MANUELA PIMENTEL: “FUI APRENDER A SER ARTISTA (PARA DEPOIS DESAPRENDER!)”
2026-08-03 12:37:04

A nova exposição de Manuela Pimentel na Underdogs traz cartazes velhos que resgata da rua e faz arte nobre do que é pobre, faz belo o que é feio, e convida-nos a desacelerar e a contemplar as cidades. Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões. Essa junção dos artistas, essa comunicação e essa vivência, eu sempre achei que era muito enriquecedora. Era dura, mas era muito enriquecedora. Claro. E hoje há um individualismo muito grande em termos artísticos. E quando as artes se unem, a magia acontece. Acontece. Exato. É verdade. E acontece de uma forma tão enriquecedora e tão forte que há uma união de todas as artes. Manuela Pimentel é uma artista que desenvolve o seu trabalho a partir de recolha de cartazes de rua, que depois separa, organiza e transforma, pintando e escrevendo sobre eles, mas deixando algumas partes visíveis, recriando ou simulando, desta forma, azulejos de várias épocas. E no processo, usa, transforma, brinca com as palavras, engana o olhar, dá novos significados. Transforma assim lixo no luxo, materiais pobres abandonados em obras de arte nobres cobiçadas. A criativa portuense, que celebra as bodas de prata da sua primeira exposição, tem mostrado a sua obra em Washington, em México, no Macau, no Brasil, na Sardenha, em muitos sítios. Há dois anos, o Museu Nacional do Azulejo dedicou-lhe uma exposição individual e está neste momento, até 15 de agosto, na Galeria Underdogs, em Marvila, com a exposição "Eis-me, sou uma poeta, irei ao entardecer" para nos surpreender a todos. Vamos conhecer melhor esta artista que é filha da madrugada e tem nela todas as revoluções. Olá, Manuela, é um grande prazer estar a falar contigo. Olá, João Paulo. Bem-vinda à Rádio Observador. Obrigada, o prazer é todo meu. É ótimo estar aqui a falar com uma lésera. Tu és lésera. Moras, vives e trabalhas em Leça ou em Matosinhos, neste momento? Dizem que é o lugar onde há mais artistas por metro quadrado. Não sabia. Mais restautantes por metro quadrado, sim. Exato. De poetas a músicos. Então, músicos há imensos. Os Expresso Sol são de lá. Boa. Há tantos, há imensos. Rui Reinido tem a casa por trás da minha. Exatamente. Que giro. Somos amigos. Aliás, tinhas uma poeta, uma poetisa, que também era tua vizinha. Sim, a Ana Luísa Amaral. Ana Luísa Amaral, claro, tu fizeste coisas tão inspiradas com ela. Que giro. Tu és filha de transmontanos. Então aqui falamos de Santolião, que é uma terra lindíssima, para Vimoso, não é? É, exatamente. Terra de quem? Da mãe? É a terra da minha mãe. Eu costumo dizer que eu tinha que ser artista porque eu sou filha da terra quente e da terra fria, porque os meus pais, um é de Santolião, que é a minha mãe, é da terra quente, e o meu pai é de Montesinho, que é uma terra fria. Que giro. Ainda mais. E depois eu vim nascer a Leça da Palmeira, portanto, eu sou uma mistura de montanha e mar. Exatamente, tão bonito. Isso incorpora a tua obra toda. Exatamente. Portanto, eu tenho aqui uma criação já de sangue que me ajuda a fazer este caminho. Já agora, eu acho que nunca falámos nesta entrevista, já foram mais de 1500, acho que nunca falámos de Santolião. Já agora ficam a saber que o nome vem de São Julião, que é o padroeiro. Fica ali uma terra entre o rio. Tu dizes Sabor ou Sabor? Eu digo Sabor. Sabor. E Maçãs? Rio Maçãs, também? Exato, e o Rio Maçãs. Muito bem, é a terra de oliveiras. Tem uma variedade única de oliveiras e azeite. É a rota do azeite, exatamente. Muito bem. Tem a Festa do Entrudo, que é famosa também, como em todo o Trás-os-Montes. E vou pela primeira vez, aproveito para dizer, participar numa Bienal de Trás-os-Montes. Tive esse convite na semana passada. Boa, parabéns. Que vai acontecer em outubro. E é exatamente em Vimioso, que eu achei supercurioso, porque há vários sítios. A tua terra podia ser só com seis. Exatamente, há vários sítios e é por todo o lado. Podia ser Vila Flor, podia ser em outro sítio qualquer. Podia ser em qualquer lugar e foi ali. Portanto, eu estava no universo. Aliás, há uma carta de D. Dinis, que visitou Santolião em 9 de dezembro de 1289. Portanto, não é segredo que já os reis passeavam pra terra da tua mãe. Este fascínio das artes vem de onde, Manuela? E eu adoro esta coisa quando tu lembras da tua mãe, que faz tudo. É. Que tem o jeito de mãos. É muito bonito isso. Eu acho que é muito giro, porque, na verdade, eu