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ENTRE ASPAS - ESTATUÁRIA URBANA: UM DILEMA PATRIMONIAL...

Diário do Minho

2023-05-23 06:02:45

“ASPA , Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural” Apartado 78 4711-909 BRAGA (Portugal) www.aspa.pt | Blogue: aspa35anos.blogspot.com         Facebook: ASPA PATRIMONIO | mail: aspa.patrimonio@gmail.com Entre Aspas Não está em causa, bem entendido, negar a história ou reescrevê-la, bem pelo contrário. O espaço público deve ser expressão de uma comunidade que mesmo mudando de forma, extensão e densidade se perpetua no tempo, sendo a estatuária peça essencial nessa experiência de continuidade. A história e a memória podem, porém, tornar-se em armadinhas perigosas, ora por nos aprisionarem num tempo que já não é o nosso, ora por nos empurrarem para um presente esquecendo a sua transitoriedade. Importa, por isso, encontrar um equilíbrio virtuoso, e este exige a sinalização do contexto e uma abertura a uma cidadania esclarecida, capaz de perceber criticamente o que representam as estátuas com que se cruza , lançada recentemente (2021) pela Zetgallery-DST Group, a obra de Helena Mendes Pereira e Nilo Casares, Braga em Obras: catálogo das obras de arte em espaço público (século XX e XXI) no concelho de Braga, faz um retrato expressivo do objeto a que aqui nos reportamos. A estátua do Marechal Gomes da Costa, inaugurada em pleno Estado Novo para celebrar o golpe militar do 28 de maio de 1926, foi erigida no tempo histórico próprio e a figura homenageada apenas representa um movimento militar complexo e contraditório diferente do sistema político arquitetado depois por António de Oliveira Salazar. Deve ser vista hoje como uma marca histórica que carece de contextualização para ser devidamente entendida. Retirá-la não apagaria o acontecimento que sinaliza, mas ajudaria a apagar a memória de uma ditadura que ajudou a implantar. A situação é bastante diferente quando um regime democrático escolhe homenagear uma figura controversa do processo que o constituiu, como sucedeu com a estátua do Cónego Melo a que já nos referimos. Se é compreensível que cidadãos próximos dessa figura entendam que a mesma é merecedora de homenagem, o reconhecimento público deveria ser objeto de consulta, exatamente para garantir um mínimo de consenso num reconhecimento que devia ir além dos próximos e do entendimento partidário , que no caso englobou os partidos dominantes (PS e PSD). As estátuas não são eternas. São a expressão de figuras ou acontecimentos a que se dá importância em cada curva da história. Não podemos esquecer, por outro lado, que o passado é um instrumento poderoso de construção de poder. Erigir ou destituir um momento que evoca o passado e lhe dá sentido deve, por isso, ser objeto de escrutínio por parte da comunidade. O debate alargado e a consulta referendária devem ser instrumentos a considerar nestes processos, tal como deve ser considerada, também, a importância de contextualizar a memória, seja através de textos explicativos, seja remetendo estátuas que perderam sentido histórico para parques ou museus. Luís Cunha e Armando Malheiro remoção de estatuária, como sucedeu no caso de D. João Peculiar. Ao que parece, pesaram na decisão peculiares elementos estéticos e o incómodo da Igreja com a ressignificação que lhe estava a ser atribuída, o que remete para uma questão sensível, a do valor artístico e de mais um desacerto, neste caso entre a liberdade de quem cria e a expetativa de quem encomenda a obra. Oferecida ao espaço público, a estatuária não pode escapar ao juízo de quem nele circula, o que inclui a sátira popular. Vale aqui o desacerto entre a intenção de quem erige o monumento e uma leitura crítica do mesmo. Bom exemplo é o da estátua de César Augusto, que evoca o egrégio passado romano da cidade sem escapar à sátira devida a uma escolha que terá mais de pós-moderno que de registo histórico real. Um género de perplexidade e interrogação acerca do uso da história que igualmente se coloca quando vemos um guerreiro bracaro posto em lugar de destaque numa rotunda: que mitificações convoca numa cidade cada vez mais aberta e cosmopolita? O dilema em Braga B raga tem hoje, como sempre teve, e estranho seria que assim não fosse, uma forte presença religiosa nos seus espaços públicos. Se a representatividade , própria da condição de um antiquíssimo arcebispado e digna do apodo de Roma portuguesa , não se discute, já os critérios estéticos, tal como as condições de preservação e perpetuação de bens que embora reportem à Igreja são parte da cidade e, por isso, da comunidade que nela vive, diz respeito a todos os cidadãos. Estamos, na verdade, num ponto de cruzamento entre religião e laicidade, seja porque as figuras representadas foram mais que meros cónegos ou bispos, tendo desempenhado papel ativo, na comunidade bracarense e nacional, seja porque a preservação de uma igreja, capela ou mero cruzeiro, diz respeito a todos aqueles que fazem a cidade, crentes e não-crentes. Ao escolher-se o espaço público para dar destaque a uma figura ou um acontecimento, tal como quando se remove algum desses signos, assume-se um ato político que envolve toda a comunidade. Como já se disse, é uma responsabilidade que não se esgota no presente, e é justamente essa condição de dilação no tempo que deve levar à maior ponderação e à máxima explicação, já que as interrogações e dúvidas são sempre uma oportunidade de debate cívico , e que falta ele faz na cidade. Debate que teria feito todo o sentido (fará ainda?) em relação à estátua de Santos da Cunha. Erigida mais de uma década após a queda da ditadura, o que se evoca ali? O exercício de cargos públicos (presidente de câmara e governador civil) sem escolha e escrutínio democrático ou uma obra que combinou bairrismo e modernização da cidade? É que esta ficou, apreciada por uns e criticada por outros, mas a primeira não pode ter lugar em democracia. Se se exigisse unanimidade é provável que não existisse uma única estátua na cidade, mas esta evidência não deve obstar a um pensamento crítico sobre as escolhas, a oportunidade histórica e a mensagem, implícita e explícita, que uma estátua transmite. O desacerto temporal marcou de forma indelével a inauguração da estátua ao Cónego Melo, mostrando como o ato político de dar destaque a uma figura pública deve ser ponderado pela evidência de que qualquer escolha se estenderá muito para lá da vida política dos decisores. Outro tipo de desacerto é o que decorre da escala e localização escolhidas. O monumento de homenagem a Salgado Zenha é disso bom exemplo. Reduzida a escultura de rotunda, roubando visibilidade ao Museu dos Biscainhos, definha encolhida no espaço que lhe reservaram. Considere-se ainda a necessidade de debate e reflexão acerca do movimento oposto ao referido, ou seja, à Estatuária Urbana: um dilema patrimonial... (2) Jo sé R o c h a