O REINO DAS MOSCAS, A GARRAFA MAIS LEVE DO MUNDO E AS ALGAS NA MAIONESE. O QUE NASCEU COM O DINHEIRO DO PRR
2026-08-30 20:45:03

Ana Sanlez Texto Cátia Rocha Texto Com as agendas mobilizadoras do PRR surgiram mais de 1200 novos produtos e serviços. Em alguns casos houve ambição a mais e restam dúvidas sobre o que vai ser dos projetos agora que o PRR acabou. 30 ago. 2026, 19:16 Ana Sanlez Texto Cátia Rocha Texto 30 ago. 2026, 19:16 O nome não diz muito. Os números ainda menos. Mas as agendas mobilizadoras são consideradas, à esquerda e à direita, o maior sucesso do PRR português. Nos últimos quatro anos, empresas , das maiores às micro ,, academia e institutos públicos uniram-se com o mesmo propósito: pegar na investigação dos laboratórios e transformá-la em produtos e serviços acessíveis a qualquer cidadão. Houve casos em que a ambição pecou por excesso. Muitos dos objetivos ficaram pelo caminho. Mas, no fim, as metas acabaram ultrapassadas. No fim do prazo para a execução da “bazuca” e com mais de 1.200 novos produtos e serviços para mostrar, o veredicto dos consórcios é unânime: “sem o PRR teria sido impossível”. Mas para onde foi o dinheiro? “De mal, só tem o nome. Ninguém percebe o que isto seja”, dizia em 2024, numa entrevista à TSF, Manuel Castro Almeida, o ministro da Economia que herdou a execução do PRR, e que nunca se cansou de enaltecer o modelo. “O saldo do PRR na economia foram as agendas mobilizadoras”, afirmou no Parlamento em julho. A ideia de juntar empresas, academia e institutos públicos em consórcio foi gizada nos tempos de António Costa, mas os elogios à “boa ideia do governo anterior” não foram raros nos Executivos de Luís Montenegro. Logo em 2021, quando o PRR foi acordado com Bruxelas, havia uma “expectativa muito elevada” sobre as agendas, ainda que “cautelosa” devido à exigência, admite ao Observador Pedro Dominguinhos, presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento (CNA) do PRR. Para o fiscal da bazuca, que foi sempre alertando para os riscos de incumprimento do restante PRR, o balanço das agendas é “manifestamente positivo”. “Estamos a falar do maior programa alguma vez criado” com estes objetivos, ressalva. O sucesso, diz Dominguinhos, deveu-se em parte ao foco dos consórcios em desenvolver produtos e serviços para chegar ao mercado. Um dos critérios de seleção era claro: “tinha de ser algo novo, que não existisse no mercado português”, conta o presidente da CNA. As agendas resultaram em 1.270 novos produtos, processo de produção e serviços (PPS) concluídos. Estavam previstos 959. Ainda nem todos estão à venda, mas muitos vão lá chegar, “sobretudo até ao final do ano e com grande ênfase a partir de 2027”, acredita Pedro Dominguinhos. Mas alguns “já estão a ser comercializados e a gerar vários milhões de euros de vendas”. O carro Ben terá sido um dos projetos mais mediáticos das agendas. É um pequeno automóvel elétrico made in Matosinhos, no CEiiA (Centro de Engenharia e Desenvolvimento), que custa oito mil euros e já pode andar na estrada. Na lista de 1.270 produtos, processos e serviços, PPS na gíria, constam ainda um avião, satélites, bicicletas, sapatos, louças, vestuário e até bolachas à base de insetos. O Observador foi conhecer os resultados de seis agendas mobilizadoras, onde apesar de se celebrar o sucesso, impõe-se uma grande dúvida: o que acontece aos projetos agora que o PRR acabou? As moscas de Santarém e o problema do corante azul Por fora, parece uma fábrica como outra qualquer. Quem passa pelo portão da EntoGreen não imagina que dentro daqueles discretos armazéns de tijolo há milhões de soldados-negros. É esse o nome da mosca criada pela empresa portuguesa que usa os insetos como matéria-prima. No interior de 16 incubadoras, cerca de 50 milhões de moscas reproduzem-se diariamente à velocidade de 22,5 milhões de ovos por dia. A conta é fácil de fazer. A EntoGreen, que lidera a agenda InsectEra, recolhe diariamente cerca de 1.500 gramas de ovos, sendo que em cada grama há cerca de 15 mil ovos. É deles que vão sair as larvas que se vão alimentar de uma mistura de resíduos orgânicos, como o bagaço de azeitona ou cascas de arroz, e cujos dejetos vão dar origem a fertilizante para agricultura. A função delas não acaba aqui. Depois da “engorda”, as larvas são secas, reduzidas a pó e transformadas em proteína que pode ser usada em rações para animais. Tudo isto num ciclo de 21 dias que acontece às portas de Santarém e foi financiado pelo PRR. “É a agenda mais inovadora do PRR”, diz André Durão. “Porque foi a única que criou um setor bioindustrial que não existia”, sublinha um dos responsáveis pela gestão da empresa que lidera a InsectEra. A agenda juntou 41 parceiros com a missão ambiciosa de chegar ao fim do PRR com mais de 100 produtos criados e três novas fábricas construídas de raiz com a ajuda dos fundos europeus. Os produtos foram desenvolvidos, e uma dúzia já chegaram ao mercado. Das fábricas, nem uma foi feita. Foi um daqueles casos em que o projeto inicial previa um passo maior que a perna. Quando o projeto arrancou, a EntoGreen era a empresa mais avançada da agenda na transformação de insetos. Foi criada há mais de uma década “num pequeno laboratório”, mas só com os fundos do PRR conseguiu arrancar com a produção na fábrica que já estava a construir. O objetivo era ter duas unidades industriais à boleia dos fundos, mas a burocracia e os prazos apertados da “bazuca” tornaram a meta impossível. “Nós já sabemos como é que Portugal funciona, não é? Só pedir uma licença a uma câmara