não sei de onde é que vem isso, porque eu não tinha referência nenhuma artística na família. Na família? Não tinha nenhum pintor, não tinha nenhum artista, nem nenhum arquiteto que de alguma forma me indicasse esse caminho. Tive sempre muita vontade de trabalhar com as mãos, desde criança, desde pequenina, e sempre tive muito jeito com as mãos. Eras boa a trabalhos manuais e a tirar notas nas aulas? Exatamente. Em artes visuais, tudo que acontecia nas artes, eu tinha jeito. Tinha jeito e tinha vontade, porque acho que muitas vezes nós quando fazemos as coisas sem dificuldade, isso aguça o engenho. Exatamente. É meio caminho andado. E depois aos desenhos animados tu adoravas e dizias: "Eu quero fazer aquilo". Eu acho que eu costumo dizer isso, e eu acho que é verdade, porque havia um programa na RTP2, que não me lembro como é que se chamava, mas falava sobre como se faziam os desenhos animados. Ok. Com aqueles desenhos, era preciso muitos desenhos por minuto para obter movimento. Podia ser do Vasco Ranja, não sei. Talvez fosse do Ranja. Exatamente. Era dedicado à animação da Europa toda e do mundo inteiro. Eu era fascinada por isso, dos desenhos e até da música clássica dos desenhos, que a Disney explorava extremamente isso. Então eu tinha essa vontade de desenhar e de aprender a desenhar, porque eu achava que já pintava. Então eu queria aprender a desenhar. E desenho está em todo lado. Exatamente. Eu achava o desenho tão fascinante. O observar alguém a desenhar é das coisas mais bonitas que existe. Mas isso também vem do teu pai. O teu pai, como tu dizes, era um observador. Tu dizes: "O teu pai ensinou-me a ver com olhos de ver". Sim. É verdade. É um grande observador também o teu pai. Nós estamos sentados num lugar e ele está a ver um passarinho a fazer o seu caminho, a picar no chão, a chamar-me para eu ver também. Tu herdaste essa coisa de observar. Tu vais pelas ruas de Linim e vais a ver as paredes. Como tu dizes: é bom passear pelas cidades e descobrir coisas que as pessoas apressadas não veem, então com os telemóveis muito menos. É verdade. O pormenor dos prédios. E no Porto isso acontece muito. O Porto tem uma série de esculturas. Urbana. Sempre foi muito rico. Até há aquele cemitério que tem todos os escultores conhecidos, desde Soares dos Reis. Prado do Repouso, exatamente. Exatamente. E as fachadas têm imensas esculturas no cimo, nos tetos. Exatamente. E nomeadamente aquelas telhas que fazem o eiral. Os cantos. Que são em azulejos, que é uma coisa que é rara. Aqui em Lisboa vê-se muito pouco, mas no Porto é muito usado. A Fábrica das Devezas tinha muito essa tradição de fazer essas telhas trabalhadas em azulejos azul e branco. Então quando se olha para cima, ainda se encontra isso. Eu fiz uma andorinha, uma reinterpretação de uma andorinha do Bordalo. Do Bordalo, sim. E falei sobre isso, sobre a andorinha do eiral. Então eu fiz uma camuflagem à andorinha como se ela estivesse a valorizar esta beira, ribeira. Além que também brincas muito com os azulejos nas tuas obras, já vamos falar disso. Eu lembro-me sempre, acho que era em Matosinhos, que era a fábrica, porque ali são os do relevo. Em Lisboa não vês muito, mas lá vês os azulejos de relevo nas fachadas. E aquelas fachadas das igrejas lindas com histórias, tudo historiado e pintado. Aquele barroco é incrível. Muito mais que em Lisboa. Muito mais que em Lisboa. O ouro nos altares. Aliás, o ouro sobre azul vem exatamente daí. Exatamente. São Francisco de Santo António, é incrível. É extraordinário. O Porto tem essa riqueza de uma forma muito para fora. Portanto, estas figuras, não só estes padrões de azulejos, mas as figuras que estão nestes painéis de azulejos. As narrativas, as histórias que contam. Viradas para fora. Uma técnica de catequese, é contra a parede. Eram doutrinas da igreja para as pessoas. Muito giro. E influenciou-te este trabalho manual e este gosto por ver os pormenores, influenciou-te muito porque viveste muitas temporadas numa aldeia, na rua, com os amigos. Sim, muito. Hoje em dia não, os miúdos hoje, Manuela, eu lembro-me no recreio da escola, 10 miúdos, combien-se à sorte. Eu tinha muita sorte, porque eu quando chegava à escola dizia sempre que tinha vindo da aldeia e tinha amigos que me diziam assim: "Mas eu quero também ter uma aldeia para ir à aldeia." Se calhar é uma sorte. As férias da Páscoa, as férias do Natal, tudo isso era sempre. Santolhão sempre. Principalmente a festa