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VAMOS TER DE FALAR SOBRE AS NOSSAS DEMOCRACIAS

Público Online

2026-10-26 07:33:04

“Trabalhadores atomizados e sozinhos, um estado em recuo, bairros de desconhecidos, fomentaram as câmaras de eco das redes sociais, de identidades mais fortes, entre o nós perfeito e o outro” Universidade Portucalense e Instituto Português de Relações Internacionais As eleições no Brasil de ontem, e Israel, Estados Unidos e Espanha têm uma série de aspectos comuns, apesar das muitas diferenças do seu tecido económico e social. O risco para a qualidade da democracia, já em tensão, como demonstram os principais estudos internacionais, é evidente em todas. Para lá do resultado de ontem, as eleições no Brasil são um óptimo pretexto para falarmos destes aspectos. Vamos ter de falar sobre o papel das redes sociais e da Meta em particular. A Meta já reconheceu o “engano” que prejudicou Lula nas redes sociais, mas tem procurado negar parcialidade neste processo, demonstrada por inúmeros casos nas últimas semanas, e que cria, à partida, um terreno inclinado para a disputa eleitoral. Os resultados eleitorais não dependem, hoje, em praticamente nenhum lugar no mundo, de fraude generalizada no dia das eleições; mas, antes, dos meios de influência usados nas semanas e meses anteriores, em que as redes sociais, menos neutras e imparciais do que prometem, são decisivas, como eleições anteriores demonstraram. Chegará o dia em que falaremos de prestação de contas por estas plataformas e soberania tecnológica. Vamos ter de falar dos meios de comunicação social e de como levaram a extrema-direita ao colo. A imprensa tratou-a sistematicamente em pé de igualdade com o centro-esquerda democrático, como "escolhas muito difíceis" (Estadão), colocando a par uma candidatura social-democrata tradicional com o elogio de torturadores da ditadura militar. Repetiram-se até à exaustão as ideias de "radicalização" ou "polarização", como se estivéssemos perante um choque de "extremas", que não tem existido em lado nenhum. Surgiram ou transformaram-se meios de comunicação existentes em plataforma contínua de desinformação, teorias da conspiração e apoio explícito à ruptura democrática. Mas, nos demais, a exposição de ideias radicais minoritárias foi tratada como entretenimento, em que visões racistas ou saudosistas da ditadura foram vistas como pitorescas e não como uma ameaça à democracia. Vemos o mesmo em Portugal. Chegará o dia em que falaremos de como entrou pela porta da frente que a própria comunicação social lhe abriu. Vamos ter de falar sobre a nova "internacional" de extrema-direita e a interferência externa em eleições. Desde a CPAC (Conservative Political Action Conference), organizada por Eduardo Bolsonaro, ponto de encontro e de articulação para lideranças da direita radical e da extrema-direita; ao apadrinhamento por Trump, incluindo as tarifas, invocando este, entre outras razões, o julgamento de Jair Bolsonaro; à aliança com a vaga de idênticos movimentos na América Latina, destacando-se Milei; à cooperação de consultores do ecossistema MAGA. Chegará o dia em que falaremos de uma extrema-direita que, vendendo-se como nacionalista, deixou de o ser, numa internacional reaccionária. Vamos ter de falar sobre o esvaziamento da política. O voto negativo, ou seja, a rejeição do outro candidato, origina uma série de problemas para a qualidade da democracia. O objectivo passa a ser derrotar o outro, em vez de vencer, e isso reduz o papel da política e das ideias. Slogans básicos passam a ocupar o espaço público, sem ideias ou propostas concretas. A discussão sobre políticas públicas desaparece, substituída por um qualquer pânico moral (normalmente, uma espécie de "guerra cultural", como a "doutrinação nas escolas", "ideologia de género", ou a "ameaça comunista"). É evidente a dificuldade que os eleitores de Bolsonaro têm em identificar uma só proposta política, passada ou presente, que consigam explicar como tendo um impacto positivo na sua vida. Mas o mesmo levou a campanha Lula a refugiar-se no passado das conquistas económicas e sociais, minimizando o projecto futuro. Chegará o dia em que falaremos de como alguns usam a ausência de programa para forçar uma tribalização da política, cada vez mais radicalizada e entrincheirada entre nós e eles. Vamos ter de falar sobre a mudança da forma como interagimos socialmente. A crescente individualização da sociedade, a omnipresença do "self", a interacção tecnológica e à distância, a decrescente participação em associações desportivas/recreativas, artísticas/culturais, sindicatos ou partidos, gerou consequências que ainda não compreendemos bem. Trabalhadores atomizados e sozinhos, um estado em recuo, bairros de desconhecidos, fomentaram as câmaras de eco das redes sociais, de identidades mais fortes, entre o nós perfeito e o outro. A consequência, para lá do visível (como a instrumentalização da bandeira) é a rejeição da solidariedade, o egoísmo como virtude, a ideia de uma liberdade individual absoluta, recusando tudo o que implique o cuidado com o outro e o benefício colectivo, como se demonstrou durante a pandemia com a recusa do uso de máscara, o boicote às vacinas e a rejeição de confinamentos. Chegará o dia em que falaremos da falta de comunidade, mais do que de uma hiper-ideologia, em que o distanciamento físico gerou ressentimento e a proximidade digital gerou combustível para detestar o outro. Vamos ter defalar sobre tudo isto. O dia já chegou, e é hoje, se pretendemos democracias robustas face a todas estas ameaças. Universidade Portucalense e Instituto Português de Relações Internacionais Pedro Ponte e Sousa