ou a uma junta para criar uma nova zona industrial a oito quilómetros daqui, que era o que estava desenhado, é um horror. É impossível”, desabafa Nuno Vinhais, líder da agenda. Um “horror” a que se somou outro, dentro “do próprio Estado que suporta o PRR, que não tem um serviço administrativo suficientemente ágil para o tipo de desenvolvimento que se faz, a nível da indústria. Muito menos num novo setor totalmente desconhecido”. No caso da EntoGreen, este acabou por ser um entrave extra. Só o processo de inclusão do fertilizante na lista de produtos homologados que podem ser utilizados em Portugal levou 12 meses. “Nós costumamos dizer que isto não é uma fábrica, é um I&D (unidade de Investigação de Desenvolvimento) em ponto grande. Percebemos que não dava para construir uma fábrica nova, então investimos nesta. Temos feito muitas melhorias, muitas adaptações. Ainda há pouco tempo estivemos a testar novos produtos com que as larvas se possam alimentar. Estamos sempre em teste”, diz Nuno Vinhais. “Teste” é também a palavra chave no Co-Lab do Continente. O projeto do grupo Sonae serviu de laboratório à agenda Viiafood, de onde saíram perto de 150 novos produtos. Mais de 100 já chegaram às prateleiras dos supermercados. Cerca de 20 deverão estar afinados até ao final do ano. Sem o desafio da EntoGreen, porque não houve novel food envolvida (ou seja, ingredientes que não tenham historial de consumo humano na União Europeia antes de 1997, segundo a definição de Bruxelas), houve, ainda assim, obstáculos que a agenda liderada pela Sonae MC teve de ultrapassar. “Há sempre coisas que não resultam bem”, reconhece Marlos Silva, responsável de inovação da MC. Como o caso do corante E133. Também conhecido como azul brilhante. Como um dos objetivos da agenda é criar “novas formulações de produtos clean label [com menos ingredientes] e/ou mais saudáveis”, a MC tentou substitur o corante artificial por “alternativas mais naturais, provenientes de algas ou de frutas e vegetais. A cor fica linda, o problema é estabilizar a coisa”, admitem os responsáveis do Co-Lab. “O desafio era principalmente em bebidas, que exigem temperatura para estabilizar e para termos uma validade mais longa. E estas alternativas mais naturais de cor sofrem muito com a temperatura, perde-se mais de 50% a 70% da cor logo na primeira fase da aplicação de temperatura. Testámos algumas alternativas, mas foi um dos projetos onde fizemos um step back”. Também foi um dos projetos onde a MC colheu os frutos de trabalhar com a academia. Entre universidades e instituições científicas, a Viiafood conta com mais de 20 entidades. As restantes 29 são empresas do setor alimentar. Foi “uma das poucas agendas que teve execução em todas as regiões do país”, destaca Marlos Silva. No caso do corante azul, graças às universidades foi possível avançar “com algum conhecimento”. “Ficou muito mais do lado da ciência, foi super interessante. Trabalhámos com coisas que não imaginávamos no início. Ainda temos algum trabalho a fazer. É um daqueles desafios que permanecem”. Um autocolante para gelar cerveja e uma batata que virou bolacha “Vamos deixar de fazer visitas no verão”, graceja o engenheiro António Estudante de Oliveira ao embater com o calor intenso de agosto, que parece intensificar o cheiro característico da fábrica da Navigator em Cacia, Aveiro. Para chegar aos primeiros sinais do PRR na paisagem emaranhada de ferro e tubagens não é preciso caminhar muito. O carimbo surge no equipamento de pasta de alto rendimento, um dos projetos da agenda From Fossil to Forest, liderada pela Navigator. Para fazer uma tonelada de pasta de rendimento normal são necessários três metros cúbicos de madeira. Para a pasta de alto rendimento bastam 2,4. “Parece pouco, mas meio metro cúbico de pasta por tonelada são 40 euros. Faz diferença”, destaca o responsável pelo projeto. “Esta pasta usa menos recursos, é mais sustentável e mais barata”. Além disso, a fibra resiste melhor porque é menos “atacada”. Esta pasta, usada para fazer papel de embalagem usado em encomendas, foi uma das grandes conquistas da agenda da Navigator. Foram ao todo seis os projetos desenvolvidos no âmbito desta agenda. Alguns já circulam por aí e podem ser comprados no supermercado, como os pratos e tigelas de papel feitos de celulose moldada. Outros ainda estão a ser testados, são os chamados demonstradores, e está por provar que são economicamente viáveis. É o caso dos sensores em papel para embalagens inteligentes. “Uma coisa boa do PRR é que tem um pouco o espírito de startup. Que implica investigação, desenvolvimento, produção e colocação em mercado. Em alguns casos só se vai até à fase dos demonstradores, noutros vai até mesmo ao mercado”. Nas fábricas da Navigator foram ainda produzidos papéis com resistência mecânica, destinados a embalagens; papéis com propriedades barreira, resistentes à água ou aos óleos, e os biocompósitos, onde o plástico é substituído em 40% por celulose. Em relação a todos, os engenheiros da Navigator não têm dúvidas: sem o PRR não teria sido possível fazer nada disto. O consórcio contou com 27 parceiros, entre universidades, centros de investigação e empresas. A uns coube o estudo das matérias-primas, a outros o seu desenvolvimento e houve ainda quem estivesse na agenda para ser o experimentador dos produtos acabados. “É importante que os utilizadores façam parte do projeto, para darem um feedback contínuo que otimiza os produtos”, nota António Sequeira, responsável pela agenda na Navigator. A Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce, a