PRIVATIZAÇÃO DA EFACEC PENDURADA POR ARAMES
2023-06-16 06:33:30

Privatização da Efacec pendurada (de novo) por arames Escolhido o comprador, é preciso negociar com os credores e ter luz verde de Bruxelas Anabela Campos e Isabel Vicente O fundo alemão Mutares venceu a corrida à privatização da Efacec, mas o negócio está longe de estar fechado. Está, desde logo, dependente de três condições: da autorização das autoridades da concorrência europeia e portuguesa, do parecer do Tribunal de Contas e do alinhamento dos credores, nomeadamente a banca e obrigacionistas, detalhou o ministro da Economia, António Costa Silva, na quarta-feira, em plenário. Autorizações que poderão prolongar-se no tempo. Há também ainda muitas questões por responder. Não se sabe qual é o investimento e a capitalização propostos pelo investidor alemão na Efacec. Desconhece-se se o Estado vai ou não perder o dinheiro que injetou e qual o plano de negócios. Perguntas que ficaram por esclarecer a 7 de junho, dia em que Costa Silva anunciou que o fundo Mutares tinha sido o eleito. E que voltaram ao Parlamento pela mão do PSD e do resto da oposição outra vez na quarta-feira, batendo de novo na trave. António Costa Silva nada avançou, e pediu paciência. Nem bancos nem obrigacionistas foram abordados Os credores financeiros e obrigacionistas vão ser chamados a contribuir para o negócio que vier a ser fechado com o fundo Mutares, mas até agora não sabem que parte lhes caberá. Ainda não foram abordados nem pela Parpública, que consideram ser o seu interlocutor, nem pelo fundo alemão, sabe o Expresso. Do lado dos obrigacionistas, investidores institucionais, sobretudo espanhóis que tomaram dívida da Efacec em 2019 , o cenário é idêntico, também não houve qualquer contacto formal. Só com os bancos CGD, Novo Banco, Montepio, BPI e BCP a Efacec assumiu já depois da nacionalização uma dívida financeira de EUR115 milhões. Uma parte desta dívida é garantida pelo Estado a 90%. É uma questão sensível e a resolver para que o negócio avance. Há, como hipótese, um perdão de dívida em cima da mesa que poderá rondar os 50%, ou mais, mas falta o principal: negociar com a banca. Em aberto está também a possibilidade de haver um perdão de dívida por parte do Estado. Quanto e em que moldes desconhece-se, e o ministro da Economia não quis esclarecer. Não é uma questão irrelevante já que facilmente pode ser considerado um auxílio de Estado, logo ilegal. Foi Bruxelas que deitou abaixo a venda à bracarense DST. O fundo Mutares, assegurou o ministro, fez a melhor oferta e a que previa a partilha de riscos com o Estado. “Minimizar encargos para o Estado” foi a palavra-chave que levou à vitória do fundo alemão e ao afastamento de todos os outros a Oaktree, a Visabeira/Sodécia e a Oxy. E o que levou o ministro a dizer: “Vamos recuperar a quase totalidade do dinheiro investido na Efacec.” Até maio, de acordo com contas do Ministério da Economia, foram injetados EUR217 milhões. Costa Silva apelou à paciência. Pediu aos deputados para não estragarem a operação e terem “sentido de Estado”, prometendo que quando puder e tiver números irá ao Parlamento partilhar. O ministro da Economia espera, porém, recuperar parte dos EUR217 milhões, e que estes possam ser pagos pela alemã Mutares até 2028, ano em que se admite que o fundo saia da Efacec. Credores ainda não estão a bordo Se do lado da banca há disponibilidade para perdoar parte da dívida, do lado dos obrigacionistas há uma maior incerteza. O Expresso sabe que está prevista uma reunião com os bancos, na qual “serão colocadas as condições para que o negócio chegue a bom porto”, diz uma fonte financeira. Mas, até agora, explica outra fonte, “ninguém sabe qual é o plano de negócios desenhado pelo comprador e que níveis de capital são necessários” questão de enorme relevância, já que esta informação “terá importância para qualquer acordo futuro, com os credores (banca e obrigacionistas)”. Os credores não estão disponíveis para assumir compromissos se não acreditarem na estratégia. Será, aliás, a Mutares a negociar com os credores, segundo o ministro. O representante dos obrigacionistas institucionais afirma não ter havido qualquer contacto no âmbito da venda à Mutares, quer por parte da Parpública quer do fundo. “Ninguém pediu nenhum corte na dívida, ninguém pediu nada”, afirma. No passado, revela a mesma fonte, “um dos concorrentes chegou a falar de um eventual prolongamento, mas só isso”. Recorde-se que os obrigacionistas cujo empréstimo de EUR58 milhões vence em 2024 são investidores institucionais, sobretudo espanhóis, e poderão não estar tão disponíveis como a banca. A porta do lado dos obrigacionistas não está fechada, mas também não está aberta. A mesma fonte recorda ao Expresso que “o Estado se comprometeu a cumprir com as suas responsabilidades”. Ainda que as dimensões sejam diferentes, há na banca quem estabeleça um paralelo com o Novo Banco. Este foi vendido por zero euros, mas com a obrigação de que o fundo norte-americano injetasse EUR1000 milhões como fez com a possibilidade de recorrer a fundos da banca e dos contribuintes (empréstimos do Estado) no montante de EUR3,5 mil milhões até 2022, que acabou por consumir. Para a Efacec pode estar a ser desenhado um plano semelhante. Ao Expresso uma fonte financeira diz que, no mercado já se fala que a venda da Efacec à Mutares é “uma doação com ónus”. Apesar do otimismo do ministro da Economia, que espera fechar o negócio dentro de dois meses, há ainda muita negociação pela frente. E três anos depois de uma nacionalização que se pretendia de tempo limitado há muitos nós para desatar, e ninguém tem a certeza que será desta que a Efacec ganha um novo dono. acampos@expresso.impresa.pt No mercado, já se fala que a venda da Efacec à Mutares é “uma doação com ónus” Governo precisa que venda da Efacec ao fundo Mutares chegue a bom porto, depois do negócio com a DST ter ficado pelo caminho FOTO RUI DUARTE SILVA Grupo Mello lamenta “destruição de valor” Acionista minoritário da Efacec, o grupo José de Mello tem estado afastado do processo de privatização e não teve ainda qualquer contacto com o fundo Mutares. Vai esperar pelo desfecho do acordo para decidir o que fazer, e se se manterá ou não na empresa. “O Estado está a vender a sua posição e certamente entrará em contacto connosco quando sentir que tem o assunto suficientemente agarrado para poder conversar connosco”, afirmou Salvador de Mello, presidente da José de Mello, distanciando-se da escolha. Sublinhou, porém: “O futuro da Efacec é muito importante para nós.” O gestor, em declarações durante a apresentação dos resultados de 2022, explicou que a Efacec já não faz parte do perímetro de consolidação do grupo, e por isso não há o risco de afetar as contas. “A destruição de valor na Efacec foi brutal”, reconheceu o administrador Luís Goes, questionado sobre o que significava para o grupo a deterioração da empresa, cujas receitas recuaram de cerca de EUR400 milhões em 2019 para EUR100 milhões em 2022. Goes não afasta a possibilidade de a José de Mello ver a sua participação diluída no futuro aumento de capital. A.C.