos aquilo que merecemos e temos de fazer por merecer. E para merecer é preciso trabalhar. A sua evolução como empresário acompanha, de certa forma, a evolução do País, não é? Começa na extrema-esquerda e depois vai-se alinhando cada vez mais à direita, até Cavaco Silva lhe ter atribuído o título de Comendador da Ordem de Mérito Aos 20 anos, somos uma coisa. Aos 30, somos outra. E aos 40, outra se calhar muito diferente. Antes do 25 de Abril, era aquele o momento que vivia. Era de uma família modesta, não tinha nada e tinha de lutar para ter alguma coisa. Era muito ambicioso e percebia que o País tinha de mudar para poder ter sucesso. Se continuasse a ser aquele ramerrame, eu não teria sucesso. A minha aproximação à esquerda era um bocado isso: será que é a esquerda que vai mover isto? A determinada altura achei que, com o PS de Mário Soares, as coisas iam mesmo mudar. E mudaram. Foi ele que nos integrou, de forma rápida e eficaz, na Europa, o que não era de prever naquela altura. Fui da esquerda por factualidade, porque estava na tropa, com os militares de Abril, com os revolucionários. Fui contagiado. Tinha uma ânsia de revolta? Isso. Ainda sou dos que consideram que o 25 de Abril foi uma revolução excelente. Não fomos para a rua para matar. Prendemos os pides e soltámo-los a seguir. Como vê hoje a evolução do País? Teve altos e baixos. Há uma separação entre direita e esquerda que não é saudável. E que se agudiza com o Chega. O País precisa de criar um bloco central, de maneira a tornar mais fáceis as negociações dos sindicatos com as entidades patronais. Integro agora a comissão executiva da CIP e reconheço que é preciso fazer ainda muita coisa para termos paz social. É importante que o Estado perceba que as empresas existem para ganhar dinheiro. Não só para dar emprego. Mas não podem ganhar tudo à custa dos trabalhadores, a riqueza tem de ser distribuída. A paz social cria-se sendo justo com os trabalhadores, ao mesmo tempo que se ganha dinheiro. Se ganharmos dinheiro, investi-mos e criamos mais postos de trabalho. Poucos lucros, até hoje, tirei das empresas. Reinvesti. E continuo. Mas o IRS é pesado e não ajuda os trabalhadores. O IRC nem tanto. A nova legislação laboral, a política de habitação não são medidas muito inteligentes. Porque se castigar os investidores imobiliários, estes não investem. É preciso pensar nisso. Os trabalhadores precisam de ganhar a vida e, para isso, precisam de empresas. Sem empresas, não há empregos. E não é o Estado, na sua função social, que resolve este problema. Tem de ser o mundo empresarial. Desligou-se da política ou dos partidos? Dos partidos. Tenho muitos amigos, quer do PS quer do PSD, ou doutro qualquer. Nunca fiz distinção pelo partido. Tenho amigos influentes. Usa essa influência? Não, mesmo que precise. Até evitamos falar de política. Os políticos nunca me fizeram nenhum favor. E eu também não. E olhe que conheço ministros, líderes partidários, e nunca lhes pedi nada. O que significou para si receber uma ordem de mérito? Senti-me bastante honrado. Ainda por cima, dada por um homem que estimo, Cavaco Silva. Foi, para si, o melhor governante do País? Foi. Ele e Mário Soares. Sem menosprezo dos outros. Não estou a dizer mal de Passos Coelho, que também gostei algum tempo dele E do Sócrates? Já não gostei tanto. Mas isso já são outras coisas. E porque gostou muito do Cavaco? Era de uma seriedade e de uma robustez à prova de bala, não era muito pressionável. Há ali um caso com o pavilhão da Expo, que se fala que ele terá dado alguma ajuda ao genro que entrou no negócio. Mas tenho dúvidas sobre isso. Também há o caso BPN... No BPN nunca se provou nada. Com Sócrates também ainda não. Nem se vai provar [Risos]. Mas conversei com Cavaco algumas vezes e sempre achei que era muito impoluto, muito Só o medo de o acusarem de alguma coisa o atemoriza. É muito fora do quadrado. Ramalho Eanes foi outro dos impolutos, nunca se deixou levar pelo canto da sereia. Quem criou o melhor ambiente político para