Delta ou a Super Bock foram alguns dos utilizadores dos produtos saídos desta agenda. A Super Bock foi uma das cobaias dos sensores para embalagens inteligentes. Foi testado um papel com um gel incorporado que, quando impresso nas garrafas de cerveja, faz com que estas gelem em metade do tempo. O produto existe e funciona, mas ainda não está na fase de comercialização. “Falta convencer as empresas de que o preço associado ao produto pode ser uma mais valia de marketing”, diz António Sequeira. No caso da Viiafood, a marcha da agenda foi a contrária. Foram as empresas fabricantes que tiveram de convencer a líder do consórcio, a Sonae MC, de que os produtos que queriam desenvolver eram viáveis. Quando a Vieira, conhecida pelas bolachas, propôs criar um snack à base de batata, a MC sugeriu outro rumo: um snack, sim, mas do tipo bolacha cracker, com vários sabores possíveis. A Vieira seguiu o conselho e assim nasceram as Picks. “O grande contributo da Sonae MC para esta agenda é o conhecimento do consumidor, sabemos quais são as tendências da alimentação e conseguimos guiar o desenvolvimento dos produtos”. A dona do Continente acabou por ser o maestro de uma orquestra com quase 50 membros. E nem foi a empresa desta agenda que recebeu mais dinheiro do PRR. Empresas que tiveram de investir em novas linhas de produção, como a AgroAguiar, a Lusiaves, a Super Bock ou a Sumol+Compal ficaram com a maior fatia. O investimento da Viiafood foi de 110 milhões de euros, com 50% financiado pelos fundos europeus e o restante pelas empresas. A dona do Continente investiu 3,5% do total. Os produtos lançados no âmbito da Viiafood “já representam mais de 150 milhões de euros em vendas e 30 milhões de euros em exportações“, revela Marlos Silva. Também a AM2R já entra no clube das exportações das agendas do PRR. O consórcio liderado pela Polisport teve nas duas rodas o guia para um final com 50 produtos e serviços concluídos, “dos quais 60% já estão no mercado”, conta Pedro Sá, diretor da empresa. Da agenda nasceu a Maria, uma scooter elétrica, novos porta-bagagens, cadeiras para bebés e toda uma panóplia de acessórios e componentes para bicicletas. A Polisport já fazia cadeirinhas para “transportar o tesouro dos pais”, como diz Pedro Sá, mas com a agenda subiu de nível, por exemplo, com cadeiras que acompanham o crescimento da criança. Os novos materiais e procedimentos industriais adotados permitiram à Polisport “conquistar cinco novos clientes internacionais”. A entrada rápida no mercado “acaba por ser um espelho de que havia um alinhamento claro entre o que o mercado precisava e as soluções que se pretendia desenvolver”, conclui Pedro Sá. O responsável da Polisport espera que os efeitos da agenda continuem a dar frutos, “não só em vendas como na conquista de novos clientes e mercados”. Outra das vitórias do consórcio foram as 11 patentes criadas. No caso da Polisport, foram desenvolvidas “alternativas ao metal”. O tradicional alumínio foi substituído por “termoplásticos reforçados, produtos plásticos de alto valor acrescentado”. Uma das patentes da empresa é a tecnologia HRP (peças ocas reforçadas). A diferença de material permite “peças mais leves e com maior possibilidade de reciclagem” e tem a particularidade de dispensar as etapas da soldadura e pintura. Dependendo da escala e do produto, a alteração permite tirar “entre 4 e 6 semanas” aos tempos de produção. O investimento do PRR nesta agenda também se materializa fora das fábricas. Por exemplo, no BIKiNNOv, um centro focado na inovação das duas rodas, que vai ser reforçado com um túnel de vento para testar, por exemplo, a aerodinâmica de produtos. Um equipamento que “não existe nem em Portugal nem na Península Ibérica”. O centro de inovação “é um dos resultados visíveis da agenda, que complementa muito bem todo o conhecimento que foi gerado a nível de produtos”, conclui Pedro Sá. E, ao mesmo tempo, permite à indústria portuguesa dar mais um passo em frente. “Já havia alguns centros de inovação especializados em Portugal, como o dos polímeros, mas não havia nenhum focado no setor das duas rodas.” A caixa de peixe que pode servir para chips e a garrafa mais leve do mundo “Às vezes digo a brincar: lá vamos nós vender caixinhas ”, diz Henrique Carvalho, o presidente executivo da Associação Empresarial da Região de Leiria (NERLEI). Tem nas mãos uma caixa colorida, com tampa - a chamada marmita. “Foi por aí que começou a Embalagem do Futuro.” É mesmo este o nome da agenda que juntou 79 entidades para, com um investimento de 105 milhões de euros, repensar as várias formas e vidas que uma embalagem pode ter, desde o transporte de fruta e peixe fresco às refeições prontas e até às encomendas online. Tudo sob o mote de explorar soluções mais sustentáveis, digitais e inclusivas. “Queríamos ter um projeto ligado à matriz industrial da região”, explica. “Mostrar o que a região é: que tem pequenas e médias empresas, muita inovação e capacidade industrial.” Nasceu, assim, a perspetiva de ter vários setores de atividade à volta do conceito da embalagem nas suas múltiplas perspetivas.” E, ao mesmo tempo, explorando diferentes materiais. “O vidro é muito importante para a região, existem empresas de cartão também muito significativas.” Faltava um terceiro material: a madeira, uma referência “ao Pinhal de Leiria”, diz. Se a primeira ideia passava por apoiar as empresas da região a recuperarem do choque da pandemia de Covid-19, o impacto geográfico da agenda acabou por ser maior, estendendo-se