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SATÉLITES PORTUGUESES: A NOVA ERA NO ESPAÇO QUE PROMETE UM WAZE DOS OCEANOS

Sapo Online

2026-10-20 11:38:03

Portugal iniciou a sua aventura espacial com o lançamento do PoSAT-1, em 1993, mas foi a adesão à Agência Espacial Europeia (ESA), em 2000, que criou as condições para o desenvolvimento da indústria espacial portuguesa. Foi preciso esperar 31 anos para voltar a lançar um satélite. Em março de 2024, é lançado o AEROS MH-1, desenvolvido pela Thales Portugal e CEiiA, seguindo,se em julho o ISTSat-1, do Instituto Superior Técnico, primeiro satélite universitário português. Em janeiro de 2025, é lançado o PoSAT-2, da LusoSpace, primeiro satélite comercial português, acompanhado pelo PROMETHEUS-1, da Universidade do Minho. Em 2026, assistimos a uma explosão de lançamentos. Em março seguem o CA-01, primeiro satélite militar, e o newsat52/VHRLight NexGen, do CEiiA, para a Constelação do Atlântico; quatro satélites da LusoSpace: Camões, Agustina, Pessoa e Saramago, para a Constelação Lusíada; e o GEMS2-Amethyst, da americana Weather Stream, com presença em Coimbra. Poucos meses depois é lançado o CA-02, do CTI Aeroespacial, seguido de mais três satélites da LusoSpace: Florbela, Cesário e Torga. Leia também: Saramago em órbita; Pilar dá-lhe sentido: Nós somos o outro do outro Indústria espacial portuguesa: dos satélites às comunicações no mar Os números mostram a transformação: nos primeiros 30 anos, Portugal lançou um satélite. Em pouco mais de dois anos, lançou 15. Portugal deixou de ter projetos isolados e começou a construir uma verdadeira capacidade espacial nacional. Mas estes marcos são apenas a ponta do icebergue. Existe uma indústria com dezenas de empresas e centenas de engenheiros, cientistas e técnicos, desenvolvendo proteções térmicas, equipamentos de navegação e teste, software de bordo, comunicações por satélite, tecnologias de mitigação de colisões e muitos outros produtos e serviços. A indústria espacial portuguesa já participou em mais de 50 missões espaciais. Um exemplo é a Active Space Technologies, que fornece equipamentos para constelações de centenas de satélites, sendo um verdadeiro campeão neste mercado. O sucesso português reside na diversidade, competência tecnológica e capacidade de penetrar em nichos altamente especializados. A Constelação Lusíada, da LusoSpace, é um exemplo. A ambição é tornar-se a primeira operadora mundial de comunicações marítimas através do VDES, VHF Data Exchange System. Atualmente, existem apenas cinco satélites VDES no mundo, pertencentes a quatro entidades diferentes. A Lusíada é a primeira constelação VDES mundial, colocando Portugal numa posição pioneira. Portugal pode, e deve, competir nestes nichos. Quando me perguntam se a Starlink é nossa concorrente, respondo que seria como comparar uma bicicleta de alta competição com um Ferrari: ambos tecnologicamente avançados e lucrativos, mas para mercados diferentes. A infraestrutura que estamos a desenvolver permitirá criar uma espécie de Waze dos oceanos , tornando o mar mais seguro e sustentável e apoiando pescas, logística, navegação, turismo e segurança. O trabalho com a Marinha Portuguesa acrescenta uma dimensão estratégica, permitindo comunicações seguras e soberanas e reduzindo a dependência de sistemas estrangeiros. Outra área de destaque são as comunicações óticas espaciais, onde a LusoSpace trabalha desde 2008. Permitem maior largura de banda, dispensam o licenciamento de frequências e oferecem elevada segurança. O próximo capítulo O desenvolvimento desta indústria resulta da participação de empresas, universidades, centros de investigação, associações, Forças Armadas, governos e instituições públicas. Existiram oportunidades perdidas, mas o momento atual é particularmente promissor. Importa destacar o papel agregador da Agência Espacial Portuguesa, a crescente participação de vários ministérios, a AED Portugal na representação da indústria e a atribuição à Força Aérea Portuguesa de responsabilidades no domínio espacial militar, reconhecendo o espaço como dimensão económica, operacional e de soberania. A nova Agência para a Investigação e Inovação (AI²) representa também uma oportunidade para articular melhor o financiamento da investigação espacial com a estratégia da Agência Espacial Portuguesa. A ambição do porto espacial de Santa Maria ganha igualmente relevância com o desenvolvimento de uma nova capacidade europeia de lançamento a partir de espaçoportos europeus, demonstrada recentemente pela alemã Isar Aerospace. Portugal encontra-se perante uma oportunidade rara: competência tecnológica, indústria em crescimento, universidades e centros de investigação de qualidade, capacidade de operação de satélites, novas constelações, infraestruturas nos Açores e uma crescente dimensão de soberania. O momento é de ouro, Portugal está no bom caminho e este é um setor no qual devemos continuar a apostar. O espaço deixou de ser uma curiosidade ou ambição distante: é hoje um setor estratégico no qual Portugal pode, e deve, assumir uma posição cada vez mais relevante. A articulação será um dos elementos-chave desta aventura. Empresas, universidades, investigação, associações, Forças Armadas, Governo e regiões têm diferentes papéis, mas um objetivo comum: fazer crescer Portugal no espaço. Até porque, nesta aventura, há espaço para todos. SAPO