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EDUCAÇÃO CIENTÍFICA OLHAR O MUNDO ATRAVÉS DE LENTES DIVERSAS

Jornal de Letras, Artes e Ideias

2023-05-31 13:42:49

Educação científica para a sustentabilidade INQUIETAÇÕES PEDAGÓGICAS “O destino da escola é o mundo”1. A ciência constitui um modo de olhar o mundo, nas suas complexas inter-relações. Entre elas, destacam-se as interações entre a ciência e a tecnologia, que se consubstanciam em grandes avanços civilizacionais, mas também em grandes dilemas socio científicos, como são os problemas ambientais. Já no século XXI, as palavras de Carl Sagan continuam a fazer sentido: “Criamos uma civilização global na qual os elementos fundamentais dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também dispusemos as coisas de tal modo que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia”2. A escola faz parte do sistema que pode, e deve, contribuir para dispor as coisas de outro modo e assim o tem tentado fazer, por exemplo, através de revisões curriculares e de projetos e iniciativas diversificadas. A este nível, a educação científica assume um importante papel, sobretudo para a construção de uma visão do mundo cientificamente fundamentada, tendo em conta a sua complexidade e incerteza crescentes. O conceito de literacia científica reforça a importância da formação de cidadãos cientificamente cultos, cientificamente literatos, interventivos, interessados e informados sobre a ciência. Embora existam diferentes perspetivas sobre este conceito, a sua operacionalização na escola reforçou a necessidade de, entre outros, se utilizar o quotidiano e a atualidade como contextos de aprendizagem, considerando aspetos de relevância pessoal e societal. Entres estes aspetos está certamente a presença crescente de questões globais e locais associadas ao ambiente e à sustentabilidade, que contribuíram quer para dar visibilidade à ciência e ao O ESTUDO DOS ECOSSISTEMAS TERRESTRES, nomeadamente da sua biodiversidade, pode e deve ser feito com a participação de todos nós, numa perspetiva de cidadania ativa. Há já diversos projetos de ciência cidadã que encaram os cidadãos como participantes, quer em processos empíricos de recolha de dados, quer em processos de discussão e tomada de decisão. Embora com alertas e perspetivas críticas, que continuam atuais, sobre a possível desarticulação entre a ciência e o público e a necessidade de criação de modelos interativos, no caso concreto da biodiversidade, a colaboração em projetos de ciência cidadã apresenta potencial na educação para a sustentabilidade3. Também aqui a escola pode e deve participar. Os seus espaços verdes e ambientes naturais próximos são contextos reais e acessíveis que podem ser explorados, promovendo o envolvimento dos alunos e professores com a natureza e a biodiversidade. A formação de professores é então fundamental na sensibilização para a importância da participação pública nos processos científicos, como a recolha e classificação de dados, e no desenvolvimento de competências para o envolvimento dos cidadãos. Neste sentido, têm sido implementadas algumas atividades com estudantes, futuros professores e educadores, do 2.º ano da Licenciatura em Educação Básica da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal (IPS). O IPS foi construído numa zona de montado, um ecossistema humanizado, resultante da transformação da floresta mediterrânica, sendo rico em diversas espécies autóctones. A existência deste importante património natural apresenta inúmeras oportunidades para aprendizagens no contexto de diversas unidades curriculares (UC) e para o desenvolvimento de uma cidadania ativa. Nas UC de opção “Estudos Ambientais” e “Oficinas de Investigações Experimentais”, de forma articulada, os estudantes exploraram o espaço exterior do campus como um contexto de aprendizagem. A EXPLORAÇÃO DO CAMPUS centrou-se no estudo da flora, nomeadamente de herbáceas, arbustos e árvores, uma vez que os estudantes tendem a apresentar algum desconhecimento sobre biodiversidade e, em especial, sobre a biodiversidade vegetal. Este fenómeno, denominado indiferença às plantas, não se refere apenas à incapacidade de ver ou de reparar nas plantas ao redor, mas tamtrabalho dos cientistas, quer para reforçar a necessidade de uma cidadania informada e participativa. