"ENTRE MARCELO E COSTA HOUVE UM DESCARRILAMENTO" - ENTREVISTA A JOÃO SOARES
2023-05-27 06:01:15

Discurso Directo João Soares Militante do PS i "Não assisto à comissão de inquérito da TAP por razões de saúde mental" istórico do PS. que foi fundado pelos pais, Mário Soares e Maria Barroso. João Soares foi um efémero ministro da Cultura do primeiro executivo de António Costa, após ter sido presidente da Câmara de Lisboa. E é um observador atento e participante na política nacional, como se viu na pronta reacção a Cavaco Silva quando o antigo chefe do Estado apelou à demissão do primeiro-ministro. TEXTO Leonardo Ralha "Não havia necessidade", expressão criada para o Diácono Remédios de Herman José, foi repetida várias vezes por João Soares para designar o "disparate" do conflito entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa. Para o histórico militante socialista, deu-se um "descarrilamento" em que o Presidente da República e o primeiro-ministro têm responsabilidades. À TAP aponta um futuro que vai muito além das "cenas lamentáveis" no Ministério das Infra-Estruturas que os deputados têm andado a investigar FOTOGRAFIA Cristina Bernardo Acredita que os portugueses na sua totalidade, e não só os madeirenses, que vão eleger a assembleia regional em Setembro ou Outubro, irão voltar às urnas neste ano? De forma nenhuma. Não creio. sinceramente. Falar em dissolução da Assembleia como, aliás, tem dito o Presidente da República parece-me um disparate neste quadro político. Isso não significa negar que há problemas com o Governo, mas não resolveria absolutamente nada. A propósito da situação que temos estado a viver, tenho citado muito uma personagem de Herman José, o Diácono Remédios, que dizia sempre que "não há necessidade". E há muitas coisas em que não havia necessidade. A "vigilância reforçada", como lhe chamou o Presidente da República, poderá conter essas coisas? Penso que sim. Faço uma avaliação muito positiva do comportamento do Presidente da República. tanto assim que nas últimas eleições votei nele. eu que nunca o tinha feito e até fui seu adversário. como número 2 da lista de Jorge Sampaio para a Câmara de I .isboa em 1989. E fomos colegas de curso. com ele no topo do ranking como o melhor aluno desse ano. Essa vigilância é sustentável? Desta vez houve aquilo a que podemos chamar um descarrilamento. Não havia necessidade de o Presidente da República se referir publicamente à necessidade de substituir um ministro que, sendo eu um indefectível do Governo. também considerava desejável que fosse substituído. que é o ministro das Infra-Estruturas. O Presidente teria condições para dizer aquilo ao primeiro-ministro noutro contexto. e daí a reacção do primeiro-ministro. que também me pareceu infeliz. É público, notório e constitucionalmente consagrado que quem manda no Governo é o primeiro-ministro. e oPresidente da República, ainda por cima, foi professor de Direito Constitucional dele. Sabem ambos muitíssimo bem isso. Nenhum deles tem problemas de afirmação de ego, mas há coisas que acontecem assim e, agora. dificilmente se emendará isso em termos do relacionamento entre eles, como existiu até aqui e que. na minha modesta opinião, tem sido uma mais-valia para o país. Tenho imenso orgulho em ser português. Temos qualidades únicas, mas também a tendência para nos pegarmos uns com os outros em coisas que eram completamente desnecessárias. Entre Belém e São Bento existe uma tempestade num copo de água? Espero bem que sim, pois não faz nenhum sentido, após sete anos de convívio democrático entre os dois. Nunca houve caso igual, e repare que já vamos em cinco Presidentes da República. Sobretudo no segundo mandato dos Presidentes houve grandes sarilhos com o responsável pelo Governo e pela maioria que o sustenta. Tenho respeito por Ramalho Eanes, mas foi ao ponto de criar um partido que dava lições de dignidade, seriedade e anticorrupção a toda a gente e acabou trespassado a um grupo de extrema-direita. Penso que esse partido ainda existe. Mudou de nome entretanto. Mudou de nome, mas são as mesmas cinco mil assinaturas que lá estão. Provavelmente, não a do Presidente porque, na altura. não deve ter assinado, mas, para todos os efeitos, chegou a ser o presidente, embora por um período que deve ter sido quase tão curto quanto o meu no governo do António Costa, onde estive naquilo a que chamo um modelo Primeira República. O meu avô paterno. que era um grande pedagogo, esteve quatro meses num dos governos mais progressistas da Primeira República. e eu, quando cheguei aos quatro meses e meio do Governo - como qual estava e estou solidário -, pensei que. por respeito ao meu avô, não