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NAVIOS EÓLICOS SÃO A PRÓXIMA REVOLUÇÃO NO MAR

Diário de Notícias

2023-05-28 06:30:08

ENERGIA É uma onda mais lenta e silenciosa do que aquela que se vê nas estradas, com os carros elétricos, mas também está a nascer uma revolução nos mares e no transporte marítimo. Séculos depois, os navios voltam a usar a energia do vento rumo ás emissões zero. Diário be Noticias rioneirovivo riCYrO82io PORTUGAL SUMMIT MO I3 2 0 2 3 edp Navios eólicos são a próxima revolução no mar ENERGIA É uma onda mais lenta e silenciosa do que aquela que se vê nas estradas, com os carros elétricos, mas também está a nascer uma revolução nos mares e no transporte marítimo. Séculos depois, os navios voltam a usar a energia do vento rumo ás emissões zero. TEXTO CARLA AGUIAR 60 O primeiro navio eólico Ocean Bird vai começar a operar em 2026 e deverá cortar as emissões até 90%. Mil Existem mais de 60 mil navios cargueiros em circulação, responsáveis por 3% do total das 1 emissões de dióxido de carbono a nível mundial. ,;,? f im: « : ?0-" - ‘# .4‘. , r 4 -a A „-, i : qs - 44- --- .— rt . F I D ELI )1XDE CASCAIS LISBOA FPi o vento que nos levou a descobrir o Pla-neta, por mares nunca dantes navegados. Agora, 500 anos depois, é ele que vai ajudar--nos a preservá-lo, usando a tecnologia como estrela polar. O fenómeno ainda é recente, mas já há 20 navios cargueiros no mundo a usar tecnologias assistidas pelo vento adaptadas a embarcações existentes. O objetivo é ir mais além e fazer d o vento a energia propulsora principal, umavez que também a indústria marítima está obrigada a cumpriras metas do clima, fixadas no Acordo de Paris, que exigem a neutralidade carbónica até 2050. O primeiro navio de carga à vela moderno feito de raiz, o Canopée, foi construído em 2022 e já começou a operar. Encomendado por uma companhia francesa e construído pela Neptune, a embarcação pioneira estava em meados de maio ancorada no Porto de Bordeaux e gozava de boa saúde, com as suas oit o velas /asas de 30 metros de altura, após uma das várias viagens realizadas. No Japão, também há um graneleiro assistido pelo vento, nos EUA há procura por estas soluções e está em curso uma corrida para construir o primeiro navi o porta-contentores movido avento entre a Veer Voyage e a Windco op. Um pouco por todo o mundo os exemplos repetem-se, mas ainda são literalmente uma gota no oceano, visto que existem mais de 60 mil navios cargueiros em circulação, que são responsáveis por cerca de 3% do total das emissões mun diais d e dióxido de carbono, ou seja, mil milhões de tonelad as d e cot. Portugal Mobi Summit avança rumo a um mundo net zero ARRANQUE Seis anos depois, o PMS2023 faz o balanço do que mudou na mobilidade e antecipa tudo o que está para vir, daqui até à Grande Cimeira na Nova SBE. TEXTO CARLA AGUIAR esde a primeira edição ae o Portugal Mobi ummit, em 2018, o país o mundo viajaram a grande velocidade para tornar a mobilidade mais sustentável. Ainda falta chegar aos aviões e aos navios, mas já está em marcha o início de uma transformação inédita em todos os meios de transporte, com vista a alcançar a neutralidade carbónica até 2050 e minimizar o impacto das alterações climática& Rumo a um Mundo Net Zero é justamente o mote do PMS2023, a iniciativa do Global Media Group e da EDP, que agora começa. O maior evento de mobilidade urbana do país vai promover debates, entrevistas e reportagens em torno dos desafios da mobilidade sustentável, da transição energética, da inovação e de uma gestão urbana promotora de cidades mais amigas das pessoas e do ambiente. Daqui até à realização da cimeira internacional, no final do ano, na Nova SBE, em Carcavelos, Cascais. Ao longo das últimas cinco edições muito mudou no mundo. Atravessámos uma pandemia e enfrentamos uma guerra na Europa, com consequências diretas na mobilidade, no acesso à energia e no seu custo. O modo elétrico deixou de ser um nicho residual em Portugal e ganhou uma quota de mercado, que já ronda os 10% nas vendas de veículos, a crescerem em torno dos 90%. Tanto que o Governo se