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), aprovados em 2015 pela Organização das Nações Unidas, estão integrados na Agenda 2030, que apresenta uma visão abrangente do desenvolvimento sustentável. Os 17 ODS são uma lista ambiciosa de ações a realizar, até 2030, por todos nós. A educação é um objetivo em si mesmo (ODS 4), mas também um meio para alcançar os restantes ODS. Destacamos a sua articulação com o ODS 15 (vida terrestre), que inclui a proteção dos ecossistemas terrestres, a responsabilidade dos indivíduos e das instituições contribuírem para proteger, recuperar e promover o uso sustentável desses ecossistemas, assim como deter a perda da biodiversidade. Educação científica Olhar o mundo através de lentes diversas HELENA SIMÕES E SÍLVIA FERREIRA Os domínios da ciência e da tecnologia e as suas estreitas inter-relações tiveram e continuam a ter um enorme impacto nas sociedades humanas, como é o caso dos problemas associados à sustentabilidade da Terra. A ciência, através de rigorosos processos de trabalho investigativo (métodos científicos) estuda os fenómenos naturais, explicando as relações entre as coisas com base em argumentos sustentados pela evidência científica, ou seja, “a verdade das coisas”. Porém, esta verdade é probabilística, permanentemente sujeita à crítica e à refutação. Atualmente, a ciência confronta-se com crenças, mitos, explicações simplistas e a desconfiança do público, o que pode conduzir à desinformação e ao negacionismo científico. Como afirmou recentemente o neurologista Alexandre Castro Caldas, “não é a ciência o verdadeiro fator de desconfiança, mas sim a ciência usada no contexto de teorias da conspiração”. Cabe à educação científica, abordar estas questões, possibilitando a formação de cidadãos cientificamente informados, interessados e interventivos nos contextos sociais onde se inserem. Aqui, discute-se o ensino do espírito crítico e a aceitação dos limites do nosso conhecimento individual e coletivo e reflete-se sobre uma experiência pedagógica em que o campus do IP Setúbal tem sido explorado como um contexto inspirador de estudo e produção de conhecimento para a cidadania sustentável. A ciência constitui um modo de olhar o mundo, nas suas complexas inter-relações. Entre elas, destacam-se as interações entre a ciência e a tecnologia, que se consubstanciam em grandes avanços civilizacionais, mas também em grandes dilemas socio-científicos, como são os problemas ambientais A crítica, a dúvida e a humildade sustentabilidade LINKS DAS INQUIETAÇÕES PEDAGÓGICAS pedagogicasinquietacoes@gmail.com inquietacoespedagogicasii.blogspot.pt www.facebook.com/InquietacoesPedagogicas www.youtube.com/user/inquietPedagogicas JOANA GONÇALVES DE SÁ bém ao desconhecimento sobre a sua importância e características únicas. As atividades realizadas incluíram saídas de campo, pesquisa orientada e atividades laboratoriais, alicerçadas no trabalho colaborativo, na autonomia, na valorização da experiência e na mobilização e construção de conhecimentos. As espécies foram estudadas não de forma isolada, mas enquadradas nos ecossistemas de que fazem parte e como suporte para a identidade da sociedade. Para a identificação das espécies, os estudantes recorreram à aplicação gratuita para telemóvel Seek by iNaturalist. Esta aplicação, desenvolvida pela plataforma iNaturalist, permite identificar os grupos taxonómicos de inúmeras espécies através do reconhecimento de uma fotografia do ser vivo. No entanto, de modo a confirmar os resultados obtidos a partir da aplicação, recorreu-se a outras ferramentas digitais como é o caso do portal Flora-On, um projeto coordenado pela Sociedade Portuguesa de Botânica, e da plataforma iNaturalist/Biodiversity4All, local onde está ancorado o projeto de ciência cidadã sobre a biodiversidade do campus do IPS (https://www. inaturalist.org/projects/biodiversidade-ips-setubal). Nesta plataforma, face às fotografias colocadas e respetiva proposta de identificação, surgem comentários e sugestões de correção por parte de outros utilizadores. A utilização da aplicação Seek e, posteriormente, da plataforma Biodiversity4All são um bom exemplo de como as ferramentas digitais podem tornar a ciência acessível, enfatizar a natureza colaborativa da aprendizagem, promover a autonomia e a aprendizagem ao longo da vida. No entanto, o foco não deve ser apenas o produto, mas também o processo, o que reforça a importância do trabalho de orientação do professor. A capacidade de identificação das espécies, até agora relacionada apenas com um conhecimento especializado associado ao