de agora, de agosto, que é a grande festa dos imigrantes, a festa do santo padroeiro, que é o São Lázaro, lá em Santolhão. Aldeia era a tua casa sem teto, como tu dizes. Era, porque eu gostava mesmo muito da rua. E acho que o chegar à aldeia, o cumprimentar as pessoas, que ainda hoje eu tenho isso no meu prédio, eu cumprimento toda a gente. Eu acho que isso é uma das coisas tão bonitas e que se está a perder tanto, que é o dizer bom dia porque sim. Ou cumprimentar uma pessoa. Isto nas grandes cidades não se faz muito isso. Não. E por acaso o Porto ainda tem bastante disso. Ainda bem, não se perdeu isso. Coisa que Lisboa já está um bocadinho mais descaracterizado, porque é muita gente, é muito turismo, há muita massificação de pessoas que estão sempre a rodar, portanto não há tempo. Não se criam essas relações, é verdade. E eu acho que esta característica de sermos um bocadinho simpáticos uns com os outros é tão bonito. E o Porto tem isso de uma forma muito interessante. Estás no sítio certo, então. O teu coração é desses. E eu consegui manter-me, mesmo sendo artista plástica, num lugar que à partida não seria um lugar direcionado para o mundo das artes, porque eu vivo em Leça da Palmeira, mas eu consigo através de Leça estar no mundo inteiro e isso é extraordinário, porque é um sinal que é possível. Claro. É tão importante. Foste licenciada então em Artes Plásticas, na ESAP, na Escola Superior Artística do Porto. Porque é que não começaste pela pintura? Tu disseste que foste para desenho e não pintura ou escultura, que seriam o natural, talvez. Havia as duas opções, que era pintura ou desenho. Eu tinha que escolher uma. E eu não tinha dúvida nenhuma, eu queria desenho. Porque eu tinha essa característica em mim que achava que já sabia pintar. Não sabia nada, mas achava que já sabia. E para mim o desenho é que era importante. Eu costumo dizer que fui aprender a ser artista, porque como eu não tinha esta herança para trás, da família ou de estrutura que me ajudasse nesta área, eu precisava de estruturar. Então eu costumo dizer que fui aprender para depois desaprender. Como é que a tua família, conservadora, é uma família normal, estou só a dizer, como é que aceitaram esta coisa do "vou para as artes"? O desenho tem ficado um pouquinho. Chegou aluno e tal, mas para eles é sempre um risco, é uma profissão que é um risco. Aceitaram bem? Foi difícil convencê-los? Foi difícil. Ou estão muito tranquilos com isso, hoje? Hoje estão muito tranquilos, sim. A minha mãe disse-me uma coisa muito gira. No início, quando eu saí da faculdade, foi muito complicado, porque ela achava que eu realmente tinha que ter um trabalho que me desse um ordenado. Um trabalho normal. Exatamente, ou dar aulas. Para pagar contas. Para pagar as contas. E eu insistentemente dizia com a minha resiliência: "Não, mas eu se for trabalhar noutra coisa, eu não consigo ser aquilo que eu quero ser. Onde é que eu vou ter tempo? Eu tenho que trabalhar para ter o que mostrar". E ela disse-me uma vez uma coisa que me marcou, que foi: "Então se é isso que tu queres, faz bem feito, acredita e vai." E isso, dito da mãe, tem um valor acrescentado maior, como é óbvio. E dá-nos aquele suporte que precisamos mesmo naqueles momentos mais difíceis, porque há muitos. Ser artista, ser mulher, é extremamente complicado. Não há dúvida nenhuma nisso. E há muitos obstáculos que têm que se ultrapassar e aprender a viver, principalmente sabendo viver sem um ordenado. E é possível, isso é possível. Eu acho que as pessoas introduzem muito na cabeça que têm que viver à imagem do que uma sociedade dita. A norma. A norma, exatamente. Tens toda a razão. Eu lembro-me quando eu e o João nos juntamos e resolvemos comprar um ateliê. O teu companheiro, que é artista de plástico também. E que criamos um projeto que se chama Caixa Arte Contemporânea. Quando fomos ao banco para pedir um empréstimo, foi-nos negado cinco vezes em cinco bancos diferentes, porque não pertencíamos ao comum da sociedade. E tínhamos todas as características para o poder fazer. Só não tínhamos aqueles parâmetros que são necessários. Que esperam sempre, que é aquela mínima segurança mensal. E foi muito interessante. E eu acho que até devia contar isto aqui para dar como exemplo, porque houve uma pessoa que acreditou em nós, nesse banco, que nos apresentou e fez um dossiê com tudo que retirou da internet, de coisas que nós já fizemos, todo o nosso currículo e toda a