iria estar mais tempo do que ele. [risos] Após uma grande propensão de António Costa para mudar de ministros, passou a haver uma grande renitência? Quem decidiu sair tui ou Devido às circunstâncias. Mas as circunstâncias não são atribuíveis ao primeiro-minislio. Há pessoas que saem e ficam enxofradas; eu saí com a maior das tranquilidades. Combinei com ele que iria fazer um comunicado a explicar porque tinha pedido a demissão. Ninguém me pressionou. Pedi por perceber que havia uma onda contra mim que se ia transformar numa onda contra o Governo. Estava e estou solidário com o Governo, e honrado com o convite que me tinha sido feito. A maior parte das pessoas não leram o terceiro parágrafo, no qual escrevi que em circunstância nenhuma aceito prescindir de exprimira minha opinião quando entender. Como não tinha expressado nada que fosse indigno, na minha modesta opinião. mas posso estar enganado - engano-me algumas vezes e tenho dúvidas noutras -. decidi sair para não cai içar mais confusões ao Governo. Sem falsas modéstias, acha que fez falta ao Governo no resto da legislatura, na área que tutelava e também para ajudar no combate político? Não me ponha a mim a dizê-lo, mas acho que sim. Pessoas que estavam no Governo mandaram mensagens ou disseram-me é pena que não estejas aqui". Não todas. mas várias. Um Presidente da República em guerra fria com um primeiro-ministro apoiado numa maioria absoluta monopartidária é algo que lhe traz recordações? A designação guerra fria" tem a ver com aquele gelado que o Presidente da República comeu no Santini de Belém? Mais simbólico do que isso foram as imagens de Marcelo a fazer de calceteiro... Existem todas as condições para voltar a um clima de tranquilidade muitíssimo benéfico para opais. Gerarmos um conflito desnecessário entre pessoas que têm todas as condições para se darem bem, e que se deram bem durante sete anos, parece-me um disparate completo. Depois das críticas que fez à intervenção de Cavaco Silva no encontro dos Autarcas Social Democratas, apontando-lhe desatino e ressabia mento, foi recordada uma carta aberta de 2012, em que o primeiro subscritor era Mário Soares, na qual se acusava Passos Coelho de levar Portugal para o abismo e se apelava a que se demitisse. Não vê nenhum paralelismo entre essas duas intervenções? A intervenção mais recente de Cavaco Silva faz todo o sentido em alguém que quer ser um militante político activo, embora, tendo sido Presidente. talvez devesse ter outra contenção - e essa é uma regra que se aplica também ao meu pai nessa matéria, pois. com toda a ternura em relação à sua memória. houve coisas em que não havia necessidade. Depois. há coisas que são ofensivas. O professor Cavaco Silva disse. nesta última intervenção, que os socialistas são uns mentirosos e não sabem fazer nada a não ser causar dificuldades. Eu sou uma pequena parte desse universo, mas não aceito que ninguém me chame mentiroso. E que diga que não sabemos fazer nada. Quando o professor Cavaco Silva quiser ir à balança comigo para ver quem fez mais na erradicação de barracas... Ele aprovou dispositivos legislativos e eu fiz as casas que permitiram das maiores alegrias e honras que tive, que foi ouvir pessoas que viviam no Casal Ventoso dizerem-me que, pela primeira vez. tinham uma casa de banho. Apesar de não ver razão para dissolver a Assembleia da República, António Costa teria alguma vantagem em voltar a submeter-se ao teste da confiança do eleitorado? É evidente que. no contexto em que estamos, provavelmente não voltaríamos a ter maioria absoluta - que. aliás, na altura. já foi um pouco surpreendente. Agora. qual era o ganho para o país de dissolver a Assembleia para provocar eleições. diga-me sinceramente? Admite que a validade deste Governo, por estranho que pareça, tendo em conta a maioria absoluta, depende muito da permanência de Fernando Medina? Tenho a melhor das impressões de Medina. É inteligente. jovem. culto, e teve uma boa formação familiar. Tenho-o na conta de profundamente sério. inteligente e preparado. E acho que fez um bom trabalho como presidente 66 da Câmara de Lisboa. Houve uma ou outra coisinha, como comigo, com o Costa e com outros que lá estiveram - aquela via ciclável na Almirante Reis não me pareceu a melhor solução -. mas só não faz erros destes quem não faz nada. e ele fez muita coisa nessa matéria. O actual presidente dizia que ia acabar com a via ciclável e viu que não há alternativa. É muito fácil fazer críticas quando não se faz nada. Eu não sou apreciador de futebol. mas tenho um filho entusiasta do Benfica que deseja festejar no fim-de-semana. Uma coisa é ser treinador de bancada e outra é