trabalho de campo, pode ser acessível a qualquer pessoa. Recolher informação relativa ao nome de uma determinada espécie pode ser um ponto de partida para um percurso de aprendizagem sobre, por exemplo, a espécie identificada, o ecossistema de que faz parte e o seu papel na identidade das comunidades em que vivemos. O campus do IPS tem sido, assim, explorado como um contexto inspirador para a cidadania sustentável no presente e no futuro profissional dos estudantes. Desta forma, a educação científica promove o contacto e a conexão com a natureza e, simultaneamente, permite apreciar e colaborar no modo como a ciência conhece o mundo. J 1Pombo, O. (2002). A escola, a reta e o círculo. Relógio D’Água / 2Sagan, C. (1997). Um mundo infestado de demónios. Gradiva, / 3Peter, M., Diekötter, T., Höffler, T. & Kremer, K. (2021). Biodiversity citizen science: Outcomes for the participating citizens. People and Nature. *Helena Simões e Sílvia Ferreira são professoras adjuntas da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal, especializadas em Didática das Ciências Ultimamente, parece que, seja qual for a pergunta sobre o combate à desinformação, a resposta é sempre a mesma: temos de ensinar espírito crítico, principalmente nas escolas, principalmente aos mais jovens. Esta defesa parte de três premissas: primeira, que os jovens são demasiado crédulos; segunda, que ensinando-os a serem mais críticos e a duvidarem mais, a nova geração estará melhor preparada para viver na Era Digital; terceira, que o sabemos ensinar. Mas, e se estas premissas fundamentais estiverem fundamentalmente erradas? Temo que, apesar da bondade das suas intenções, muitos dos nossos esforços não nos estejam a ajudar. COMO DECIDIMOS EM QUE ACREDITAR? Há quase exatamente 400 anos, Francis Bacon escreveu mais ou menos assim: “O entendimento humano, uma vez que tenha adotado uma opinião (…) traz a si todas as coisas que a apoiem e com ela concordem. E, mesmo que exista um grande número e peso de situações no outro lado, o espírito humano ou as ignora ou as despreza. ( …) E desta forma, graças a esta predeterminação perniciosa, a autoridade das suas conclusões anteriores mantêm-se inviolada.” Esta observação descreve perfeitamente aquilo a que psicólogos chamam “tendências confirmatórias”, às quais se junta a uma lista crescente de enviesamentos cognitivos. De uma forma geral, sabemos que as nossas opiniões não são necessariamente formadas através de acumulação linear de conhecimento e que as nossas decisões não seguem sistemas “puramente lógicos” de dúvida e dedução. Na verdade, é impraticável e indesejável estar permanentemente a fazer “fact-checking” ou a colocar tudo em causa: o nosso cérebro cria mecanismos (ou heurísticas) para facilitar a decisão, mesmo que sujeitos a enviesamentos, e o tecido social necessita que confiemos uns nos outros e nas instituições. Seria para nos ajudar a decidir em que confiar que serviria o ensino do espírito crítico. Este é um conceito difícil de definir, mas inclui sempre a capacidade de duvidar e, para sistematizar essa dúvida, é cada vez mais comum a defesa do ensino das ciências e da prática do chamado método científico. Este treino seria agora particularmente relevante pois alguns dos nossos enviesamentos podem ser agravados pelas redes sociais ou por modelos de inteligência artificial, como o Chat GPT: é cada vez mais fácil encontrar informação que reforce aquilo em que já acreditamos e viver numa bolha informativa virtual. Mas são os jovens pouco críticos? Investigação na área indica que, ao contrário de gerações mais velhas, os jovens são possivelmente demasiado críticos, ou seja, tendem a não acreditar em nada, roçando o cinismo. Se a existência de grupos de pessoas que acreditam em tudo é um grande problema, a existência de uma geração que não acredita em nada, e para quem os meios de comunicação social “são todos iguais”, não deve ser menos preocupante. Tanto num caso como no outro foram escolhidas heurísticas que facilitam a decisão e que talvez sejam igualmente preguiçosas. Saberemos verdadeiramente como ensinar espírito crítico ou estamos apenas a mudar heurísticas? SABEMOS TREINAR O ESPÍRITO CRÍTICO? Uma das formas mais utilizadas para ajudar jovens a reconhecer desinformação é dar-lhes notícias verdadeiras e falsas e pedir-lhes para as identificarem. Muitas vezes, para tentar confundir as pistas (ou heurísticas) que possam ser utilizadas no processo de