nossa experiência. Foi buscar o vosso portfólio. E quando fomos à reunião, eles tinham um dossiê gigante. Meu Deus, tão bom. Agora vai ficar com mais um link com esta nossa conversa. Com a estrutura de trabalho que nós tínhamos e que éramos fiáveis. Apostou em vocês, claro. E deu certo. A verdade é que é possível. Eu acho que o acreditar faz meio caminho andado. Portanto, como tu disseste, ainda bem. É bom para espalhar estes exemplos e as pessoas: não desistam dos vossos sonhos. Isso é muito importante. Porque às vezes é só o acreditar e ir. Porque muitas vezes o acreditar, temos sempre alguns obstáculos que nos dizem: "Ah, não, isso não vai dar certo. Ah, não, isso não é possível." Isso vai existir sempre em todas as profissões, não é só na nossa. E eu acho que esta característica de acreditar e não desistir, acho que é fundamental. Esta resiliência, como tu disseste. Exatamente. O teu trabalho, este teu método, assenta muito nesta recolha e reutilização de fragmentos de cartazes urbanos, portanto, desgastados pelo tempo, que formam a superfície principal das tuas intervenções. E depois esta questão também dos azulejos. Aliás, o teu primeiro ateliê era uma antiga fábrica familiar de azulejos, quando entraste lá, por coincidência, mas tu usas muito, vais muito buscar a linguagem visual do azulejaria portuguesa. Muito giro. Encontrei imensos bonecos que eu lembro de ver nos jardins do Palácio Frontário, por exemplo. Lá há imensos, com os pássaros com caras de pessoas. Sim. Fazem metamorfoses. Que é lindo, exatamente. Muito interessante. Eu fiz um painel que se chama "Os Loucos Anos 20", em que eu retrato exatamente isso, que é esta metamorfose de que os vírus nos vão transformar outra vez em animais e a caça vai acontecer ao contrário. No fundo, são zoonoses. São doenças que a gente apanha pelos animais. Tem tudo a ver. Nestes painéis que são tantas vezes retratados cenas de caça e cenas do quotidiano antigo. E então eu brinco com essa ligação de que nós vamos virar animais e os animais vão virar humanos. Muito giro. Tu fazes pensar as coisas, vê as tuas obras e ficam ali questionadas o que é isto. É porque nós tivemos os loucos anos 20 também. Exatamente, agora com a pandemia. Nós tivemos uma estrutura num ano extraordinário, ao contrário. Tudo ao contrário. De repente, vímo-nos todos em casa. Os outros era tudo na rua, e tudo em discotecas, e bares, e cabaré, e músicas. Charleston. E nós, confinados. Os mais evoluídos, os que estamos mais à frente de tudo, com tanta tecnologia, com tanta ciência. Não foi um ano mau para ti, no sentido em que vocês artistas até criaram muito, ias todos os dias, não vias era ninguém no caminho. Metias para o teu ateliê a criar. Saía, no elevador, entrava na garagem, entrava no meu carro e saía à porta do ateliê e exatamente à noite, era a mesma coisa. Sem haver cruzar ninguém na rua? Exatamente. É extraordinário. Todos os dias. Integra-se esta tua coisa. Eu preparei esta conversa porque fiquei muito entusiasmado com o teu trabalho, gostei muito. Como tu diz, e muito bem, apetecia-me tocar naquilo. Vês aqueles biombos e aquelas coisas, e eu: "Mas isto é papel ou é cartão ou é azulejo ou é mesmo tijolo? São paredes, estão aqui." Eu adorei isso, porque de facto dá vontade de mexer naquilo e ver. E depois o próprio brilho também ajuda a criar esta ilusão. Tu és muito trompe-l il. Enganar o olho. Eu gosto de criar essa ilusão. Eu tenho um amigo que diz que eu sou escultora, não sou pintora. É o fotógrafo. Exato, o Renato Roque. E ele disse assim, e é verdade. Eu sinto cada vez mais esta vontade de criar o tridimensional nas peças. E há muitas peças tuas, também aqui na Underdogs, que saem assim da parede. Também este aqui das Confissões, eu adorei aquilo. Esta pele das paredes, como se eu arrancasse a pele das paredes. É muito giro. E isso faz com que crie esta ilusão nas pessoas. As pessoas têm esta vontade de realmente perceber o que aquilo é. E é esse o meu grande objetivo, no fundo, porque quando eu estou a trabalhar estas obras, estas peças, eu tenho essa ligação ao pensamento. Eu quero muito criar este sentido crítico nas pessoas de elas tentarem perceber o que aquilo é. Porque as pessoas esquecem-se muitas vezes de pensar. Pensar no sentido de o dia a dia é tão corrido, tão mexido, o mundo está tão acelerado. E tão solicitado, e tantas coisas que nos invadem os olhos. Que eu convido-as a desacelerar para observar. E quando elas dão