jogar, treinar a equipa ou dirigir .o clube. Como tem seguido as notícias sobre as investigações em curso na Câmara de Lisboa? Não quero entrar por aí. Primeiro, não tenho uma visão conspirativa da vida e acho que isso são tudo coisas pequeninas. Ou há algum crime ou suspeita forte de algum crime ou, então. é melhor não entrar por aí, pois não leva a lado nenhum. É condenável, mas está a acontecer um pouco por todo o lado a condenação em praça pública antes de haver qualquer oportunidade de contraditório para a pessoa que é suspeita, seja do que for. Tenho uma experiência pessoal que às vezes invoco e que me parece única: por razões estritamente políticas, fui acusado de forma caluniosa de ser traficante de marfim. Houve a versão dos diamantes também, mas o marfim fazia mais sentido porque diziam que o avião [no qual seguia, com os também deputados Nogueira de Brito e NIIV Semanário Tv SI Ni O programa Dlitourso Direto, é uma parceria entre o NOVO e a JE TV. a plataforma multimédia do Jornal Económico. Veja em www.jomaieconomico.pt e www.onovo.pt. Com versão em podcast no Spotify e outras plataformas Rui Gomes da Silva, em 1989. numa visita à parte de Angola controlada pela UNITA] caiu por ter peso a mais. Se fossem diamantes, não faziam cair o avião... É terrível quando uma máquina de propaganda poderosa acusa alguém assim. Apesar de tudo, isso sucedeu quando ainda não havia redes sociais para fazer espalhar a mensagem. Era a máquina de propaganda de Luanda, um poder cleptocrático e complicadíssimo que nunca fez eleições decentes. Tal como. por exemplo, a Turquia também está mais ou menos na fronteira em que já não se pode falar verdadeiramente em regime democrático. Houve ali uma deriva negativa, centrada no senhor Erdogan. Uma das coisas que mais gozo me deram fazer, e em que senti que tinha sido mais útil, foi estar na Assembleia Parlamentar da Organização de Segurança e Cooperação Europeia. Conheci bem a Turquia e os países da antiga União Soviética, à excepção do Usbequistão. O Putin, não conheci, mas conheci bem o [Serguei] Lavrov, o que hoje é uma mais-valia. Sei que [o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia] sabe que sabemos que ele estila mentir quando diz aquelas coisas que tem dito acerca da Ucrânia.. Mas tem de as dizer... É um sinal da natureza daquele poder. Lavrov é um tipo inteligentíssimo. com um grande desembaraço intelectual, que fala muitíssimo bem inglês, também arranha francês, e que foi dez anos embaixador nas Nações Unidas. Sabe que nós sabemos que está a dizer enormidades quando fala da Ucrânia como dominada pelos nazis. A estratégia seguida pelo PS de sobrevalorização de André Ventura acarreta riscos? Não acho que haja sobrevalorização. Aquilo é um fenómeno Cavaco Silva disse que os socialistas são uns mentirosos e não sabem fazer nada a não ser causar dificuldades. Eu sou uma pequena parte desse universo, mas não aceito que ninguém me chame mentiroso" rw M Mal seria de nós enquanto país se o PSD deixasse de ser a oposição. Gostava que o CDS conseguisse renascer e ocupar o lugar que foi seu e onde foi útil ao país, mas parece-me pouco provável. Quanto ao Chega, acho que aquilo é um homem só. Ou muito mal acompanhado" que já vimos, parecido com o PRD. Já ninguém se lembra disso. mas atraiu uma grande parte do eleitorado do PS. E atingiu perto dos 18% [nas legislativas de 1985]. Pois. Não acho que haja sobrevalorização. Não conheço aquele universo do Chega, não estou no Parlamento, mas Ventura tem. obviamente, qualidades histriónicas, inteligência e habilidade comunicativa. Conheci-o de raspão. em estúdios de televisão onde ele ia fazer comentário desportivo. e tem qualidades até de simpatia pessoal. Já me veio falar num restaurante como se fosse um grande amigo. Disse-lhe: "Ó doutor Ventura, acalme-se um bocadinho: Tem qualidades de comunicador, mas falta o freio, e para captar a simpatia de franjas do eleitorado que ele acha mais sensíveis a este ou aquele argumento transpõe barreiras, pelo menos verbalmente, inaceitáveis para mim e para qualquer pessoa com um mínimo de formação democrática. Nomeadamente, as castrações. a prisão perpétua e o discurso anticiganos, até com uma ponta de racismo em relação a africanos. Mas o homem tem qualidades de comunicador Não é por acaso que representa a terceira força política na Assembleia. Com esse protagonismo de Ventura, pode dizer-se que, neste momento, o líder da oposição é Luís Montenegro? Aí tem uma coisa em que estou de acordo com o professor Cavaco Silva: a oposição é o PSD, como é óbvio. Mal seria de nós enquanto país se o PSD deixasse de ser a oposição. Gostava que o CDS conseguisse renascer