prepara para deixar de conceder incentivos à aquisição. A rede de carregamento passou de uma das mais pobres do espaço europeu para uma das que mais cresce, com mais de 6 mil postos disponíveis. No campo da transição energética, os investimentos feitos nos últimos anos em energias renováveis estão a dar frutos e continuam a surpreender, com Portugal a ser o quinto país da UE com maior peso das energias renováveis no seu consumo. O bom andamento do setor energético levou, aliás, o Governo a antecipar a meta da neutralidade carbónica fixada no Acordo de Paris. Para além dos bons indicadores na energia solar, a grande aposta do Governo e dos operadores privados é, agora, a produção de energia eólica e, muito em particular, off- sho re. Tão ou mais importantes são os investimentos e opotencial apontado para a produção e distribuição de hidrogénio em Portugal, dada a sua situação geoestratégica. Clientes para o hidrogénio made in Portugal não deverão faltar. No país já circulam autocarros movidos a hidrogénio em municípios como Cascais ou Porto. E, a médio prazo, os setores da aviação e da navegação serão dientes. A União Europeia acabou de fixar percentagens mínimas de utilização de combustíveis sintéticos para as companhias aéreas, já nos próximos anos, rumo à neutralidade carbónica em 2050. E na indústria marítima, para além da opção hidrogénio, os investimentos estão a concentrar-sena energia eólica como fonte propulsora. É todo este universo de desafios inovadores que marca o PMS2023, com a parceria da Brisa, da Fidelidade e dos municípios de Cascais e de Lisboa, onde haverá uma iniciativa conjunta no âmbito da Semana Europeia da Mobilidade. Saiba mais em www.portugalms.com C, A mobilidade suave contribui para a descarbonização das cidades. Reduzir as emissões para metade não basta Apesar de a Organização Marítima Internacional (IMO) ter estabelecido em 2018 a meta de reduzir para metade as emissões de navios entre2008 e 2050, a verdade é que as emissões do setor continuam a aumentar. Por outro lado, o ClimateActionTracker calcula que reduzir para metade as emissões não é suficiente para manter o aquecimento global abaixo de 1,5. E, no entanto, o consenso científico diz que esse é o limite superior que podemos arriscar, se queremos evitar desastres naturais ainda maiores mais frequentes. A IMO deverá rever a sua estratégia em julho, com os especialistas a defenderemmais ambição, porque chegar às zero emissões de navios até 2050 é imperativo para manter o limite de 1,5 credível. "Isso deixa-nos menos de 30 anospara limpar uma indústria cujos navios têm uma vid a média de 25 anos o prazo de 2050 esconde ainda que o nosso orçamento de carbono provavelmente acabará muito mais cedo, exigindo ações urgentes para todos os setores, induindo o transporte marítimo", considera Christiaan De Beukelaer, professor de Cultura e Clima, na Universidade de Melbourne e autor do livro TladeWinds:AVoyage to a Sustainable Futurefor Shipping. Oceanbird: a nova esperança É, por isso mesmo, enorme a expectativa em torno do conceito tecnológico por detrás do navio Oceanbird (pássaro do mar, em português).0 navio encomendado pela companhia sueca Wallenius Marine assenta na propulsão eólica e, segundo os fabricantes, poderá cortar as emissões até 90%. A ambição é tão prometedora que a União Europeia também participa no projeto comum financiamento de 9 milhões de euros, através do fundo Horizon. Em fase de construção, o cargueiro será equipado com seis velas inspiradas na aeronáutica que, na verdade, são mais asas do que velas, e terá capacidade para transportar mais de 7000 carros, razão pela qual também aVolvo participa como parceira do projeto. A embarcação terá cerca de 220 metros de comprimento, 40 metros de largura e70 metros de altura acima da água. A nova prome ssa do transporte marítimo sustentável deverá começar a navegar em 2026 e foi desenvolvida por uma equipa sueca de I&D entre a Wallenius Marine, a ICTH Royal Institute andTechnology, , a SSPA/RISE e apoiada pela autoridade sueca de transportes. Segundo os promotores, cada vela numa embarcação