NOITES BRANCAS
2026-09-11 06:00:03

Ao longo dos anos, a Noite Branca de Braga foi ganhando dimensão. Se o aumento do número de participantes é inegável, o seu valor estimado tem suscitado alguma controvérsia Opinião Marginal conomia@expresso.impresa.p etrospetivamente, não há como negar que a Festa do “Avantel”, que este ano celebra 50 anos, foi culturalmente pioneira no nosso país. Ainda que surgindo associada a uma publicação de um partido político, o jornal “Avante!", do PCP, a oferta cultural, em particular a musical, sempre atraiu um vasto público, que, não se revendo necessariamente na mensagem política dos comunistas, participava pelo convívioe e pelos concertos. Desde a sua génese, a Festa do “Avantel”, com a primeira edição em setembro de 1976, em Lisboa, foi, portanto, muito mais do que um evento partidário, proporcionando uma combinação de expressões artísticas, gastronómicas e culturais ao longo de três dias. Uma festa que, na dimensão musical, se compara aos festivais cada vez mais comuns no nosso país, tendo sido precedida apenas pelo festival de Vilar de Mouros, com edições desde meados dos anos 60, destacando-se a de 1971, apelidada de “Woodstock português”. A partir de meados dos anos 90 o número de festivais começou a aumentar de forma significativa e sistemática no nosso país, massificando-se na viragem do século. ê também com a viragem do século que surge a primeira Noite Branca, em Paris, em 2002. Esta é antecedida por eventos vanguardistas, durante a segunda metade dos anos 90, que ou propunham a abertura de espaços culturais fora de horas, em particular museus, convidando a população que habitualmente não os frequentava a descobri-los, ou desafiavam a ocupação, também durante a noite, de espaços urbanos menos convencionais com manifestações artísticas. A Noite Branca de Paris, organizada por aquele município a 5 e 6 de outubro, consistia num evento gratuito, aberto a toda a gente e centrado em produção artística contemporânea, que se espalhava por toda a cidade, sem se limitar a museus, incluindo espaços normalmente inacessíveis e encorajando os parisienses a redescobrir a sua própria cidade através da arte durante uma noite. Braga surge no panorama nacional como uma das cidades precursoras na implementação da Noite Branca. Embora tenha havido uma experiência anterior em Loulé, a primeira Noite Branca associada ao conceito daquela realizada em Paris, em 2002, surge em 2012, em Braga, na noite de 8 de setembro, aquando da Capital Europeia da Juventude e como legado dessa capital. Na primeira edição, cuja participação superou largamente as expectativas, pretendia-se promover a convivência entre arte e cidade, transformando o espaço urbano em palco de uma oferta artís-tica contemporânea e diversificada e unindo gerações. Durante aquela noite o comércio permaneceu aberto até depois da meia-noite, numa sequência de oferta cultural pela madrugada fora, com os bracarenses desafiados a passar a noite em branco. Ao longo dos anos a Noite Branca de Braga foi ganhando dimensão, não só em termos de orçamento, número de dias e de participantes, como também do seu impacto económico. Se o aumento do número de participantes é inegável, o seu valor estimado tem suscitado alguma controvérsia. A edição de 2022 foi exemplo disso, quando O município sugeriu que a afluência à Noite Branca daquele ano teria sido de um milhão de pessoas, um valor que, mesmo relativo aos três dias, gerou alguma incredulidade quando comparado com a estimativa de 215 mil participantes no funeral da rainha Isabel II, naquele mesmo mês de setembro. Quanto ao impacto económico, o estudo realizado pela Associação Empresarial de Braga, relativo à edição de 2023, apontava para um impacto de EUR15 milhões, resultante da soma de um impacto direto de EUR10 milhões e de um impacto mediático de EUR5 milhões. Face a uma despesa pública reportada de meio milhão, o retorno estimado por cada euro despendido foi de EUR20. Ainda que não se trate de uma estimativa do valor acrescentado, o impacto económico da Noite Branca é relevante para a cidade. Fica a dúvida sobre o seu impacto cultural. Numa edição revestida de polémica em torno do regulamento para as propostas artísticas e culturais, no âmbito da Open Call promovida pelo município, em particular no que diz respeito às condições impostas aos artistas , designadamente a ausência de apoio logístico ou de remuneração , em que medida a diversidade da oferta cultural constitui, de facto, um valor acrescentado imputável à Noite Branca? Considerada excecional, dada a sua programação e dimensão cultural, o atual presidente do município procue rou corroborar essa ideia destacando as filas para entrar nos museus. Contudo, as imagens partilhadas dizem respeito a apenas um museu privado, nas proximidades de um dos principais palcos, o Muzeu, inaugurado este ano. Filas também observadas no dia 25 de abril, quando as suas portas se abriram, com entrada gratuita, e nada mais se passava na cidade. Em que medida a atratividade da Noite Branca não se esgota nas três noites de concertos gratuitos, ou seja, em mais um festival de música, sendo a restante participação fruto do acaso? Se o impacto económico é consensual, persiste a dúvida quanto ao mérito da política cultural da cidade. Professora de Economia na Universidade do Minho Em que medida a atratividade da Noite Branca de Braga não se esgota nas três noites de concertos gratuitos? Sílvia Sousa