conta, elas estão a olhar para coisas que foram quase convidadas, sem querer, a ver, e a olhar, e a reparar. E têm muitas leituras as tuas peças, é muito bonito, porque eu afanai-me de passar e ver aquilo com calma, voltei para trás, tomei notas, escrevi algumas daquelas frases, depois já vais contar isso, a história dos teus amigos que escrevem na videira lá da Marquês. Muito giro, porque aqueles azulejos antigos, aqueles azulejos da entrada das casas, quem vier por bem, não sei o quê. Eu achei aquilo lindo. Às vezes só uma palavra, um Luís Peixoto, mas lá está. É lindo. Esse projeto é muito bonito. Muito giro. E depois, tem outras leituras. Tu dizes: "As pessoas têm a sorte de ter coisas tuas em casa." E dizes: "Às vezes as pessoas têm." E depois, ao fim de não sei quantos meses, não sei quantos anos, ainda vão descobrindo coisas que não tinham visto à primeira." Isso é muito giro, tem outras leituras, não é imediato. Essa é a minha descoberta com os cartazes, porque eu quando os trago pro ateliê, eles vêm- Já são camadas. É um palimpsesto de coisas. Exatamente. Então eles têm aquela permanência, porque na verdade eles viram madeira outra vez. Exatamente. Pega chuva, coisa, calor. E quando eu os molho e os vou descobrindo, eu própria faço essas descobertas. Eu encontro imagens, desenhos, partes de palavras super interessantes e graficamente muito interessantes que eu aproveito. Normalmente eu costumo dizer também que são eles que ditam as regras. Há muitos dos cartazes que quando vêm, já vêm com uma forma que é impossível de mexer. Eu já os colo diretamente, eu chego ao ateliê e já o estruturo aquela forma. Arrevirados e dobradas as pontas. Nem sempre isso acontece. São poucas as vezes até que isso acontece. Eu fui investigar um pouquinho, achei muito apiado este teu estilo, porque há, de facto, este Raymond Hains, este homem. Extraordinário, não conhecia. Estes revolucionários franceses, que nos deixou há 21 anos, não foi há muito tempo, que ficou mundialmente conhecido exatamente por arrancar cartazes sobrepostos das ruas, transformava em obras de arte. Este novo realismo, como isto se chama, a técnica das "affiches lacérés", cartazes rasgados. É muito bonito. Já depois que vem da Segunda Guerra, cartazes publicitários que tinham sido rasgados e desgastados, e ele usa com isto. E é uma coisa engraçada, porque eu pensei muito no ready made. Não, isto não é ready made, isto é um passo à frente, isto é o "inaction painter". Tu crias arte como ele faz, com uma coisa que já não é estar pronta, é o mundo e a vida já passou por eles, e a chuva, e a cola, e as pessoas na rua que arrancaram bocados, que mexeram aquilo, que sujaram aquilo. E depois vocês dão uma nova vida àquilo, aproveitando aquilo. Como tu dizes, eu pego naquilo, nunca corto numa caixa exatos e numa caixa tesouras, eu corto aquilo à mão, eu vi-te com umas réguas a rasgar aquilo à mão. É muito curioso, e depois vais criando aquelas formas. Por isso dá-me também esta forma do rasgar, parece o partido do azulejo. Porque se eu cortar aquilo muito à faca, ele vai ficar com um corte muito gráfico. Exato. Quando eu rasgo, eu tenho esse lado- Um bocadinho esse grosseiro. É verdade. E depois nunca ficam regulares. Eu vou um bocadinho à procura do 14x14, que é um antigo tamanho do azulejo. Tamanho típico. Mas eles têm sempre formas regulares, que ao colar, ao fazer este painel de azulejos de cartazes, eles ficam com esta forma irregular que tornam a parede antiga. Vou à em busca deste lado. Tu depois tens um verniz, já há um verniz que tu passes para simular um bocadinho aquilo vidrado. No final de tudo, o que fica desenhado e o que fica pintado, leva esse verniz um bocadinho para criar também este tridimensional, que eu procuro. Depois mescla a sombra e com o sol. E que simula, de facto, os azulejos, e é aí que as pessoas realmente ficam confusas. De facto, é uma coisa inacabada, é uma coisa dissonante, como tu dizes. Que de facto são esculturas que estão nas paredes. Tu levas a rua para casa. Da formalidade do pensamento. Exatamente assim. Ok. De facto, é trazer a rua. Esta sujidade faz parte. Agora também tens esta novidade. Não sei quando começaste a fazer isso, mas já tens os neons também de vez em quando. Anima com aqueles neons de cores. E os neons surgem de uma forma muito interessante, que é: eu, além dos cartazes serem o veículo para fazer o mídia, o meio para eu trabalhar Eu recolho muitas madeiras