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"SOMOS ESCRAVOS DE PRAZOS. A GRANDE RIQUEZA É O NOSSO TEMPO PESSOAL"

Notícias ao Minuto Online

2026-09-01 09:34:03

O engenheiro de materiais e docente de Física e Ciência dos Materiais no Instituto Politécnico do Porto João Lima Lopes foi o vencedor da Open Call "Marcolino , 100 Anos de Arte", um concurso lançado no âmbito do centenário da relojoaria portuense. O professor explicou ao Notícias ao Minuto o processo por detrás da obra que adorna a Rua de Passos Manuel desde o final de julho. Desde o dia 31 de julho que um relógio desconstruído sobrevoa a Rua de Passos Manuel, no Porto. Em "Tempus Fugit", da autoria de João Lima Lopes, números e ponteiros dão lugar a aves, levando-nos a refletir não só sobre a passagem do tempo, mas também sobre o que "tentamos medir, mas nunca conseguimos prender". O engenheiro de materiais e professor de Física e Ciência dos Materiais do Instituto Politécnico do Porto foi o vencedor da Open Call "Marcolino , 100 Anos de Arte", uma iniciativa lançada no âmbito do centenário da histórica relojoaria portuense. Por forma a "aproveitar a ligação entre a loja Marcolino atual e a loja centenária", e para associar "o passado ao presente", João Lima Lopes optou por empenhar "três cabos que ligassem os dois edifícios, desde o mostrador do relógio , que representa o rigor, a ordem, a medida , até ao outro extremo, onde a libertação, a alforria e a autonomia são representadas pelas aves em voo". Conforme explicou o docente ao Notícias ao Minuto, o conceito é simples: "Somos escravos de horários, de prazos e de responsabilidades , consoante vamos vivendo, apercebemo-nos de que a grande riqueza é, de facto, o nosso tempo pessoal; então, cabe-nos encontrar a forma de romper com essa ordem." A própria instalação modifica "a perceção do espaço e [introduz] uma narrativa poética no quotidiano urbano", sendo que, ao observar "algo diferente" num local em que a paisagem é facilmente tomada como garantida no rebuliço do dia a dia, dá-se "uma transformação" no transeunte. Pelo menos, esse é o objetivo. A história que "Tempus Fugit" pretende contar é simples: somos "escravos" de horários, de prazos e de responsabilidades , consoante vamos vivendo, apercebemo-nos de que a grande riqueza é, de facto, o nosso tempo pessoal; então, cabe-nos encontrar a forma de romper com essa ordem O que é que o levou a participar na Open Call "Marcolino , 100 Anos de Arte", inserida nas celebrações do centenário da relojoaria portuense? Foi um impulso, sabe? Apareceu-me a open call no Instagram e fui ver do que se tratava. Daquelas coisas em que pensamos "tem de ser"? Isso foi a espoleta; depois de ler o regulamento na diagonal, começou a surgir a ideia do que queria fazer e fui vendo, com mais atenção, se respeitava as regras. Já conhecia a Marcolino , é impossível ficar indiferente à majestade do edifício. Fui pesquisar informação sobre a Marcolino na página oficial, na página do centenário e no programa dos 100 anos, entre outras fontes, e percebi que há uma forte relação entre a Marcolino e a arte , começa na beleza imponente do edifício, vê-se na simplicidade requintada do interior elegante da loja; vê-se nas criativas iluminações de Natal, a que já habituou os portuenses, e agora no programa do centenário, com diversos momentos artísticos e culturais. Como é que surgiu a ideia para esta obra e quais foram os maiores desafios na abordagem de um conceito tão abstrato como o tempo e a sua inevitável passagem? Como disse, depois de entender o que se pretendia, pensei na forma como aproveitar a ligação entre a loja Marcolino atual e a loja centenária. Tratava-se de ligar o passado ao presente (do ponto de vista do nosso tempo, pois este presente já foi futuro do ponto de vista de um tempo passado). O ponto de partida é um mostrador de relógio, que não é apenas a metáfora criada para a obra; há mesmo uma relação histórica entre a Marcolino, o relógio e a experiência urbana de quem passa naquela rua. Independentemente das considerações físicas e filosóficas sobre o tempo, conseguimos distinguir três tempos. Por isso, pareceu-me adequado que houvesse três cabos que ligassem os dois edifícios, desde o mostrador do relógio , que representa o rigor, a ordem, a medida , até ao outro extremo, onde a libertação, a alforria e a