os negócios? Mário Soares. Era um touro e nunca se sabia bem para que lado ia. Mas quando ia, ia. Gostei de o conhecer e de segui-lo. A abertura à Comunidade Europeia melhorou muito a economia nacional. E Cavaco ajudou bastante a economia empresarial. Como vê o modo como o País está hoje a ser governado? Com algum receio. Esta última cena do ministro [das Infraestruturas] não foi bonita. O primeiro-ministro não agiu como seria de esperar. E o Presidente também não. O momento político é mau. Há expectativa de ver o que vai acontecer. Não é bom, congela algumas coisas. Se não há certeza de o Governo acabar o mandato, os investidores ficam de pé atrás. E temos uma aproximação perigosa da extrema--direita. Não gosto, não me cheira bem. O Presidente da República não convocou eleições porque acha que o PSD ainda não está preparado. E não está? Está quase. O maior risco é ele precisar do Chega. É dos que pedem o regresso de Passos Coelho? Não. E sou amigo dele. O Montenegro está a fazer o que pode. Podia ter um arranque mais forte como oposição, mas vai lá. Tem muita experiência política e parlamentar e já trabalhou com Passos Coelho. Chegar lá também depende dos colegas do partido. Alguém pode atropelá-lo antes disso. Era bom que tudo isto se clarificasse. O Presidente diz que vai ficar vigilante. Mas, às vezes, diz isso e, depois, esquece. Ou vai comer um gelado e é uma chatice. O problema é que o País também não aguenta muito tempo este vazio de gestão. Precisa de um primeiro-ministro forte, muito bem apoiado, e de ministros com muita credibilidade. Mas este primeiro-ministro tem apoio numa maioria absoluta. Não está a funcionar? Não. Isto não são casinhos. Os ministros estão a tomar decisões muito pouco homogéneas entre eles e até um pouco distantes do que pensará o primeiro-ministro. É um problema de comando? É. Costa até é um primeiro-ministro forte, quando quer. Deixar-se ir abaixo é perigoso. E anda a passar esponja. Neste último caso, passou uma esponja num problema grave. É o mesmo que ter um ferimento de uma bala e pôr ali mercúrio. Voltando aos negócios, chegou a mostrar interesse na privatização dos CTT, em 2013. Porque desistiu? Chegámos a fazer uma proposta em conjunto com o Montepio. Tivemos algumas reuniões com o anterior presidente [dos CTT]. Só que também percebemos que ele já tinha um comprador na sua cabeça. Estava muito formatado para o grupo Champalimaud. Percebi logo isso muito bem, quando ainda ninguém falava disso. Intuição sua? Não. Um dos filhos do Champalimaud encontrou-nos e perguntou se estávamos interessados nos correios. Percebi o interesse deles e achei que não tínhamos capacidade para lutar contra Manuel Champalimaud. E o Montepio também não estava assim tão seguro da aquisição. Estávamos a ver como repartíamos depois de comprar. Houve ali algumas reticências. Até que desistimos. Mas, antes disto, os CTT fazem-nos uma proposta de compra. Os CTT quiseram comprar o grupo Rangel?! Sim. O grupo todo! Queriam os transportes internacionais, a logística, tudo. A Pharma ainda não existia. Fui abordado duas vezes pelos CTT. Primeiro, queriam comprar a Rangel Expresso, que representava a FedEx. Aí, chegámos a uma fase final de eventual venda. Ponderei, até porque a FedEx estava de acordo e os CTT ofereciam-me muito dinheiro, à época. Depois, já com nova gestão, fez-nos uma proposta de compra total, que avaliámos. Estivemos indecisos. Em 2009, ofereceram-nos 57 milhões. Está escrito e foi aprovado no conselho dos CTT. Não vendemos. Fala no plural porquê? O sr. Eduardo Rangel é que manda, é o dono. Sim, era eu [Risos]. As decisões são minhas. Hoje, ainda são só suas? Não. O meu filho já toma muitas decisões. Continuo a ser o presidente. Quando são decisões que podem afetar a estabilidade, intervenho. Também é um presidente vigilante? Sou [Risos]. Todas as semanas vou à empresa, dois ou três dias. Gosto de saber quais os dossiers mais importantes em curso e conversar sobre isso, com o meu filho ou com o outro