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BLACK FRIDAY, A VAGA DE DESCONTOS TRAZ UMA VAGA DE ALERTAS (E ALTERNATIVAS)

Público Online

2023-11-23 13:43:05

Adesão às grandes promoções parece estar a crescer em Portugal, mas nem todos os negócios compensam e nem sempre é preciso comprar novo. É verdade, passou mais um ano , e aqui está novamente a última sexta-feira de Novembro, a que uma grande parte do comércio mundial convencionou chamar Black Friday. Há já algumas semanas que pelos ecrãs desfilam anúncios a promoções de encher o olho e não é improvável que nos próximos dias se perfilem imagens de enchentes nas lojas um pouco por todo o globo. Em Portugal, esta tradição comercial importada dos Estados Unidos há pouco mais de uma década parece ganhar tracção de ano para ano. Os estudos de opinião divulgados por estes dias, e houve vários, apontam para que haja um aumento das compras em 2023 em relação ao ano passado. Um inquérito da Deco a 1014 pessoas revelou que 79% planeia comprar nesta campanha, um crescimento de 11 pontos percentuais face a 2022. Outro estudo, este do Portal da Queixa e com 2732 respostas, diz que 52% dos inquiridos manifestou intenção de ir às compras, o que representa um aumento ainda mais expressivo (16,4%). A adesão à Black Friday não surpreende Sandra Lima Coelho, docente da Universidade Católica, no Porto, especializada em Sociologia do Consumo. “Do ponto de vista dos consumidores é perfeitamente compreensível que adiram a estas campanhas e nem sequer se questionem. É difícil resistir a estes apelos, muito atractivos, sobretudo em momentos de crise económica”, comenta. A perspectiva de pagar menos 30%, 40% ou 50% naquele telemóvel topo de gama, num electrodoméstico que está mesmo a fazer falta, numa peça de roupa para a consoada ou nas prendas de Natal é aliciante num contexto em que o custo de vida atingiu níveis incomportáveis para muitos. Daí que se multipliquem os alertas de que é preciso ver com atenção se o produto está realmente mais barato ou se o preço esteve inflacionado para que um novo valor seja agora apresentado como um grande desconto. “O que a lei nos diz sobre esta matéria é que quando é anunciado um desconto, terá de ser sobre o valor mais reduzido a que o produto esteve à venda naquela loja nos últimos 30 dias consecutivos”, lembrava Soraia Leite, da Deco, ao podcast P24, esta quarta-feira. A associação portuguesa identificou vários produtos que há algumas semanas estavam mais baratos do que agora. E uma homóloga britânica, a Which?, concluiu que 98% das promoções anunciadas na Black Friday do ano passado não eram promoções reais , os produtos estavam ao mesmo preço ou até mais baratos noutros períodos do ano. Tanto o estudo da Deco como o do Portal da Queixa concluíram que os inquiridos tencionam gastar menos em 2023 devido à situação financeira em que se encontram ou por acharem que os preços estão demasiado altos. Em sentido contrário, os dados do comparador de preços KuantoKusta mostram que na primeira quinzena de Novembro, em que muitos vendedores tinham já lançado campanhas promocionais, quem recorreu àquela plataforma gastou em média 94,36 euros, quase 50% mais do que no ano passado. Custos insustentáveis Num contexto de crise económica, “o interesse individual prevalece sobre o interesse colectivo” e o aparente brilho das promoções pode ofuscar os seus aspectos mais problemáticos, acrescenta Sandra Lima Coelho. Exemplifica: “Nenhuma empresa faz descontos para perder dinheiro, portanto há alguém no meio disto tudo que está a perder e provavelmente é o trabalhador ou produtor.” Os alertas sobre os custos sociais e ambientais da Black Friday não são novos. A possibilidade de adquirir produtos mais baratos incentiva os consumidores a comprarem mais do que precisam e, com o dinheiro que pouparam, a voltar às compras num curto espaço de tempo. Isto gera “níveis de produção e consumo desenfreados, que não são ambientalmente sustentáveis”, diz Sandra Coelho. A isso há que somar o impacto ecológico das entregas em casa (nos casos de compras online), a vida útil dos produtos adquiridos (geralmente curta no vestuário) ou o stress, as longas jornadas laborais e outros problemas a que estão sujeitos os trabalhadores (nas fábricas e em grandes retalhistas, por exemplo). Nos últimos anos multiplicaram-se as iniciativas em contracorrente à Black Friday, como a Giving Tuesday, a Blue Friday ou a Green Friday, que põem o foco na solidariedade social ou na sustentabilidade ambiental. Em 2023, a associação ambientalista Zero desafia os portugueses a resistirem “à tentação do consumismo” e, em vez dos “excessos que levam ao desperdício e ao fomento do descartável”, façam um donativo para reflorestar uma área da Mata Nacional de Leiria, que ardeu em 2017. Reparar, não comprar Contra o fomento do descartável trabalha há sete anos o Repair Café Lisboa, um projecto de aprendizagem e incentivo à reparação, sobretudo de pequenos electrodomésticos, que tem réplicas em vários pontos do país. “Há uma grande tradição de reparação em Portugal”, constata Marta Brazão, presidente da Circular Economy Portugal, que promove estes encontros mensais em que qualquer pessoa se pode inscrever gratuitamente para pôr novamente a funcionar um objecto estragado. Seja por não conseguirem encontrar quem repare ou por falta de peças, muitos consumidores sentem, no entanto, que não lhes resta outra opção que não a compra de produtos novos. Mas não tem de ser sempre assim. Destes cafés “as pessoas saem ou com os objectos reparados ou com um diagnóstico”, diz Marta Brazão, apontando para uma taxa de sucesso a rondar os 70%. A organização britânica Restart Project, que promove o direito à reparação no Reino Unido, garante que 69% das torradeiras e 86% dos computadores portáteis têm arranjo. “Em Portugal não vemos que haja um grande movimento a favor da reparação”, constata Marta Brazão, lamentando que o poder político não esteja mais empenhado neste assunto. Há “dois tipos de públicos” que participam nos cafés: “um consciente, que quer mesmo aprender a reparar as suas coisas” e um outro que, por dificuldades financeiras, não pode comprar novo, “precisa mesmo de reparar”, mas até a reparação “lhes é difícil pagar”. A Circular Economy Portugal faz parte de redes europeias que lutam para acabar com a obsolescência programada e para que as marcas disponibilizem peças de substituição. “O que nós vemos é que as coisas não são feitas para serem duráveis, são descartáveis”, diz Marta Brazão. Precisamente na terça-feira, o Parlamento Europeu recomendou novas medidas, como a possibilidade de requerer a reparação de um electrodoméstico mesmo depois da garantia ter expirado, de existir uma base de dados online sobre onde mandar reparar ou de os produtores disponibilizarem peças a um custo mais acessível. “Todos os actores sociais devem ser envolvidos na mudança de paradigma”, afirma Sandra Lima Coelho, que também integra uma associação que promove o comércio justo. Reconhece que os produtos deste tipo de comércio, que estão sujeitos a certificações para garantir a sua sustentabilidade social e ambiental e em que o preço procura remunerar com justiça todos os agentes da cadeia, não são acessíveis a qualquer carteira. Os compradores até podem receber informação sobre as boas e más práticas de produção, as boas e más práticas de transporte, mas o preço a que chegam à prateleira terá sempre preponderância. É por isso que a socióloga defende uma responsabilização de todas as partes: “Não podemos levianamente imputar [a culpa] aos consumidores” quando “muitas empresas passam uma mensagem muito eco-friendly e, ao mesmo tempo, promovem o consumo desenfreado.”