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TREMEU MAS NÃO CAIU

NOVO Online

2023-05-28 06:00:12

Ao contrário das infra-estruturas construídas sem o cumprimento necessário das medidas de segurança legalmente previstas para mitigar impactos de terramotos e cujo desmoronamento foi fatal para milhares de pessoas, Recep Tayyip Erdogan tremeu, mas não caiu. E o mesmo aconteceu ao AKP. As eleições decorreram com ataques mútuos de interferência no processo, mas sem os escândalos ou a agressividade que poderiam antever-se. Estas constatações óbvias do momento das eleições não eliminam as suspeitas ou evidências de condicionamento anterior do acto: a detenção do presidente da Câmara de Istambul e o afastamento de outros políticos curdos, o controlo dos meios de comunicação, bloqueios às redes sociais nas vésperas das eleições e acusações de ligações da oposição a grupos terroristas, lançando a carta da identidade turca e dos valores conservadores islâmicos numa audiência particularmente sensível a esses apelos. Juntou-se a este esforço de controlo da narrativa do regime a solidez da lealdade a um líder político autocrático cujas teias intrincadas se mantêm, não obstante crises humanitárias ou inflações galopantes, sustentadas por esquemas nepotistas de trocas de favores e corrupção. Por outro lado, temos a oposição: um esforço sem precedentes numa desesperada tentativa de recuperação do kemalismo, mas, ao juntar numa aliança partidos ideologicamente tão diversos, teve um resultado agridoce: agradou a muitos e mobilizou as massas, mas desagradou aos maiores defensores de cada uma das ideologias que percepcionam nessas alianças eclécticas uma traição aos seus valores fundamentais. Perante este cenário, o mapa com a distribuição dos votos é o mais previsível possível e segue as tendências das últimas eleições: Erdogan continua a colher o apoio da Turquia interior - com excepção da capital; Kiliçdaroglu conquistou as massas emburguesadas e as elites da costa do Mediterrâneo e do sudeste curdo. Agora, os olhos não estão em Erdogan ou Kiliçdaroglu: é Sinan Ogan o fazedor de Presidentes neste momento. Antigo membro activo do Partido do Movimento Nacionalista, Ogan é um ultranacionalista convicto, apoiado, na candidatura, por uma aliança de quatro partidos de extrema-direita muito mais alinhados com a ideologia de Erdogan do que com a de Kiliçdaroglu, em particular na questão nacionalista e em relação aos curdos. A escolha está feita e foi comunicada há dias, sem surpresa. Nem sequer do Parlamento chegarão grandes desafios: a aliança liderada pelo AKP assegurou 322 dos 600 mandatos. São 100 anos de uma república moderna, sonhada por Mustafa Kemal, o pai dos turcos, e entretanto transformada num outro sonho, o de Recep Tayyip Erdogan. A 28 de Maio descobriremos se a Turquia continuará no onírico de Erdogan ou se, surpreendentemente, despertará com os clamores de mudança de Kemal Kiliçdaroglu. André Pereira Matos Professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense Autor marcado para seguir André Pereira Matos