RoRo existente pode reduzir o consumo de combustível do motor principal entre 7% a 10% em rotas oceânicas favoráveis. Isso significa uma poupança aproximada de 675 000 litros de diesel/ano, o que corresponde a cerca de 1920 toneladas de CO2 por ano. O potencial da propulsão eólica e, em particular, para reduzir as emissões rumo à neutralidade carbónica parece estar demonstrado. Para Christiaan De Beukelaer, a matemática é simples. "Se a propulsão eólica começar já a economizar combustíveis fósseis, o orçamento de carbono vai estender-se um pouco mais. Com isso ganha-se tempo para desenvolver combustíveis alternativos, que a maioria dos navios precisará até certo ponto. Ora, assim que estes combustíveis estejam amplamente disponíveis, precisaremos de cada vez menos, porque o vento pode fomecer entre 10% a 90% da energia que um navio precisa". Concluindo, por muito conservadora que a indústria da navegação seja, a onda está a crescer e deverão serlançados muitos navios eólicos nos próximos anos. Por isso, aquele especialista entende que para as empresas de navegação, o maior risco agora não é fazer um investimento ousado é não investir num futuro sustentável. 4 mitos sobre navios eólicos O especialista australiano Christiaan De Beukelaer desmonta o que considera serem "quatro mitos" ligados às objeçóe s habitualmente levantadas à navegação por propulsão eólica. Os navios eólicos são coisa do passado por um bom motivo Os navios movidos a energia eólica usam uma mistura de tecnologia nova e antiga para aproveitar o vento onde ele é mais comum, que é no mar. Isso reduz a necessidade de combustíveis fósseis e de novos combustíveis alternativos que exigirão investimento e espaço para novas infraestruturas terrestres, tanto para gerar eletricidade quanto para transformar essa energia em combustível. Mesmo que a pesquisa sobre navios de carga à vela tenha parado no final do século XIX, a engenharia, a ciência dos materiais, as corridas de iates e o design aeroespacial produziram grandes inovações que estão a ser usadas para navios de carga, atesta De Beukelaer. MITO 2 O vento não é confiava,. então os navios não chegarão a tempo O vento pode parecer inconstante quando se está na praia. Mas no mar, os ventos alísios que impulsionaram a globalização permaneceram estáveis. De fato, as rotas comerciais mais comuns ainda são bem servidas pelos ventos predominantes. A previsão do tempo também melhorou bastante. E o software de roteamento é melhor do que qualquer outro do século XIX para ajudar a encontrar o melhor curso. Embora o vento possa não ser tão previsível quanto um fluxo constante de óleo combustível pesado, os avanços tecnológicos eliminaram muita incerteza. Por outro lado, o vento é grátis e não é afetado pela flutuação dos preços do petróleo. MITO As velas não funcionam em todos os navios É verdade que nem todos os tipos de navios funcionariam com velas, rotores ou pipas montados no convés. Isso pode ser devido ao tipo de navio, pois os maiores porta-contentores não acomodam facilmente velas, por exemplo. Também pode ser por causa de onde ou como as embarcações operam - as águas sem vento e os horários apertados dos ferrys representam desafios. No entanto, o argumento não é generalizável. Enquanto isso, a corrida entre a Veer Voyage e a Windcoop para construir o primeiro navio porta-contentores movido a vento continua. Então, talvez esses navios possam usar velas, afinal. MITO 4Se é tão bom, já estariarnos a fazer A crise petrolífera da década de 70 aumentou o interesse pela propulsão eólica, nomeadamente com as conferências em Delft (1980) e Manila (1985), que prometiam esperança para este tipo de energia. Mas quando os preços do petróleo caíram, o interesse diminuiu. "A propulsão eólica continua um nicho do setor porque as companhias de navegação ainda não precisam de pagar os custos ambientais e sociais reais da queima de combustíveis fósseis. Mas é provável que um preço global do carbono seja aplicado em breve ao transporte marítimo internacional . Isso cria um incentivo financeiro para meios de propulsão não poluentes".