de Vila Nova de Cerveira até à margem sul do rio Tejo. A agenda liderada pela empresa de moldes e injeção de plásticos Vangest conseguiu desenvolver 19 projetos. A esmagadora maioria passou pelo desenvolvimento de embalagens sustentáveis ou paletes mais resistentes. Tudo em colaboração com o mundo académico e centros de investigação para tornar possível o uso de diferentes materiais. As metas traçadas pela agenda “estão concluídas”, garante Gonçalo Vieira, que integrou a equipa de gestão da agenda. “O objetivo era chegar ao protótipo e, em alguns casos, foi-se além disso.” É o caso de uma embalagem de cartão que permite contar a viagem de um quilo de morangos, que já está à venda no Pingo Doce. À primeira vista é igual às outras, não fosse a inclusão de um código QR. “É o conceito de farm2fork [da quinta ao garfo]”, explica Gonçalo Vieira. “Ao ler o código com o telemóvel é possível saber a história do produto, desde a altura em que foi semeado, em que local, quando foi colhido, transportado e quando chegou às prateleiras”, mostra no smartphone. É a lógica de rastreabilidade de um produto e, ao mesmo tempo, uma “embalagem que se quer cada vez mais interativa com o consumidor”. Em alguns casos, os produtos desenvolvidos pelo consórcio nem vão estar à vista dos consumidores. É o caso de uma caixa para transporte de peixe - com uma cor característica graças à inclusão de redes de pesca recicladas - na qual estão incluídas pequenas tampas que funcionam como termoacumuladores para assegurar o controlo da temperatura do peixe, o que as torna mais ecológicas. E, tal como em muitos exemplos deste consórcio, também há rastreabilidade para saber onde estão os alimentos e em que condições. A lógica é que a caixa funcione em conjunto com outra ideia também surgida na agenda, a etiqueta de papel PetriTag. “O comprador, ao receber o peixe, consegue ver pela cor da etiqueta se pode ir para a prateleira ou não”, ou seja, a cor muda consoante o estado em que se encontra o peixe pelo indicadores que estão a ser medidos, explica Gonçalo Vieira. Esta caixa já foi exposta em eventos internacionais, de Utrecht, nos Países Baixos, até à Expo Osaka, no Japão. “Foi numa dessas ocasiões que surgiu um contacto “muito interessante e inesperado” para o uso das caixas de transporte. “Uma empresa produtora de chips quer a caixa para transportar estes componentes”, explica Henrique Carvalho. “Precisam de manter uma certa temperatura e ter rastreabilidade” - duas das funcionalidades que a caixa assegura. Também a “garrafa mais leve do mundo”, desenvolvida pelo consórcio, já foi exposta na Ásia. Uma garrafa de vinho vazia “pesa normalmente 340 gramas, esta tem 260 gramas”. O objeto, que já venceu um prémio de design Red Dot, foi desenvolvida pela Vidrala, que “investiu cerca de 15 milhões de euros numa fábrica de vidro reciclado”. Com 80% de vidro reciclado, é preciso menos matéria-prima e menos temperatura para fazer uma unidade, reduzindo a pegada de carbono. “Ainda estão a definir como é que vão aproveitar e incluir a garrafa na estratégia da empresa”, diz Henrique Carvalho. Os contratos das empresas com o IAPMEI já definiam quais os produtos sobre os quais havia mais segurança para dizer que iam chegar ao mercado. E sobre os quais pendiam mais dúvidas. Na Navigator, foi o caso dos biocompósitos. Que mais não são do que objetos do dia a dia, como cabides, talheres, canetas ou caixas de fruta, que em vez de 100% plástico têm 40% de celulose na composição. Só ainda não chegaram ao mercado por um motivo: o preço. “Um escandinavo que tem um nível de vida superior ao de um português não se importa de pagar um pouco mais para comprar um produto que substitui parcialmente o plástico”. Mas cá, o consumidor médio não está disponível a pagar mais por um cabide só porque tem menos plástico, assumem. Para que seja comercialmente viável será preciso reduzir mais o plástico ou encontrar processos produtivos que tornem o produto mais competitivo. Ou ainda “ter alguma legislação que faça barreira a produtos que vêm da Ásia a metade do preço”, sugere António Sequeira. Os entraves são sempre os mesmos, qualquer que seja o produto. Ainda assim, a Navigator já arranjou forma de rentabilizar um dos produtos da agenda. Num antigo armazém transformado em fábrica a cheirar a novo, as tigelas e pratos de papel de celulose moldada são empilhados aos milhares. Das máquinas vindas de Taiwan podem sair, por ano, 100 milhões de unidades. “É o melhor produto do mercado, de longe”, defende António Estudante de Oliveira. Mas ainda está a ser afinado. No controlo de qualidade, a máquina que identifica possíveis defeitos aos produtos só consegue analisar a parte de baixo dos pratos e das tigelas. Por isso, a Navigator vai ter de investir numa que também consiga identificar defeitos na parte de cima. São as “dores de crescimento” típicas de um novo projeto. Na mesma leva, foram produzidos copos de café, cápsulas e embalagens para fruta, mas que ainda não estão a ser vendidas. O obstáculo é sempre o mesmo: o preço. “Vendemos, mas é em condições de desigualdade com fornecedores asiáticos. Mas vamos continuar”, assume António Sequeira. No Co-Lab do Continente, a embalagem tapada por um rótulo genérico deixa poucas dúvidas. O frasco com um molho verde dentro ainda não está pronto para consumo. Ou, pelo menos, para venda. O pesto com microalgas, também conhecido como PPS 14, é um dos produtos preferidos de Marlos Silva dentro da agenda Viiafood. O objetivo foi criar um produto tradicional e dar-lhe um