autonomia são representadas pelas aves em voo. "Tempus Fugit"© Reprodução A história que "Tempus Fugit" pretende contar é simples: somos "escravos" de horários, de prazos e de responsabilidades , consoante vamos vivendo, apercebemo-nos de que a grande riqueza é, de facto, o nosso tempo pessoal; então, cabe-nos encontrar a forma de romper com essa ordem (o mostrador desagrega-se e os algarismos deixam de ter a sua função de controlo e dá-se a metamorfose, concentrada no algarismo 3). Em termos de desafios, para que a ideia pudesse tomar a forma final, precisava de averiguar se era concretizável , pelo menos, teoricamente: uns breves cálculos para as dimensões e diâmetros de cabos, idealização das figuras, seleção dos materiais, funcionalidades esperadas; admitindo essa exequibilidade, passei aos esboços livres (muitos) do aspeto que a instalação teria, até por fim visualizar o resultado final, usando, para isso, programas de edição de imagem para sobrepor a estrutura sobre a foto do local. Uma vez que a execução e a montagem ficaram a cargo de uma empresa especializada, houve necessidade de proceder a alterações funcionais para garantir a segurança, a cujos detalhes sou alheio. Ao acompanhar o percurso dos transeuntes, intervenções deste tipo revelam-se de forma progressiva com o olhar, transformando a perceção do espaço e introduzindo uma narrativa poética no quotidiano urbano: causam interrupções no "normal" Qual o processo técnico e criativo por detrás de "Tempus Fugit"? Estas são duas vertentes que, em mim, avançam paralelamente , primeiro, a germinação da ideia, que forma uma imagem mental de partida , desenha-se, rabisca-se um esboço. Depois, vai-se analisando detalhes vários e fazendo alterações que sejam razoáveis; a ideia original começa a evoluir e a tomar uma forma final que para mim faz sentido e em que tenho de acreditar. No caso de "Tempus Fugit", decidi que o algarismo que apresentaria a metamorfose seria o 3, porque reforça a ideia dos três tempos , passado, presente e futuro. Esta metamorfose constitui o núcleo conceptual da proposta. Representa a transição entre o tempo medido e o tempo vivido, entre a tentativa humana de controlo e a inevitabilidade da sua dissipação. As aves, enquanto figuras de liberdade e movimento, simbolizam essa libertação do tempo, que escapa a qualquer tentativa de fixação. Em termos de finalização técnica, como era necessário usar um programa que eu não dominava, tive a ajuda imprescindível do meu filho Gabriel, que converteu os desenhos feitos a caneta (aves e algarismos) em ficheiros utilizáveis para corte CNC ou laser. A instalação é também um convite a abrandar e a observar o que nos rodeia, que pode facilmente passar despercebido ou ser tomado como garantido na correria do quotidiano. Qual a importância deste tipo de obras numa sociedade pautada pela pressa e pela urgência? Ao acompanhar o percurso dos transeuntes, intervenções deste tipo revelam-se de forma progressiva com o olhar, transformando a perceção do espaço e introduzindo uma narrativa poética no quotidiano urbano: causam interrupções no "normal" e, mesmo que inconscientemente, observar algo diferente num local onde todos os dias passamos provoca uma transformação , não que obrigue ninguém a parar, mas que possa dar a alguém uma razão para o fazer. Detalhe "Tempus Fugit"© Reprodução Conte-me um pouco sobre o seu percurso. Enquanto engenheiro de materiais e docente de Física e Ciência dos Materiais no Instituto Politécnico do Porto, como é que concilia e associa a arte à investigação científica? O meu percurso anterior à docência é muito variado. No entanto, sempre houve tempo para desenhar, pintar, esculpir ou escrever , nunca encarei o que faço como "arte", apenas como uma parte daquilo que sou , rabiscos, garatujas, gatafunhos estão sempre presentes em reuniões ou durante telefonemas. Cheguei a fazer caricaturas, logotipos, desenhei algumas t-shirts do curso, porque eram coisas que gostava de fazer. Fiz cinco cursos de Ilustração Científica aos sábados, quatro deles nestes últimos anos , foi uma forma de ganhar alguma disciplina. Contudo, creio que falhei redondamente [riso]. A minha atividade profissional não colide com esta faceta, porque está sempre em segundo plano, mas admito que a minha perceção estética tem impacto em quase tudo o que faço. Daniela Filipe