e móveis antigos que às vezes encontro na rua. Noutro dia apresentei uma peça que é um oratório, que estava exatamente assim na rua, coisas que as pessoas vão descartando. E que para mim foi sempre tão importante esta história das coisas e dos objetos, principalmente dos objetos antigos, que eu sou incapaz de os deixar. E depois eu vejo as exposições tuas têm isso, têm armários, com os relógios, com os tutores antigos e as chaves antigas. Exato. Na última exposição eu assumi exatamente este móvel que eu tenho no ateliê, onde eu vou guardando estes. Um espécie de aparador com os vidros. Era um antigo livreiro. Ok. Que giro. Que eu vou colocando objetos, pedras, coisas. Antigos, que ia à Feira da Ladra, era de morrer a rir. Exatamente. Mas com uma nova vida ali, como objeto de arte, que é muito curioso. Há coisas que tu recolhes que já não intervencionas, quer dizer, estão prontos. Eu chamo, é um bocadinho onde eu guardo os meus segredos. Exatamente. Como este biombo, que está agora na Underdogs Exposição. Aquele que começa na porta. Começa na porta. Tem essa característica, que tem a ver um bocadinho com o que está a acontecer no mundo neste momento, que é esta informação súbita e rápida que nos chega, muitas vezes que não é verdadeira, muitas vezes falsa, e que não nos dá tempo de perceber se é verdadeiro, se é falso. Mas aí mostras o teu processo de trabalho. Exatamente. Eu senti uma necessidade de mostrar a minha verdade, porque eu sempre a mostrei. Construíste, montaste um bocadinho. Exatamente. Então é como se o que está escondido atrás da porta, por isso é aquele que começa na porta e todo aquele articulado. E aqueles desenhos que aparecem lá, são os desenhos que muitas vezes são esboços que eu faço e que estão guardados em pastas e que normalmente eu nunca mostro. Portanto, são os meus segredos. Exatamente. São giros. E eu, de alguma forma, mostro-os e ponho-me nua. Exatamente. Expões a tua intimidade, digamos assim. Exatamente. Do ateliê. É assim que eu crio. Porque eu sou muito de ateliê, estou muito tempo no ateliê. Eu trabalho muito sozinha. E tu gostas de estar sozinha? Eu gosto. Sei, uma vez estivemos a tua casa e tu dizias isso. Eu tenho esse lazo que é muito meu, de não ter essa questão de ter que ter companhia. Sim. Estás a criar, estás no teu mundo. Exatamente. E a passar aos outros. Tu não és uma mulher fechada, porque tu não fazes as coisas para ti e para guardares em casa. Não, tu gostas de fazer as coisas e as pessoas deslumbram-se depois com as tuas coisas. Isso é que é bonito, não te fechas em ti. Sim. É muito giro. Diz a verdade. Tens que falar aquilo também do azulejo falante. O azulejo falante surgiu por causa dos 50 anos do 25 de Abril. Eu tive este convite maravilhoso de expor no Museu do Azulejo. Qual sítio melhor para eu expor o meu trabalho? Foi um convite extraordinário, feito pelo Alexandre Pais, que sentiu que era muito necessário esta recriação que eu faço sobre os azulejos. E eu fui buscar os poetas, porque foi uma das características que ele me pediu. Ele disse: "Não, eu quero que tu tragas os poetas." Ele sabia das tuas quintas de leitura. Uma coisa extraordinária, que o João Gesta organiza lá no Teatro Campo Alegre. Há 25 anos também. É incrível. Bolas prata também. Mas aí conheceste o Nuno Júdice, a Inês Amaral, que se calhar era teu vizinho. E tantos outros e tantos desires. Tu és das convidadas para ilustrar. Eles têm sempre um artista que depois ilustra os poemas que são ditos. Exatamente. É tão bonita essa iniciativa. É porque é muito completo. É um espetáculo que de facto une todas as artes, desde as performances, desde o novo circo, desde a música, desde o teatro. Tudo está ali, os desires, os poetas. É que conheceste o Nuno Júdice, que acompanhaste até. Sim. E o Nuno Júdice foi uma surpresa tão bonita, porque ele complementava-me nesse sentido, porque eu encontrei alguém. Eu sempre achei que isto devia ser como antigamente, que os artistas se juntavam nos cafés. Na Gertrudes, a Gertrudes da Brasileira. Sim, exato. Ou em Paris, o Picasso, o Braque. O Montmartre. Exato. Toda essa junção dos artistas, essa comunicação e essa vivência. Eu sempre achei que era muito enriquecedor. Era dura, mas era muito enriquecedora. E hoje há um individualismo muito grande em termos artísticos. E quando as artes se unem, a magia acontece. Exato. É verdade. E acontece de uma forma tão enriquecedora e tão forte que há uma união de todas as