e ocupar o lugar que foi seu e onde foi útiPao país, mas parece-me pouco provável. Quanto ao Chega, acho que aquilo é um homem só - ou muito mal acompanhado, pelo menos a nível de desembaraço verbal. Se calhar, estou a ser injusto e admito enganar-me, ao contrário do professor Cavaco. A TAP pode ser um Alcácer-Quibir para este governo? A TAP pode e deve ser uma grande companhia de referência no quadro europeu e internacional, e tem todas as condições para isso. Não pode é ser gerida por gente que lá vai parar só porque é do PS, do PSD, do PCP ou do CDS. Houve sempre uma repartição dos lugares, ou dos tachos, até aparecera primeira pessoa que quis transformar o cabo das Tormerítas em cabo da Boa Esperança. Chamava-se Jorge Coelho e era um grande amigo meu. Quando a TAP esteve à beira de ir à falência, como duas outras grandes companhias, que eram a Swissair e a Sabena, foi buscar um homem que tinha provado ser muito bom a gerir companhias de aviação, que era oFernando Pinto. Houve uma certa desconfiança por ser brasileiro, o que era totalmente disparatado, pois os brasileiros provaram que na aeronáutica podem ser de excelência, como a Embraer, que salvou as OGMA de Alverca. com Paulo Portas, e depois construiu duas fábricas em Évora, com José Sócrates. Os 3.200 milhões de euros colocados pelo Estado na TAP vão ser um ónus para o PS? Claro que vão ser um ónus para o país. Mas a TAP tem todas as condições. Temos uma tradição em matéria de transporte aéreo que é fantástica, mas não sabemos tirar partido do que temos. Fomos confrontados, como todos os outros, incluindo a Lufthansa, como que se passou no transporte aéreo por via da covid. O nosso problema é que nos pomos a discutir.. Já fui membro de comissões parlamentares de inquérito, até da comissão de Camarate, mas aquilo está no limite. Já estão a discutir o telemóvel do assessor do ministro Galamba e não sei quê. É uma coisa inaceitável. Considera que, nesse caso, já se trata de "casinhos"? Eu não ouço aquilo por razões de saúde mental. Assistir àquilo é meio caminho andado para uma doença mental ou uma depressão. Houve um deputado do PCP [Bruno Dias] que disse "tenho imensa pena, mas gostava de discutir a TAP". e caíram-lhe todos em cima, porque tem de se discutir é o telemóvel, o assessor e as cenas absolutamente lamentáveis e condenáveis no Ministério das Infra-Estruturas. Era mais fácil resolver aquilo com a saída do ministro? Às vezes, a saída não resolve nada, mas, naquele caso. até se justificava. Se o Presidente tem dito aquilo num outro contexto, talvez tivesse sido possível. Mas as culpas nunca estão só de um lado. O primeiro-ministro podia ter feito uma avaliação mais serena, pois a forma como qualificou o que se passou no Ministério das Infra-Estruturas pareceu-me correcta. Disse que era inaceitável, mas a sua posição terá a ver com o resultado da comissão parlamentar de inquérito. que, por este caminho, vamos transformar numa comissão de investigação sobre tecnologias digitais, telemóveis e computadores de vários tipos. Para terminar um tema que lhe é caro, pois uma das suas marcas de água enquanto autarca foi a recusa de que seja necessário onovo aeroporto de Lisboa. Este projecto de que se fala desde 1969 é uma espécie de ópio dos governos portugueses? Continuaram sistematicamente a anunciar que. no ano seguinte. oaeroporto estaria esgotado. Valia a pena fazer uma antologia. Ainda não tive pachorra. mas "chegamos aos 10 milhões de passageiros e acabou, "chegamos aos 15 milhões e acabou", mas vamos em 40 milhões e não acabou. A ANA e algumas pessoas não estão interessadas em que o aeroporto funcione bem - a aerogare, sobretudo, e as pistas também. Essa história de que está esgotado porque só tem uma pista... uma que está a ser usada e a outra serve para parquear aviões, mas Gatwick, que tem 50 ou 60 milhões de passageiros por ano, sempre teve só uma pista. A localização actual é uma mais-valia para a cidade e para o país. Qual é a cidade da Europa onde pode partir de manhã para outra capital europeia, ter reuniões e almoços de negócios, mais reuniões à tarde, e voltar à noite? Falar em Montijo é um disparate inenarrável. Esta aerogare pode ser remodelada mantendo o aeroporto em funcionamento. Os grandes investimentos deveriam ser na ferrovia? Temos de abandonara bitola ibérica, que é um absurdo completo, e adoptar a bitola europeia. E temos de fazer duas vias em toda a rede ferroviária nacional e decidir as linhas que vamos tentar melhorar com alta velocidade, nomeadamente as que asseguram a ligação com o exterior. Conheço pessoas de Trás-os-Montes, Minho e Porto que vão apanhar o comboio à fronteira com Espanha.