pressmedia logo

O TERRENO NÃO BASTA

Jornal Económico Online (O)

2026-10-16 06:00:13

Poucos países juntam no mesmo território terra, mar, ar, espaço e ciber, e a guerra que se desenha é multidomínio, ao contrário dos centros europeus de ensaio. Portugal distingue-se por esta combinação. Estive na quarta-feira no encerramento do ARTEX, em Santa Margarida, e uma das primeiras coisas no ecrã foi um mapa. Sete mil hectares entre São Jacinto, Santa Margarida e Beja, zona livre tecnológica certificada para ensaiar robótica e sistemas autónomos à escala real. Terminavam ali duas semanas em que se testaram 110 tecnologias militares, na primeira campanha europeia de experimentação operacional da Agência Europeia de Defesa realizada em Portugal. Não foi um acaso de calendário. Num só mês o país acolheu três grandes exercícios, este, o REPMUS e o SPACE EX. A Europa já está a usar Portugal como laboratório de campo. A razão é prosaica e é nossa. No coração do continente, testar drones ou guerra electrónica tornou-se lento e caro: espaço aéreo congestionado, espectro saturado, restrições ambientais, populações perto. Portugal oferece o contrário, todo o ano, com um dos maiores espaços marítimos da União, os Açores e uma sociedade que não hostiliza a farda. O que nos distingue é a combinação. Poucos países juntam no mesmo território terra, mar, ar, espaço e ciber, e a guerra que se desenha é multidomínio, ao contrário dos centros europeus de ensaio. Daqui nasce a pergunta, e foi o Chefe do Estado-Maior do Exército a pô-la em cima da mesa: afirmar Portugal como centro europeu de experimentação na defesa. E tem razões. O director-geral da Agência Europeia de Defesa saiu impressionado, e o Centro Tecnológico do Exército entrou na rede de centros DIANA. O país tem o terreno; falta saber se o empresta ou se organiza o centro. Vai nisso a diferença entre ser terminal, por onde as coisas passam, e ser nó, onde se decidem. E um centro não se proclama, constrói-se. Tem de ser de todos. Escrevi aqui, em Setembro, que no REPMUS a Marinha construiu o laboratório, em Tróia. O Exército tem agora o seu, e o modelo que apresentou já desenha a rede toda, com a Marinha, a Força Aérea, a indústria, as universidades e a NATO. Falta-lhe a moldura por cima, política e conjunta, e uma porta única para quem chega. Falta que isto fique cá. Vi ali o que o REPMUS já mostrava, empresas, multinacionais e startups a partilhar o terreno com quem as vai usar. O Exército e a Marinha fazem pelas empresas de tecnologia o que se espera de uma universidade, dão-lhes onde falhar barato e um cliente que percebe do assunto. Sem essa ponte, Portugal é a montra onde outros mostram o que vendem. No ar já funciona, entre a Força Aérea e o CEiiA, e levá-la à escala multidomínio é o que transforma campanhas em contratos e emprego qualificado. Sinal de que o Exército percebeu: uma das nove prioridades de investigação que apresentou chama-se economia da defesa. Escrevi aqui, na semana passada, que o que envelhece depressa não é o material, é a geração, e que o Estado tem de comprar prontidão em vez de quantidades. É por isso que um centro vale mais do que um exercício. O patrocínio não faltou. O Presidente da República presidiu, e o Ministro da Defesa esteve lá como estivera na véspera, num encontro da Confederação Empresarial de Portugal com a IdD onde também participei. Mas o passo que falta já não é da Defesa. É o Governo assumir isto como alavanca decisiva da política industrial, matéria de Economia e de Finanças. O essencial já existe. Falta dar-lhe nome, casa e continuidade. A diferença entre a oportunidade e o desperdício não é técnica, é de decisão. Daqui a dois anos saber-se-á se isto foi o início de um centro ou o melhor mês que a indústria europeia passou em Portugal. Jorge Silva Carvalho, Analista de Estratégia, Segurança e Defesa Hoje, 00:12 Jorge Silva Carvalho, Analista de Estratégia, Segurança e Defesa