ENTRE ASPAS - ESPAÇOS DE MEMÓRIA, LUGARES DE IDENTIDADE
2026-11-01 06:00:04

Os Espaços de Memória dedicam-se, por natureza, à salvaguarda do património local, da história quotidiana e da memória comunitária. Tradicionalmente, as Casas e Museus da Memória nasciam para glorifci ar uma individualidade ou uma elite. Hoje propõe-se a abertura destes espaços à comunidade, transformando-os em locais de convívio e debate social, aproximando o património das comunidades locais e dos cidadãos comuns. À luz do pensamento museológico contemporâneo, as Casas e Museus da Memória deixaram de ser repositórios estáticos do passado, modelos consolidados, para passarem a ser motores de coesão social, identidade e turismo sustentável. O próprio turismo atua como um elemento de valorização já que, perante um visitante que procura conhecer a identidade regional, a comunidade local reforça o seu sentimento de pertença, contribuindo em simultâneo para sustentar fni anceiramente aquilo que a torna única. Gera-se aqui um efeito multiplicador na economia local: o visitante consome a cultura no Espaço de Memória, frequenta a restauração e dinamiza o comércio tradicional da região. Um olhar sobre alguns exemplos A Casa da Memória de Guimarães (CDMG), inaugurada no âmbito da Capital Europeia da Cultura de 2012 e instalada na antiga Fábrica de Plás-ticos Pátria, é um bom exemplo. Foca-se na história urbana, operária, industrial e nas tradições da comunidade. Sendo Guimarães fortemente visitada pelo seu centro histórico medieval, a Casa da Memória expande fsi icamente os ful xos turísticos e oferece uma narrativa viva, que liga o passado histórico ao presente da população. Ao estimular os vimaranenses a doarem os seus objetos e a prestar os seus testemunhos pessoais, de modo a enriquecerem o acervo do projeto, além de um local de exposição torna-se também um local de criação de conteúdos. E, para além de um espaço vocacionado para o registo e para a produção de memórias, funciona também como uma casa de encontro dos vimaranenses e uma porta de entrada para a descoberta da cidade e das suas gentes. O Museu da Memória de Matosinhos (MuMMa), aberto ao público em 2021, no Palacete Visconde de Trevões, é um espaço de encontro entre o passado e o presente de Matosinhos, cruza a história da cidade com as memórias individuais dos seus habitantes (as indústrias conserveiras, a ligação profunda ao mar e ao porto de Leixões). O Palacete, mandado construir, em 1909, por Emídio José Ló Ferreira (o Visconde de Trevões) para servir de residência à sua família, exibindo a riqueza que ostentava após fazer fortuna no Brasil nos sectores da construção e da borracha, foi adquirido ou cedido para servir a comunidade local, tornando-se um espaço afetivo na memória coletiva dos matosinhenses. Além das obras de arte e de objetos de valor histórico, o museu dedica especial atenção às pessoas, dando a conhecer testemunhos de cidadãos de uma comunidade eminentemente operária e piscatória. O visitante tem a possibilidade de gravar em vídeo o seu próprio testemunho para integrar o Museu, sendo os testemunhos orais a base da sua própria essência. Mostra como um município pode usar o património para combater o turismo de massas, criando uma oferta autêntica que atrai visitantes e preserva o orgulho local. Muitos outros exemplos podemos acrescentar. É o caso do projeto “Bairro Norte: Memória e Identidade em São Pedro da Cova”, em Gondomar, que demonstra o papel da memória mineira na coesão social, ou o do Museu do Traje de São Brás de Alportel, que valoriza a participação comunitária na construção da história local ao envolver os residentes na recuperação de arquivos fotográfci os. Por sua vez, o Espaço Memória e Fronteira, em Melgaço, reflete sobre o impacto da emigração clandestina e do contrabando na identidade das populações fronteiriças. Já a Casa do Passal Museu Aristides de Sousa Mendes resgata o testemunho do diplomata que salvou milhares de refugiados na Segunda Guerra Mundial, transformando-o num motor de refel xão cívica coletiva. A esta geografia de afetos junta-se o recente MUZEU , Pensamento e Arte Contemporânea dst (Braga), um espaço que utiliza a criação contemporânea e o pensamento crítico como ferramentas de ativismo social e cidadania. Trata-se de um genuíno ato de mecenato e responsabilidade cultural em prol da cidade, que prova, como todos os outros, que os lugares de identidade são, acima de tudo, plataformas abertas para discutir o presente e desenhar o futuro. O Desafio que se impõe: O Recolhimento das Convertidas Fundado em 1720 pelo Arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles, foi recolhimento bracarense especifci amente vocacionado para a regeneração moral de mulheres que haviam transgredido os padrões então vigentes. Encerra nas suas paredes histórias profundas de exclusão, submissão e vivências no feminino. Projetos turísticos privados e hoteleiros têm circundado a zona. A ideia, impulsionada por movimentos cívicos, de criar aí uma Casa da Memória da Mulher foca-se na história das pessoas comuns, na identidade dos bracarenses e nas suas memórias coletivas. Da mesma forma que nos exemplos anteriores, reabilitar este património único , em progressivo estado de degradação física , ajudará a travar a massifci ação turística, atraindo um turismo sustentável e reforçando a identidade local. A reabilitação deste espaço de memória permitirá resgatá-lo ao esquecimento na Avenida Central, devolvendo-lhe um papel ativo na sociedade como lugar de conhecimento, cidadania e refel xão sobre os direitos humanos. Ana Macedo Museu Aristides de Sousa Mendes. Casa do Passal. Cabanas de Viriato Espaço Memória e Fronteira. Melgaço Museu da Memória de Matosinhos. Arquitetura e figuras humanas (3D) “ASPA , Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural” Apartado 78 4711-909 BRAGA (Portugal) www.aspa.pt | Blogue: aspa35anos.blogspot.comFacebook: ASPA PATRIMONIO | mail: aspa.patrimonio@gmail.com