artes. E todos ganham com isso. E quando eu conheci o Nuno, ele tinha isso. Ele tinha isso desde que começou a escrever de muito novo, com outros artistas, com outros poetas, com outros escritores, com outros artistas plásticos. E aconteceu uma exposição muito bonita em Portimão, em que reuniu-se todos estes artistas que trabalharam com o Nuno e o Nuno com os artistas. Engraçado, até o fim. Ele queria muito ser visitado e que as pessoas fossem, e que leiam as coisas dele. É muito giro isso. Então havia esta partilha de imagens e textos. Exatamente. E isso é muito interessante. Tens uma marquise com azulejos em casa e disseste aos amigos: "Amigos, quem me visita, vem cá escrever nos vidros da janela, no jardim de inverno, venha escrever uma frase ou um poema, o que vocês quiserem." Não era? Ou uma palavra. E está lá, está lá tudo. O José Luís Peixoto escreveu: "O possível é o futuro do impossível." Eu adorei isto. Só os bens nos taparam a boca. Porque isso já vem dos azulejos falantes, porque era: o que é que escreverias num azulejo falante hoje, 50 anos depois do 25 de Abril? É aquele azulejo à porta das casas, que dizia sempre: "Quem vem por bem", não sei o quê. Porque perdeu-se um bocadinho essa coisa. "Em casa onde não há pão, ninguém tem razão." Essas coisas. Exatamente. Os poemas também têm muita alegria. E então todas estas frases são extraordinárias. Eu fiquei meia hora a ler aquilo. É fascinante. É muito interessante, porque toda a gente que eu convidei, algumas pessoas conhecia diretamente, outras não tanto Responderam-me logo. Uma delas foi a Dina Santiago, que respondeu logo. Eu não a conheço pessoalmente, mas acho extraordinário também. E respondeu logo. Como tantos outros, Bruno Nogueira, a Maria Rueff, que eu admiro imenso. Uma série de artistas. Esta série para colaborarem. Porque eu queria que, de alguma forma, as pessoas também reconhecessem estes nomes. Portanto, na verdade, eu queria que estes azulejos falantes chegassem às pessoas também por quem os escreveu. E então isso cria uma mais-valia no trabalho também. Tens uma orelha que te persegue. Eu vejo, vamos descobrindo em várias obras, não é só nesta exposição, por exemplo, está em várias, não está só numa, que é uma orelha que tu desenhaste em azul e com aquele tamanho do 14x14, os azulejos, que depois tu fazes autocolante. Eu faço. É a minha intervenção de rua, porque eu fiz exatamente. Quer dizer que as paredes têm ouvidos? As paredes têm ouvidos, exatamente. É fantasia aquilo. Exatamente o tamanho do azulejo. Lembra aquilo dos figuras avulsas, que havia antigamente. Exatamente, a imagem das figuras avulsas, é exatamente isso. E então eu colo por cima das fachadas, muito discretamente, e ele como fica mesmo no limite, parece um azulejo. Ele não danifica o azulejo, porque é um autocolante, sai facilmente, mas fica muito delimitado ao padrão. E é muito interessante, porque eu faço com que as pessoas olhem para as paredes e me enviem. Tipo: "Descobri na rua tal, descobri não sei o quê." Ou muitas vezes dizem-me: "Onde é que eu estou?" E eu sei exatamente onde a pessoa está. Envias a foto. Exatamente. Que giro! Porque eu sei o sítio onde eu os coloco. E é muito interessante isso, porque eu crio essa dinâmica com as pessoas, que é fazê-las a olhar para as paredes. Eu tinha no outro dia alguém a ligar-me a dizer assim: "Estou num sítio cheio de cartazes, queres?" E eu achei maravilhoso, porque de facto eu faço esta intervenção nas pessoas e crio-lhes desejos que eles não têm. Exatamente, não sabiam que tinham. É extraordinário. Tu desde 2001 participas, eu sei que eu disse que eram 15 exposições, as tuas exposições individuais e coletivas. Por exemplo, esta da Underdogs diz que é a tua primeira individual, não é nada? É a minha primeira individual na Underdogs. Está bem. Quando dizem a primeira exposição individual de não sei o quê, quem pensa: "Não, ela já expõe há 25 anos." Esta no Kennedy Center, tu foste convidada, estamos em Washington, foi em 2015, fez agora 11 anos, a tua primeira exposição internacional. Em 2015 fazem sempre estes países, Portugal e Espanha eram os países convidados. Exatamente, a Península Ibérica que eles chamavam. E então aqui, foi onde conheceste o Alexandre Farto, portanto, also known as Vhils, e outras pessoas. O Nuno Vaz levou um elétrico de cortiça em tamanho real. Como é que é possível? O Siza Vieira, o Souto de Moura também estiveram lá. Sim, tinha uma intervenção