toque saudável e sustentável, que foi a grande meta da agenda liderada pela Sonae MC. A ideia do pesto nasceu no Co-Lab da MC, a receita na academia e o resultado final na Mendes Gonçalves, a dona da Paladin, que também faz parte da agenda dos insetos. “Já é a segunda tentativa que fazemos, o primeiro ficou muito bom mas eram necessárias algumas melhorias. Este está fantástico, não deve nada aos melhores pestos, mas vamos ver”. Ainda não é certo que chegue ao mercado. O mesmo acontece com as maioneses “de nova geração”, também enriquecidas com microalgas e com extrato de levedura como intensificador natural de sabor. “Uma indulgência saudável”, chama-lhes Marlos Silva. “Há produtos que foram testados” e que ficaram pelo caminho “por vários motivos, fosse no desenvolvimento, na estabilização, muitas das vezes até numa fase pré-industrial, porque o escalar da produção era mais difícil, ou mesmo porque o consumidor não aceitou”, resume o responsável da MC. No laboratório da Amadora, todos os produtos são testados por grupos de consumidores. Chegam às escuras sobre o que vão provar e vão classificando as amostras. “Depois há uma componente científica que avalia os feedbacks e vai pensando sobre a cor, a textura, a doçura” e todos os parâmetros possíveis do produto, até se chegar à fórmula perfeita. Nestes grupos percebe-se, inclusive, o que está na moda. As tendências do momento ditaram que a agenda fizesse uma aposta forte em produtos em que a estrela é a proteína. As saladas da Vitacress com quinoa, frango e amendoim, com um total de 27 gramas de proteína, nasceram do PRR. O casamento entre as várias entidades privadas e públicas é, para Marlos Silva, a grande vitória das agendas mobilizadoras. O Viiafood, resume, “inaugurou linhas de pensamento, inovação e desenvolvimento” que não se vão esgotar com o fim do projeto. E que seriam impossíveis sem o PRR, apesar de a Sonae ser uma grande empresa. “Se, por um lado, nós temos meios para desenvolver produtos, e fazemo-lo constantemente com os nossos fornecedores, não se pode dizer o mesmo das PME e da academia. O grande contributo do PRR é permitir que estas entidades possam juntar-se e desenvolver algo que já está a gerar impacto”. E que vai continuar mesmo quando já não for preciso dar satisfações a Bruxelas. “Não posso dizer que vamos cooperar com todos, mas temos abertura para o fazer”. Uma camisa para todas as estações e um gigante com 31 metros É uma das tendências do verão mas pode ser usado em todas as estações. Num país em que o têxtil é um dos motores da indústria, a agenda Projeto Lusitano decidiu agarrar-se ao linho, uma fibra que tem tanto de complexo como de pouco sustentável. E que não existe em Portugal. Para trazer a fiação de volta juntaram-se 17 parceiros e investiu-se 111,5 milhões de euros. O consórcio tem várias iniciativas, mas o linho acabou por ser a cara da agenda, admite César Araújo, CEO da Calvelex e presidente da comissão executiva da agenda. “O linho é hoje uma fibra natural que está muito na moda”, realça o empresário. Se antes era vista apenas como uma opção mais sazonal, uma fibra “para camisas ou para usar no verão”, hoje o cenário é outro, assegura. “Casa bem com qualquer outra fibra - e dá para todas as estações.” Mas a viagem do linho não é simples nem sustentável. Um percurso que a agenda se propôs a alterar. A primeira fase, a agrícola, passa sobretudo por França, Países Baixos e Bélgica, vistos como os principais produtores desta fibra na Europa. Para assegurar a fase da fiação, a fibra natural “é depois deslocada para países terceiros, para fora da Europa, fazem o fio e enviam-no novamente para a Europa.” Um percurso que acarreta mais intermediários e viagens, contribuindo para o aumento da pegada de carbono desta fibra. “Temos em Portugal um dos melhores ecossistemas de têxtil e vestuário, que vai desde o fio até ao produto acabado, mas faltavam-nos os materiais naturais”, explica o também presidente da Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção (ANIVEC). “Queríamos fazer uma agenda robusta, para introduzir as fibras naturais e recicladas e fechar o ciclo de um produto que não existia nem na Europa nem em Portugal. Hoje Portugal pode ser líder nesses materiais”, defende César Araújo. “Temos assim um fio europeu, conseguimos desde o produtor até ao produto final.” César Araújo considera que o PRR possibilitou aproximar de pólos rivais como os EUA e a China uma “Europa que se desindustrializou”. Entre os parceiros da agenda estão nomes como a Calvelex, a Riopele, a Polopiqué, a Paulo de Oliveira ou a Twintex, que se aliaram a universidades e ao Fibrenamics, o instituto de inovação em materiais fibrosos e compósitos. É uma “agenda industrial, que vai permitir negócios, exportações e criação de emprego qualificado”, diz César Araújo. Um dos frutos da agenda é uma fábrica da Nau Verde de fiação a húmido do linho, uma técnica de produção. Instalada em Santo Tirso, foi reaproveitado um edifício industrial com cerca de 15 mil metros quadrados de área coberta. “É uma fábrica grande, que vai empregar 200 e muitas pessoas em três turnos diários”, explica o empresário. “A fábrica de linho já está a começar a laborar, a fiação está a começar agora”, explica. “Ainda não temos tudo em escala acelerada”, refere, mas a expectativa é que, em 2027, a fábrica “já esteja a 100%”, com capacidade para “produzir nove toneladas de linho por dia”. César Araújo descreve que está agora a decorrer “a fase de formação e qualificação de recursos humanos”. O resultado é um