vice-presidente, Luís Marques, diretor do MBA da Católica, em quem também me apoio bastante. Teria vendido aos CTT por quanto? Digo que não vendi por causa do preço, mas Ainda lhe conto outra. Em 2000, os correios franceses também quiseram comprar o grupo. Fizeram uma oferta bastante boa. Nunca tinha visto tanto dinheiro. Entusiasmei-me. Avançámos. Fizemos muitas reuniões, due diligence, programas de trabalho, projetos. Chegamos a acordo e eu, o presidente dos correios franceses e o secretário de Estado dos Transportes franceses brindámos com champanhe. Ficou marcado assinar o negócio em Paris na semana seguinte e receber o cheque. O que fiz? Há uns bateaux mouches muito fixes que fazem passeios no Sena. Entrei num, desliguei o telemóvel e não fui. Recuou mesmo no último momento?! Pensou: o que vou fazer com tanto dinheiro? Exatamente. Porque é como quem vende a vida. Vou vender a minha vida? Não. Pedi à minha secretária para ligar e dizer que não Uma vida e a família Abaixo, Eduardo com os filhos e os netos; uma fotografia do jovem ambicioso, e a imagem do seu avô materno, “um homem com uma estrutura mental fora do comum”. À direita, a condecoração pela mão de Cavaco Silva podia ir, que estava doente. Ela esqueceu-se! Insultaram-me do piorio [Risos]. Porque ficaram à minha espera. E a secretária salvou-se? Perdoei-a [Risos]. Os franceses também eram um bocado arrogantes. Disse-lhe: “Deixa lá, aprenderam que um português também pode fazer isto.” Não correu mal. Daí para a frente, o grupo cresceu muito. E quando decidiu nomear CEO o seu filho? O Nuno começou a trabalhar no grupo em 2003 e é vice-presidente desde 2013. Nesse ano, tive um problema de saúde grave. E equacionei: se morro e não deixo nada preparado, é uma chatice. Empurrei-o para CEO. Depois, recuperei bem e ele continua a ser CEO. E tem feito um bom trabalho. Vai levar o barco a bom porto. O seu filho nunca escondeu a ambição de ocupar o seu lugar. Isso deu-lhe alguma segurança? O meu filho era obcecado, mesmo novinho, participava muito, queria conhecer a empresa e ir comigo para o trabalho aos fins de semana. Mostrou grande entusiasmo pelo negócio. Primeiro, nomeei-o vice-presidente e demonstrou que era capaz. Foi CEO com 33 anos e, a partir daí, evoluiu muito. Responsabilizei-o por alguns processos, para ele saber que a vida não é fácil. A responsabilidade também faz evoluir. É muito trabalhador e abnegado, embora tenha um estilo de gestão diferente do meu. É natural. São outros tempos. Em que é que ele é diferente? Eu era muito mais de emoção e coração do que de razão. Talvez mal. Ele não. É muito autoritário. Em algumas áreas, isso é bom. Noutras, não. Mas cada um tem a sua personalidade. Somos diferentes, na maneira como gerimos pessoas e nos dedicamos. Eu sou mais intenso, trabalhava 16 horas por dia. Ele já não. Tem uma equipa de suporte bastante grande, muitos diretores. Ainda recentemente comparei: ele tem quatro assistentes e eu sempre tive só uma! Ele explicou-me a razoabilidade de cada uma. Pronto, OK. É uma gestão mais moderna. Assusta-o não se ver muito refletido nele? Não. Um filho, e ainda bem, tem a sua própria raiz. Sinto que há coisas que ele copiou de mim e segue o mesmo rumo. E há outras que não. Há coisas que eu não faria. Era muito mau se ele deixasse cair o que fiz e não acrescentasse nada, mas tem acrescentado. Tem uma maneira de estar que pode ser muito saudável no futuro. Pensa continuar chairman até quando? Vai depender Nestas empresas familiares há um problema de sucessão do capital. Nem é da gestão, porque a gestão é uma coisa e o capital é outra. E 96% do capital continua em seu nome. Pelo menos na Gerastro, a holding que detém a totalidade ou a maioria do capital das várias empresas do grupo, nomeadamente da Rangel Invest. Tenho um filho e uma filha. O meu filho está na gestão, podemos atribuir-lhe prémios de remuneração, pois tem de ter benefícios superiores à irmã, porque esta não está e é médica dentista. Quanto ao resto, tenho cinco netos: dois rapazes e três raparigas, e gostava que tivessem todos a mesma oportunidade. E que os filhos do CEO não fossem beneficiados em relação aos outros. Estou a preparar, com um grupo de advogados, uma passagem de testemunho, a estabelecer regras com valor jurídico. Não é fácil, mas estamos a chegar lá. Quando chegar lá, terei uma conversa com eles: “Ok, deixo a presidência se todos aceitarem estas condições futuras.” A transferência de poder, entretanto, está feita? O poder é difícil de mexer a não ser com uma comissão de avaliação. A lógica é que não basta ser da família para ser administrador. Ou tem valor ou não tem. Às vezes, mais vale ser acionista e ganhar bons dividendos do que ser administrador e dar cabo da empresa. Sempre lhes disse isso. O importante é preservar esse princípio. Põe a hipótese de vender a empresa ou, pelo menos, uma parte? Se não conseguir entendimento na sucessão, ponho essa hipótese. Sabe que ainda há dias tivemos uma proposta? Temos tido amiúde. Agora eram uns israelitas, não era muito claro quem era o comprador. Mas não é o momento para vender. Estamos bem, deixa estar. E 14 O MAGNATA DA LOGÍSTICA O fundador do grupo Rangel, o maior de logística global no nosso país, deu uma grande entrevista à EXAME em que se fala de ditadura, educação, gestão, economia e até de Freddie Mercury Em 1989, montámos a Rangel Transitários, três anos antes de entrar em vigor o mercado único. Deu algum tempo de conforto. E foi uma grande oportunidade PERFIL VIDA SOCIAL Gosta de conviver à mesa com amigos. “É nos restaurantes de Matosinhos que gasto mais dinheiro”, confessa. Come mais peixe, porque é o melhor para a saúde. Mas “um bom cozido à portuguesa” não lhe escapa. CLUBE O Futebol Clube do Porto, claro. “Não deixo cá entrar benfiquistas”, brinca. DESPORTO Jogou golfe durante 15 anos. Quando se sentiu demasiado viciado, encostou os tacos e passou somente a organizar torneios. Pratica, diariamente, uma hora de ginásio. E caminha. LEITURAS “Leio muito e de tudo.” Tanto podem ser livros técnicos e de economia, como os que falam “sobre as maldades do mundo”. O último que leu foi Guerras Sujas, de Jeremy Scahill. Nas estantes estão Mário Soares, Jaime Nogueira Pinto ou Miguel Esteves Cardoso, a quem acha “muita piada”. MÚSICA Gosta de ir a concertos de música clássica ou de ouvir Ennio Morricone. “Mas Freddie Mercury é o meu som da vida”, assegura. Beatles e Celine Dion também estão na sua lista. VÍCIOS Chegou a fumar oito ou nove charutos Cohiba por dia. Deixou de fumar há dez anos CARROS Tem um Mercedes S 580. Muda de carro de dez em dez anos e conservou o velho BMW, um S350 FAMÍLIA Vive em segundas núpcias desde 2017. Gosta muito dos cinco netos, o mais velho de 11 anos e a mais nova de 2 CURIOSIDADE Conserva o cravo que lhe puseram na arma no 25 de Abril de 1974. E todos os anos, nesta data, manda um ramo de cravos aos amigos 2 600 Trabalhadores Número de colaboradores do grupo, nas várias geografias onde está presente 8,6 MILHÕES Envios Número de produtos enviados através do grupo em 2022 389 mil m² Área logística disponível do Grupo Rangel 250 MILHÕES Receita Valor atingido, a nível consolidado, no exercício completo de 2022 Tive sempre uma vocação um bocado revolucionária. Ainda na alfândega, lia, escondido, uns livros que me arranjavam No dia seguinte [25 de Abril], foi a festa na Póvoa. Tivemos um banho de multidão. Lá me puseram um cravo na arma, que guardo até hoje Tinha pena, muita pena, de nunca ver os meus filhos. Em 79, tive o meu filho. E em 83, a minha filha. Chegava tarde, tinha muitos jantares fora e acompanhava--os pouco à noite. Levava-os ao colégio de manhã. Nos primeiros anos, tive uma vida muito violenta Era de uma família modesta, não tinha nada e tinha de lutar para ter alguma coisa. Era muito ambicioso e percebia que o País tinha de mudar para poder ter sucesso. Se continuasse a ser aquele ramerrame, eu não teria sucesso Mário Soares era um touro e nunca se sabia bem para que lado ia. Mas quando ia, ia