identificação, investigadores podem mostrar uma notícia errada de um jornal de referência e uma notícia certa de um jornal associado a teorias da conspiração, ou um título certo com uma imagem errada. Quando é dito aos participantes que falharam (e que a notícia errada era a do jornal de referência), estes podem aprender a ter mais atenção a detalhes, ou apenas que os jornais são todos igualmente maus. O tiro saiu pela culatra. Isto pode ser agravado se as notícias forem contra convicções profundas dos estudantes (religiosas, políticas ou outras). Será mais fácil a um benfiquista ou a um portista aceitar como verdadeira uma notícia que revele que o Benfica corrompeu árbitros? De uma forma geral, nenhum destes indivíduos terá acesso a informação que lhe permita “decidir por si”, mas a resistência a acreditar numa notícia que vá contra as suas convicções ou afetos será tanto maior quanto mais a sua identidade estiver ligada ao facto (quanto mais se sentir benfiquista). Estes dois mercados, da dúvida e da identidade, podem ser explorados por indivíduos mal-intencionados ao fazer crescer movimentos relativistas, que desmerecem opiniões informadas, e ao tentar associar a uma identidade um qualquer comportamento independente (ex. associar ser benfiquista a votar num certo tipo de político). Mas, e se usarmos a Ciência e o método científico? Se os ajudarmos a “decidir por si”? Temo que o ensino do espírito crítico possa a ajudar a amplificar a ilusão de que isto é possível. Investigação recente (em parte do grupo que coordeno) tem posto em causa o chamado efeito de Dunning-Kruger, que descreve como os menos conhecedores são os que mais sobrestimam o que sabem. Um corolário deste efeito é que “algum conhecimento é sempre melhor do que nenhum conhecimento”. No entanto, o nosso trabalho indica que são aqueles que têm algum conhecimento, ou conhecimento intermédio, os que mais se sobrestimam e também os que têm atitudes mais negativas em relação à ciência. Ou seja, os que sabem muito pouco sabem que sabem muito pouco, mas aqueles que sabem alguma coisa tendem a achar que sabem bastante mais. É possível que quando, com as melhores intenções, cientistas e professores retiram muita da complexidade de uma explicação, aumentem um bocadinho o conhecimento e muito a confiança nesse conhecimento, dando a ilusão de compreensão a quem só tem “umas luzes”. Para além disso, é possível que existam fatores culturais relevantes. Por exemplo, há culturas em que é mais comum dizer que não se sabe. E, tal como uma pessoa que está permanentemente esgotada tem pouca capacidade de limitar o seu consumo de calorias, terá capacidade de limitar o seu consumo de “junk-TV”? Ou de ver e discriminar entre notícias? Se estes comportamentos são culturais, podem ser ensinados, ou é necessário que a cultura mude? O QUE FAZER? Ao longo deste texto argumentei que, ao tentarmos ensinar espírito crítico apoiado num reforço da dúvida sistemática e em algum treino no método científico, podemos estar a correr o risco de criar sociedades demasiado críticas (no sentido em que duvidam de tudo), pouco conhecedoras, mas muito confiantes no seu parco conhecimento. O que podemos, então, fazer? Naturalmente, é importante ensinar Ciência, mas a ideia central é que temos de conseguir temperar conhecimento e crítica com humildade. Uma das minhas heurísticas é duvidar de quem nunca tem dúvidas e acha que nunca se engana, e acreditar em quem assume erros (como fazem todos os bons jornais e nunca fazem os motores de busca). Seria positivo se, como sociedade, conseguíssemos baixar o custo de assumir erros. Podemos também tentar valorizar mais a procura do conhecimento do que o resultado, mais a pergunta do que a resposta. Finalmente, podemos dar mais tempo: pessoas esgotadas física e mentalmente serão sempre menos capazes de fazer bons julgamentos. Assim, se conseguirmos desenvolver humildade, não a da ignorância mas a da humanidade, ao aceitar os limites do nosso conhecimento individual e coletivo e os enviesamentos que nos tornam humanos, talvez avancemos verdadeiramente como sociedade. J *Ioana Gonçalves de Sá é investigadora do SPAC (Social Physics and Complexity) do LIP, Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas. Se a existência de grupos de pessoas que acreditam em tudo é um grande problema, a existência de uma geração que não acredita em nada, e para quem os meios de comunicação social “são todos iguais”, não deve ser menos preocupante