linho de “grande valor acrescentado”, explica, mas que “ainda não está a ser vendido a clientes”. Mas, embora o linho seja o destaque, também são exploradas outras fibras naturais, como o cânhamo e a urtiga. César Araújo avança que, depois da fiação, Portugal poderá pensar noutras etapas do ciclo de vida do linho. “Tendo a indústria da fiação no país, podemos ir também à parte agrícola, mas não nesta agenda.” Por agora, refere que a ideia está ainda “numa fase embrionária”, enquanto acrescenta que “Portugal tem condições climatéricas” para a produção desta fibra vegetal com origem numa planta que prefere climas húmidos e frescos. Noutros casos, a oportunidade das agendas mobilizadoras foi vista como uma ocasião para “fortalecer o que já é uma posição de liderança”, explica Pedro Sá, da Polisport. Portugal já está no pelotão da frente da produção europeia de bicicletas, mas o objetivo é vestir a camisola amarela. A agenda, com um valor de 212 milhões de euros, permitiu ao setor responder a alterações nos interesses dos consumidores, com “novas soluções para a mobilidade”, desde bicicletas elétricas até novos acessórios. E, ao mesmo tempo, adotar novos processos e materiais para assegurar a resiliência da linha de produção. Durante a pandemia, “quando o mercado da Ásia fechou, houve uma falta de componentes” no setor, lembra o responsável. “Foi o alerta de que é necessário ter mais produção na Europa, para se ser mais independente de outras regiões.” Os investimentos do PRR estão bem visíveis no chão de fábrica da Polisport: “a nível de robôs, de equipamento, de know-how de moldes”. Os equipamentos adquiridos através da “bazuca” estão devidamente identificados, tanto com o logótipo do PRR como com o nome da agenda AM2R. Como uma linha de montagem onde um braço robótico agiliza o processo de impregnação de películas em componentes para bicicletas e motas. É uma novidade na decoração das peças. “Através de um processo de injeção, a película fica impregnada no molde”, substituindo tanto o processo de pintura como a ideia de autocolantes que saem com o tempo. O processo torna possível correspondências de cores exatas entre componentes diferentes, maior durabilidade e até a possibilidade de ter na mesma peça materiais e acabamentos diferentes. Noutro espaço da fábrica há mais uma indicação de investimento do PRR. “É a ideia do braço robótico que encontra medicamentos na farmácia, mas numa escala muito maior”, vai contando Pedro Sá enquanto se aproxima de um balcão onde uma operadora pesa pequenos parafusos numa balança. Atrás dela está o Kardex, um gigante de 31 metros de altura. “É um sistema vertical de armazenamento automático”, explica o responsável da empresa, que permite poupar muito espaço de armazém. Escondidas atrás de uma parede branca estão muitas prateleiras com caixas com parafusos, tampas e outros materiais necessários para a linha de montagem. Cá em baixo, num computador, o operador escolhe os materiais necessários. A máquina identifica onde estão e faz descer a prateleira adequada. É quase um “abre-te, sésamo”, quando se levanta a porta e um laser identifica a caixa certa. Além da poupança de espaço no armazém, poupa-se também tempo, assegura o responsável da Polisport. E agora, o que saiu das agendas terá futuro? “Voltem daqui a um ano ou dois” Para os responsáveis da Navigator, a agenda “funcionou bem porque a empresa teve dinheiro para investir em grande parte destes produtos”. O que não acontece em empresas mais pequenas, apesar de o IAPMEI colocar à cabeça 23% do incentivo. A fábrica de moscas de Santarém é disso prova. “Sem o PRR e sem a agenda era impossível a EntoGreen ter aguentado estes três anos e ter feito este desenvolvimento todo. Não existiríamos. Se foram cumpridos todos os pressupostos definidos inicialmente? Não foram. Mas não há um culpado no meio deste processo, porque isto é um novo setor, tem muita tentativa e erro. E nós entendemos que a agenda tem de estar balizada por um espaço temporal. Mas é um processo que acaba por ser justo para uns e injusto para outros”. Também a faturação da EntoGreen ainda não está dentro do que era esperado. “É um caminho”, assumem os responsáveis. O produto está feito, e não serão desenvolvidos outros. “O nosso produto é que vai dar origem ao desenvolvimento de muitos outros”, explica André Durão. Hoje, a EntoGreen consegue fabricar 98 toneladas de proteína para animais por mês e 210 toneladas de fertilizante e está entre as cinco principais empresas europeias do setor. Nas 16 incubadoras, onde é reproduzido o habitat tropical da mosca soldado-negro, o primeiro cheiro que se sente é o da azeitona. O segundo, que se vai impregnar na roupa por muitas horas, é “o pior que já sentiram”, avisam os responsáveis. Depois de desidratadas, as larvas são transformadas na EntoGreen em proteína em pó, que é vendida à indústria das rações e serve como substituto, por exemplo, da soja. “A vantagem é ser a única proteína produzida que encerra um ciclo agrícola”. E não está dependente de fatores de produção como a água ou a energia. “As moscas não dormem, não têm fins de semana. A nossa fábrica trabalha 24 horas por dia”. Mas também há riscos. As amplitudes térmicas são controladas ao milímetro e qualquer espirro ou toque pode pôr a sobrevivência das moscas em causa. “É um ativo biológico, é muito complicado. Se eu perder as minhas moscas fecho a porta no próprio dia”, salienta André Durão. Para a EntoGreen, a agenda não serviu só para financiar o equipamento da fábrica. O entrosamento com