FRANCESES DA DASSAULT NA CORRIDA À SUBSTITUIÇÃO DOS F-16 PORTUGUESES
2026-09-24 14:39:03

Governo ainda não iniciou oficialmente o processo de escolha. Força Aérea não esconde preferência pelo F-35 da Lockheed Martin. A Dassault assinou na quarta-feira um memorando de entendimento com a AED, a associação das empresas portuguesas do sector da aeronáutica, espaço e defesa, e, sabe-se agora, apresentou oficialmente, em Julho, ao Governo e à Força Aérea (FAP) a sua proposta para substituir a frota nacional de F-16, em fim de ciclo, pelo caça Rafale. A companhia francesa entra assim numa corrida em que já estão a sueca Saab (construtora do Gripen E/F), a norte-americana Lockheed Martin (do F-35) e o grupo europeu Airbus (do Eurofighter Typhoon). A assinatura do memorando, na embaixada de França em Lisboa, replica os acordos já assinados pelos seus concorrentes com o sector português da defesa e aviação, que visam explorar potenciais áreas de cooperação industrial. “Demonstra o compromisso por parte dos parceiros do Rafale [a Thales e a Safran, a par da Dassault] que se encontram estabelecidos no país em desenvolver a relação existente e aprofundar a cooperação com o cluster e os parceiros industriais portugueses, a fim de impulsionar a economia nacional e reforçar a soberania do país”, afirma a AED em comunicado. Pouco se sabe, por agora, sobre as potenciais áreas de cooperação a explorar pelos franceses. A Saab é a única concorrente que admite à partida a montagem parcial do seu caça em Portugal. A Airbus disse em Junho ao PÚBLICO que o volume da substituição dos F-16, que deverá envolver a compra de cerca de 30 caças, fica aquém do limiar de viabilidade de uma linha de montagem do Eurofighter no país. O grupo alude, contudo, ao reforço da presença da Airbus em Portugal, na área civil, e na sua expansão para a esfera militar. A Lockheed Martin, por seu turno, disse também ao PÚBLICO ter “uma lista muito robusta de projectos” com empresas portuguesas em áreas como a inteligência artificial (IA), a autonomia ou a vigilância marítima. Repetem-se, de concorrente para concorrente, os contactos com a OGMA, a Critical, a Tekever, a EID ou o Ceiia, entre outras entidades nacionais. A substituição dos F-16, uma decisão que cabe ao Governo, estará prevista na nova Lei de Programação Militar, que o Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), o general João Cartaxo Alves, disse a 19 de Setembro à Lusa estar “em fase final de elaboração” e que será apresentada ao Parlamento ainda neste ano. O ministro da Defesa, Nuno Melo, tem repetido que o processo oficial de escolha do sucessor do F-16 ainda não começou. A Força Aérea, no entanto, não esconde a sua preferência pelos F-35 norte-americanos. “Para a FAP, a adaptação ao F-35 irá permitir a integração num vasto ecossistema dos aliados, melhorar a dissuasão, a interoperabilidade e o acesso a conhecimento operacional”, declarou o tenente-general João Caldas, vice-chefe do Estado-Maior daquele ramo, numa conferência da AED realizada em Maio no Estoril, levando Nuno Melo, na altura, a reiterar que “a decisão é da tutela”. Já em 2024, Cartaxo Alves, agora CEMGFA, então chefe do Estado-Maior da FAP, declarava à Lusa que “não há outra opção” alternativa ao F-35. Os argumentos dos concorrentes Cruzam-se argumentos técnicos, económicos e políticos no debate público sobre a substituição dos F-16. Saab e Airbus defendem que as suas propostas reforçam o desenvolvimento e autonomia da defesa europeia, com os suecos a sublinharem os baixos custos de operação e as capacidades evolutivas do seu Gripen E/F, bem como a cooperação da brasileira Embraer no projecto, ao passo que o grupo europeu assinala o potencial de sinergias industriais e de um “alinhamento atlântico” com Espanha, operadora do Eurofighter Typhoon, bem como a capacidade da aeronave para missões de longo alcance sobre áreas marítimas extensas como as dos Açores e Madeira. A Lockheed Martin, por seu turno, apresenta o F-35 como o único caça de quinta geração à consideração do Governo português, com capacidades furtivas avançadas, rebate os receios em torno de um controlo remoto norte-americano sobre os dados operacionais e as actualizações de software da aeronave, e argumenta que o avião já é “mais de 25% fabricado na Europa”, com a fuselagem central produzida na Alemanha e a montagem final do aparelho em Itália. A Dassault, por sua vez, encontra-se num momento de viragem. Cancelado o projecto franco-alemão FCAS para o desenvolvimento de um caça de sexta geração, que envolvia a Airbus, a empresa concentra-se na evolução do Rafale, nomeadamente através da integração de IA (a par da Saab em relação ao Gripen E/F), com o governo francês em negociações com os Emirados Árabes Unidos para uma parceria estratégica. tp.ocilbup@orierreug.ordep Um Rafale da Força Aérea francesa durante um voo de demonstração na Indonésia, a 22 de Setembro MAST IRHAM / EPA Pedro Guerreiro