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VIRAGEM À DIREITA ESTÁ A APROFUNDAR-SE

NOVO

2023-06-17 06:31:51

$u EUROPA Viragem à direita está a aprofundar-se Depois de Itália, Grécia e Espanha podem confirmar a viragem à direita dos regimes europeus que será o pano de fundo para as próximas europeias, daqui a um ano Ricardo Santos Ferreira rsferreira@medianove.com primeiro foi a vitória dos Irmãos de Itália, de Giorgia Meloni. em Setembro de 2022, com a coligação de direita e extrema-direita a conquistar 43,8% dos votos. Depois, em Maio. na Grécia. a Nova Democracia (ND) venceu claramente as eleições, com 40,8% dos votos. e avança para uma segunda volta. beneficiando do sistema grego que. não havendo maioria absoluta, prevê uma nova votação, em que o partido mais votado beneficia de um reforço de entre 20 e 50 deputados. dependendo da sua votação. A seguir, ainda em Maio, em Espanha. foi o Partido Popular (PP) a vencer claramente as eleições regionais e municipais, mas obrigado a entender-se com o Vox, de extrema-direita, para governar, o que levou o Partido Socialista Operário Espa nhol (PSOE), no governo, com aliados à esquerda, a avançar para eleições legislativas. Os especialistas concordam que a União Europeia (UE) tem estado a virar à direita, com expressão em países como a Polónia, a Áustria ou a Hungria. primeiro. mas também como Países Baixos. Finlândia ou Itália. e que este deverá ser o pano de fundo para as eleições europeias do próximo ano. Só que a questão será saber quão apoiadas nos extremos estarão as governações e o que isso representará. "Estamos a viver uma segunda vaga de direitização na Europa", diz ao NOVO Jorge Botelho Moniz, director de Estudos Europeus na Universidade Lusófona. "A primeira vaga foi caracterizada pela ascensão ou reforço de partidos populistas de direita, especialmente entre 2015 e 2020, no contexto do pós-crise das dívidas soberanas e no início da crise das migrações na Europa. A partir de 2020, a segunda vaga da direita está a ser moldada, de norte a sul, por questões identitárias, ressurgindo e reforçando-se nos temas das migrações, inflação, proteccionismo, guerra na Ucrânia e escândalos de corrupção". explica, apontando que, desde que esta segunda vaga se iniciou, "podemos contar quase dezena e meia de Estados-membros da UE que viraram ou se reafirmaram à direita". Neste quadro, Portugal, Alemanha, Dinamarca e Malta serão os últimos países europeus a serem governados por partidos ou coligações alinhadas à esquerda. Santiago Abascal, Alberto Núfiez Feijóo (à esquerda), Giorgia Meloni (em cima) e Kyriakos Mitsotakis (em baixo) são entendidos como sinais de uma viragem à direita na Europa Resta saber se a viragem à direita que se antevê "representa igualmente a continuação do crescimento dos partidos mais radicais, da chamada extrema-direita ou direita, chegando inclusivamente ao poder, como sucedeu em Itália", diz Paulo Sande "A última década tem sido de degradação da qualidade da democracia de forma generalizada. O número de democracias está a diminuir e a qualidade das mesmas tem sofrido enormes desafios, em quase todos os casos por partidos de extrema-direita, and-sistema, que têm sido especialmente bem-sucedidos e que têm um pragmatismo que lhes permite maior influência do que no passado", di2 Pedro Ponte e Sousa, professor de Relações Internacionais na Universidade Portucalense, acrescentando ainda que "há uma retórica política, social e cultural que tem beneficiado posicionamentos económicos mais próximos do neoliberalismo", o que faz com que partidos políticos "mais próximos dessa linha tenham saído reforçados". Europeias à direita Nas eleições que se seguem, na Grécia, a 25 de Junho, não parece credível outro resultado na segunda volta das legislativas que não seja a afirmação de Kyriakos Mitsotakis e da ND, a par de uma queda pronunciada da esquerda, com o Syriza a cair 11,4 pontos percentuais, para 20,1%. o que o seu líder, Alexis Tsipras, classificou como "um choque". Em Espanha, as legislativas realizam-se a 23 de Julho e a média das sondagens publicadas aponta para que o PP seja o partido mais votado, mas sem maioria absoluta, que seria conseguida com uma aliança com o Vox. O partido liderado por Alberto Núfiez Feijóo cresceria quase 12 pontos percentuais face a 2019, para 32%, o que se traduziria em 138 deputados no Parlamento; o partido de Santiago Abascal perderia cerca de um ponto, mas nove mandatos. Em conjunto, teriam 181 deputados, mais cinco do que o necessário para garantir a maioria absoluta. "Se as eleições confirmarem a viragem à direita, Espanha será mais um país europeu a confirmar a tendência dos eleitorados um pouco por toda a Europa", diz ao NOVO Paulo Sande, professor na Universidade Católica Portuguesa e especialista em temas europeus. "A verdade é que se assistiu, em muitos países, à chegada de partidos de esquerda ao poder para adoptarem políticas que misturam opções típicas dos partidos conservadores - como a ortodoxia nas contas públicas - com uma intervenção do Estado cara e invasiva em matéria fiscal, sem com isso conseguirem resultados que afastem o receio dos cidadãos europeus em matéria do seu nível de vida, da segurança, do bem-estar. E, com o discurso ideológico à mistura, essa contradição acrescenta incerteza e confusão às perspectivas de curto e médio prazo", diz. Agora, resta saber se a viragem à direita que se antevê "representa igualmente a continuação do crescimento dos partidos mais radicais, da chamada extrema-direita ou direita, chegando inclusivamente ao poder, como sucedeu em Itália". Verificando-se a viragem à direita, será esse o cenário em que se realizarão as eleições para o Parlamento Europeu, daqui a um ano, em Junho de 2024, animando as hostes da direita europeia. "Espanha pode vir a revelar-se, uma vez mais, um bom laboratório: confrontado com a opção entre reforçar a direita conservadora. mas moderada, e dar luz verde aos partidos radicais, o eleitorado hesita - mas há sinais de que o refúgio, não sendo o regresso à esquerda, pode ser justamente a opção pela moderação". considera Paulo Sande. "É provável que os próprios fracassos que a aliança neoliberal-extrema-direita venha a enfrentar possam produzir sucessos futuros das esquerdas, numa política que tende para ciclos esquerda-direita-esquerda-direita, mas parece difícil que a próxima década não esteja, genericamente, nas mãos da direita", afiança Pedro Ponte e Sousa.