diferentes empresas e com a academia serviu para que outros pudessem, por exemplo, estudar vários usos possíveis para os produtos feitos à base das larvas da mosca. “Foi muito bem feito, nunca tinha funcionado tão bem”, elogia Nuno Vinhais. “Nós não somos agricultores, precisamos de entidades que estudem os nossos fertilizantes em diversas culturas. Precisamos de alguém que nos diga: aplicámos os fertilizantes da EntoGreen nesta cultura e tivemos esta evidência de melhoria no solo, na planta, etc ”. Depois, a associação de agricultores da região faz o teste com “três ou quatro” produtores e, com os resultados na mão, o produto tem condições para ser validado e entrar no mercado. Houve ainda a participação da academia, em que alunos da Universidade Nova de Lisboa experimentaram retirar a quitina do esqueleto da mosca para transformar em quitosano para tingir peles de automóveis; ou para embeber as rolhas das garrafas de vinho para que não haja transmissão de oxigênio e o vinho não oxide. “Estas entidades estão habituadas a fazer estudos que nunca acabam. Mas as empresas precisam desses estudos. Tivemos de os obrigar a deixar de ser tão académicos”. No setor têxtil, na agenda Projeto Lusitano, o trabalho conjunto é visto como uma das aprendizagens mais relevantes do PRR. “Nos próximos projetos vamos ter um princípio de união”, garante César Araújo, presidente da comissão executiva da agenda. “Não havia o hábito de trabalhar com as universidades, com os centros tecnológicos. Trabalhava-se pontualmente, mas nunca numa vertente de médio e longo prazo, com um projeto bem definido para criar competitividade e músculo para competir globalmente. Hoje existe essa cultura.” Também a Embalagem do Futuro faz um balanço positivo da ligação à academia. Um dos frutos do contacto com este mundo é um novo “revestimento para cartão que permite o contacto alimentar, à base de cera de abelha e quitosano”, um polímero natural. Um bio-revestimento “que fará com que o cartão seja inteiramente reciclável”, mesmo após o contacto alimentar. Em alguns casos, as colaborações já dão passos fora da agenda. Por exemplo, a gordura extraída da larva da soldado-negro da EntoGreen, que “tem milhares de utilizações e é comparada com o óleo de coco”, está a ser usada para produzir, em laboratório e ainda em fase de testes, produtos como cremes, champôs, sabonetes, biodiesel e até na indústria farmacêutica. Além da EntoGreen, que usa a mosca soldado-negro, fazem ainda parte da InsectEra a Thunderfoods, que usa o tenébrio molitor (“um pequeno escaravelho”) para desenvolver produtos para alimentação humana, como bolachas, e a The Cricket Farming, uma empresa de Leiria que também cria produtos para humanos à base de um grilo. A ideia de partida da agenda mobilizadora passava por construir uma fábrica para cada uma das empresas. “Não foi possível concretizar, porque as questões burocráticas são gigantescas e os timings não o permitiam”, admite Nuno Vinhais, gestor do projeto. Os consórcios que falharam ? Mostrar ? Esconder No total, houve 144 candidaturas às agendas mobilizadoras, das quais 64 foram selecionadas para uma segunda fase. No final, foram escolhidas 53. Mas nem todas chegaram a bom porto. Na área da energia, sobretudo no hidrogénio verde e biocombustíveis, os prazos revelaram-se impossíveis e os desafios incomportáveis. A Galp não chegou a assinar o contrato da agenda que previa uma refinaria de lítio para baterias e, já este ano, a Bondalti também desistiu do PRR para produzir hidrogénio verde em Estarreja. As empresas querem manter os projetos, mas admitiram que não seria possível nos prazos previstos. Assim, de 53 agendas, chegaram ao final 51. Ambas as empresas “ainda estão na fase de I&D”, e para elas o PRR já não será solução, mas os projetos ainda podem ir para a frente. Porque apesar de não terem conseguido fazer as fábricas, têm “as evidências de que o produto funciona”. Ainda que o conceito da agenda, sublinham, não seja a substituição da proteína da carne ou do peixe por insetos. “É um complemento”. Que tem ainda o objetivo de “dar cabo do lixo” agrícola. Pão, bolachas e massas à base de farinha de insetos, molhos e manteigas à base de óleo de insetos, barras proteicas e até “bife de inseto 3D com marmoreado personalizável” são alguns dos produtos que a agenda tinha como meta. “A grande maioria” do que foi desenvolvido foi apresentado na Feira Nacional de Agricultura do ano passado. Empresas como a Auchan e a Casa Mendes Gonçalves, dona da Paladin, são algumas das parceiras da agenda que estão à espera que as fábricas avancem para poderem vender os produtos. É nesta encruzilhada que estão muitos dos projetos financiados pelo PRR. Depois da bazuca, o que fica? “Vai depender muito da regulamentação e da capacidade de cada entidade privada de angariar ou de ter capitais próprios que permitam desenvolver e/ou concorrer a novas linhas de apoio”, destaca André Durão. “Deveria quase obrigatoriamente haver uma continuidade para quem conseguiu desenvolver e colocar o produto no mercado, ou está nessa iminência”, aponta. “O desgaste de um acionista e o volume financeiro que é colocado neste tipo de coisas, de vez em quando fazem com que a pessoa desista.” É também aqui que mora, para os responsáveis da Navigator, uma das grandes dúvidas do PRR. Para que estes projetos possam vir a ter continuidade, deve continuar a existir algum tipo de apoio público, defendem. “Acho que precisaremos de grupos de trabalho que garantam alguma continuidade aos projetos para não deixar morrer