FUNDO MUTARES JÁ ESTÁ DENTRO DA EFACEC
2023-06-23 13:42:41

Efacec Comprador já entrou na empresa e espera fechar acordo até final de junho Há já uma equipa do fundo Mutares na Efacec a fazer a due dilligence (avaliação) do negócio, sabe o Expresso. Quatro responsáveis, dois alemães e dois espanhóis, têm estado a reunir-se com os chefes de projetos e diretores de área de negócios da empresa para medir o pulso à situação. Fazem perguntas sobre os projetos no terreno e a fase de execução das encomendas, escrutinam as contas. Têm mostrado mais interesse pelos projetos onde existem maiores problemas e atrasos, que levam a penalizações. Argélia, Tunísia e Marrocos estão entre os mais problemáticos. Este é um sinal de que a Mutares começa a preparar-se para ser a futura dona da Efacec. O objetivo, apurou o Expresso, é que o acordo de venda seja concluído até ao final de junho. Nada garante, porém, que assim seja, já que ainda há muitas pontas soltas entre elas a aprovação por Bruxelas. E depois de passar a empresa a pente fino, o fundo ainda pode fazer exigências difíceis de cumprir. É ainda desconhecido o modelo de negócio proposto pelo comprador, quanto prevê a Mutares injetar na Efacec e em que pé estão as conversações com os credores. O Governo não avança valores nem revela o plano de reestruturação desenhado pelo fundo alemão para viabilizar a empresa. A opacidade é total. O Expresso conseguiu apurar que já foram iniciados contactos com alguns bancos credores para negociar um corte da dívida da Efacec a informação está agora a ser digerida pelos banqueiros. Só a banca tem de crédito pós-nacionalização €115 milhões e uma parte foi garantido a 90% pelo Estado. Neste tabuleiro não se sabe se as negociações chegarão a bom porto, já que os bancos podem sempre rejeitar o que lhes for proposto se considerarem que o plano de negócio (e de reestruturação) não é adequado ou suficiente para salvar a empresa. Um fundo que, por vezes, “corta a direito” O fundo Mutares, asseguram fontes conhecedoras do processo, tem fama de cortar a direito nos negócios que compra para recuperar. E notícias publicadas na imprensa francesa e na britânica dão conta disso. Em 2016, o “Le Parisien” noticiava que um relatório encomendado pela Comissão Europeia questionava a atuação do fundo alemão Mutares na recuperação da empresa inglesa Pixmania e nos meios usados para dar continuidade às operações, nomeadamente o tratamento dado aos trabalhadores, que acabaram (em parte) despedidos. Aliás, um dos advogados que litigava a favor dos funcioná rios afirmava que a Mutares “não fez absolutamente nada para garantir a sustentabilidade da empresa”, que acabou por vender em 2016 à Vente du Diable. O jornal francês escreveu ainda que quando a Mutares comprou a Pixmania à inglesa Dixons Retail, em 2013, o negócio de comércio eletrónico estava numa situação saudável, mas desde a chegada do grupo alemão não foi feito qualquer investimento na empresa. Já o “The Guardian” contava, em 2013, que a Dixons Retail, embora estivesse a vender, optou por pagar €69 milhões ao Mutares para que este os reinvestisse na loja online uma solução que evitava os custos do fecho da empresa, que seriam mais elevados (€90 milhões), mas também permitiria prosseguir com o negócio. Mas não foi suficiente para segurar os 1200 postos de trabalho, que estavam reduzidos a 250 três anos depois. Com atuação em várias áreas de negócio automóveis, energia, mobilidade, engenharia, entre outros bens e serviços , o fundo Mutares, cotado na Bolsa de Frankfurt, tem um perfil industrial e é conhecido pela sua especialização em recuperar empresas em dificuldades, avançando por vezes com duras reestruturações. “É a estratégia do ou vai ou racha”, afirmava um gestor conhecedor deste tipo de operações. Um problema bicudo com dois mil trabalhadores Com as receitas a cair a pique, a Efacec tem neste momento um problema bicudo para resolver em matéria de recursos humanos, já que está sobredimensionada para o que faz e há áreas onde, afirmam conhecedores da empresa, há excesso de pessoas. A empresa tem cerca de dois mil trabalhadores para receitas que se situavam nos €161 milhões em 2022, menos de metade dos €354 milhões de 2019, e encomendas que caíram de €355 milhões para €138,9 milhões em três anos. Não obstante um quadro de trabalhadores ainda significativo eram 2400 na altura da nacionalização , as saídas dos quadros de topo mantêm-se. O administrador financeiro, Com receitas em queda e encomendas a abrandar, fábricas operam abaixo da sua capacidade Mutares já fala com equipas da Efacec e escrutina os números. Bancos começaram a ser contactados pelo fundo alemão Nada garante que o negócio chegue a bom porto, já que ainda há muitas pontas soltas entre elas a aprovação por Bruxelas sabe o Expresso, já anunciou que irá sair para as tintas CIN. Era apontado dentro da empresa como o próximo presidente executivo. Recentemente saíram também os diretores das áreas de negócio do biogás e das subestações. Informação que fonte oficial da Efacec não confirma, sublinhando que as entradas e saídas de trabalhadores “são perfeitamente naturais e alinhadas com as dinâmicas do mercado”. Nas mãos da Mutares está, como já foi noticiado, a negociação com os credores. Já houve conversas com parte dos bancos, mas com os obrigacionistas ainda não existiram quaisquer contactos. O negócio tem de ter ainda a aprovação da Direção-Geral da Concorrência, em Bruxelas, à qual cabe decidir se estará implícita alguma ajuda de Estado a venda à DST ficou pelo caminho porque não houve luz verde da Comissão Europeia. O ministro da Economia acredita que o negócio seja fechado até ao final de agosto. Resta saber ainda quanto poderá perder o Estado português com a nacionalização e reprivatização da Efacec. Até maio deste ano, a exposição do Estado à empresa somava €217 milhões. António Costa Silva tem fé na recuperação da totalidade ou parte da dívida um otimismo partilhado por muito poucos. Anabela Campos e Isabel Vicente acampos@expresso.impresa.pt FOTO RUI DU AR TE SIL V A