o que, em alguns casos, está como demonstrável. Mas as empresas vão precisar de algum incentivo, caso contrário muitos dos projetos podem vir a morrer”, considera António Sequeira. “Não é só dar dinheiro”, continua. “É tornar os processos e o licenciamento mais eficientes, desburocratizar muita coisa”. Outro muro difícil de transpôr para todas as agendas foi a “guilhotina” dos prazos. “Nas startups, o investidor vai dando o que pode e, por sua conta em risco, vai produzindo até chegar ao mercado. Neste caso, e apesar da reprogramação, tivemos de acabar tudo até 30 de junho, em alguns casos foi muito difícil. Grande parte das soluções industriais que temos aqui raramente demoram menos de 24 meses a implementar”, diz António Sequeira. Para o engenheiro da Navigator, uma limitação tão grande de tempo acaba por comprometer a qualidade. “É bom ter uma data limite. Mas tem de haver exceções”. Na InsectEra, como as fábricas não foram para a frente, foi necessário recalcular o valor dos apoios. O investimento previsto inicial da EntoGreen era de quase 12 milhões de euros, que passaram para seis. A agenda tinha um investimento previsto de 42 milhões de euros que acabou por ficar pelos 34 milhões. Também a criação de emprego ficou aquém do previsto. Em 2024 foi submetido um pedido de alteração ao projeto, em que “uns parceiros aumentaram umas coisas, outros reduziram outras”. A aprovação só chegou em meados de 2025. “Foi quase no fim, muitos disseram já não adianta , porque já não havia tempo. Para Nuno Vinhais, as agendas não deveriam ter sido encapsuladas no prazo de três anos, nem com prazos iguais para todos. “Foi pouco tempo e foi, se calhar, demasiado para muitas entidades. Devia ter sido feito de uma forma gradual. Por exemplo, a ideia da EntoGreen é esta. Passado um ano e meio, se conseguiram, muito bem, avança mais um passo. A Thunderfoods não conseguiu? Arruma-se. Não avança no consórcio. E em vez de serem três anos, serem seis ou sete, mas ir eliminando algumas coisas e reforçando outras. E colocar esforços, até financeiros, naquelas que funcionam”. “Achamos que há empresas [na agenda] que estão de facto a dar passos que podem levá-las a estar no mercado com estas soluções. Mas não é no imediato”, admite Henrique Carvalho, da Embalagem do Futuro. Embora tenha havido uma “preocupação desde o início de concluir projetos com um pendor para o mercado, de ter soluções que possam ser comercializadas”, há mais fatores em jogo. “Agora depende da estratégia, da abordagem aos mercados. E, às vezes, não só da própria empresa, mas dos seus clientes também.” “Não há dúvida que o mercado internacional está à procura de soluções de embalagem inovadoras”, destaca Henrique Carvalho. “Mas aos nossos produtores, aos mais pequenos e médios, falta-lhes um bocadinho mais de espevitar comercialmente e de ir mais à luta”, reconhece. O futuro destas agendas do PRR “depende muito do foco que as empresas que estiveram nestes projetos têm a partir deste momento - e se estes produtos são vistos como apostas estratégicas a nível interno ou mais como alavancas nos projetos, que depois podem não entrar no pipeline produtivo”. Os trabalhos da Embalagem do Futuro podem ter chegado ao fim, mas Henrique Carvalho considera que alguns dos produtos “deviam ter ainda mais uma alavanca ou duas, em projetos consequentes”. “Temos falado com as pessoas e há a intenção de criar, a partir daqui, não consórcios desta dimensão, mas mais pequenos”, explica. E deixa uma sugestão para projetos de apoio à inovação que ainda possam surgir. “Este tipo de projetos tem obrigatoriamente de ter uma componente de apoio à internacionalização. Seja qual for o modelo, no fim tem de haver uma justificação de faturas a clientes, de mercado. Não chega fazer inovações em coisas muito interessantes - temos que passar para o mercado, traduzir [a inovação] em valor”, vinca. “Os protótipos são interessantes, mas são protótipos.” Na agenda das duas rodas, liderada pela Polisport, concluir os projetos “não era o ponto de chegada, mas sim um ponto de uma nova partida.” O diretor de inovação e desenvolvimento de negócio da empresa portuguesa refere que “muitas das entidades provavelmente não avançariam para os investimentos produtivos se não houvesse o financiamento do PRR”. Mas não por desconhecimento do mercado, garante. “Em alguns casos “já havia uma ideia muito clara do que é que a empresa precisava para evoluir, conquistar um novo mercado ou um cliente. O financiamento veio possibilitar que isso acontecesse”, sublinha Pedro Sá. Agora, já se pensa em trabalhos em grupos mais pequenos. “Não só há entidades que se conheceram e aproximaram dentro do consórcio, como já estamos a falar em projetos pós-agenda, noutros âmbitos”, diz Pedro Sá. Para saber o que fica do PRR, será preciso voltar “daqui a um ano ou dois”, acredita Nuno Vinhais. “E se calhar, em relação a algumas, vai-se dizer: gastou-se dois milhões com aquela empresa durante aquele tempo e para quê? Se tivesse sido feito por métricas tinha-se parado nos 500 mil”. Olhando para o futuro, Henrique Carvalho não tem dúvidas de que a “cola” que uniu os parceiros ao longo do projeto tem força para manter as partes unidas. Até porque é preciso “incentivar que estas soluções passem de facto para o mercado”. “Os investimentos foram muito grandes para que se fique por aqui”. [Additional Text]: Foram 51 as agendas mobilizadoras que receberam fundos do PRR. Agenda mobilizadora PRR Projeto Lusitano Projeto Lusitano, agenda mobilizadora PRR Ana Sanlez, Cátia Rocha