muito bonita. E a Espanha levou quem? O Picasso. Foi, mais nada. Pronto, e aqui foi bonzinho. Uma grande retrospetiva de cerâmica. Tu tens, de facto, representado Portugal, onde embaixadas levam-te também lá fora. Mas já está, em Washington foi super famosa. Foi muito interessante. Abriu-te portas? Abriu imensas portas. Aliás, eu acho que estas viagens pelo mundo vêm um bocadinho daí. Como foi em Macau também, que fizeste a seguir. Em Macau, por acaso, foi outro convite, porque era uma exposição da língua portuguesa, portanto, os países da língua portuguesa, e eles escolheram dois artistas de cada país da língua portuguesa. E foi o governo da China que organizou, que foi muito interessante. E foi muito giro porque eu e o João, que é o meu companheiro, tivemos os dois o convite separadamente. Portanto, eles não sabiam que nós éramos um casal. Viviam já. E foi muito interessante por isso também. Mas esta do Washington foi de facto uma pedrada no charco, foi fantástico. Foi muito interessante, porque de facto tinha o mundo inteiro ali, todos os embaixadores dos vários países. Portanto, tinha uma série de pessoas que de facto viram o trabalho. Aliás, a exposição no México vem daí, uma das pessoas da Embaixada do México que viu lá o meu painel, era um painel enorme com seis metros e dois e tal de altura, e ela disse: "Não, eu acho isto extraordinário, eu quero levar isto ao México." E 10 anos depois eu faço a exposição no México. Aquilo do "porque eu não sei, porque eu não sei, porque eu não sei" e aqueles azulejos grandes, isso é uma coisa pintada. Aquele oito metros, mas não é o painel com a Viúva Lamego, não sei o quê. Foi. Mas eu sempre achei que eram azulejos. E é. No documentário vi-te a colar como um cartaz na parede. Porque começou assim: eu tinha esse grande objetivo que era fazê-lo em azulejos, mas eu não tinha esse poder económico para o fazer. Como é que surgiu a Viúva Lamego nisto? Um dia, numa exposição em Cervera, no Museu de Cervera, onde está a acontecer agora a Bienal de Cervera. Já começou? Eu participei numa exposição, Perspectiva 24, e eu tinha exatamente esse cartaz com o "porque eu não sei, porque eu não sei." "Porque eu não sei, porque eu não sei, porque eu ainda não sei." E estava lá um colecionador, que é um engenheiro José Teixeira, exatamente do DST. Exato. Abriu o museu agora. Abriu o museu, tem lá uma peça que veio de Washington, que é muito interessante também essa história. E em conversa com ele, porque ele é um entusiasta incrível. É um grande homem. E muito culto, muito sensível à arte. Extremamente sensível à questão artística. É verdade. E ouviu-me e eu estava-lhe a contar esta história e disse: "Olha, eu apresentei esta peça aqui agora, mas na verdade, o que eu queria fazer era isto em azulejos na Viúva Lamego." Ainda por cima, foste logo para o melhor. Porque eu tinha este desejo antigo, porque a Viúva Lamego tem uma história extraordinária com os artistas portugueses. E ele ouviu-me muito bem até ao fim e no fim disse: "Então vamos fazer." E eu disse: "Não, mas eu ainda não falei com eles, eu ainda tenho que falar." "Não, vamos fazer." Vamos tratar disso. Então houve uma espécie de cumplicidade dos dois em que eu faria um para a DST, que está lá neste momento instalado e foi instalado nos 50 anos do 25 de Abril, e faria um outro que ficaria na rua, porque eu gostava que ele ficasse na rua e pela minha vontade que ficasse na cidade de Lisboa. E assim foi. Eu fui com toda a coragem para a Fábrica Viúva Lamego, porque eles têm um programa extraordinário lá. Além de residências, têm este tipo de trabalhos que fazem juntamente com os pintores da própria Viúva Lamego. Mas eu, cheia de coragem, com uma cara triste. O não está garantido, como eu ouço. Eu vou. Exatamente. Eu fui e disse: "Não, eu quero ser eu a pintar." Não sabendo nada sobre. Acho que não é nada fácil vidrar. Tu explicaste isso uma vez. Não é nada fácil. Os pigmentos têm cores diferentes do que resultam depois da costura. Como o marinésio, é tudo diferente. Exatamente. Como o azul é rosa. É horrível. Só quando vai para os vidrar e ao forno é que muda. Então foi muito interessante, porque eu, na verdade, não fiz totalmente sozinha, fiz juntamente com um pintor, que era o Fernando, que é de lá da Viúva Lamego, um extraordinário pintor. É uma coisa de oito metros e tal, é uma coisa gigante. E ele ajudou-me, portanto amparou esta questão, ensinou-me como é que se fazia e eu fiz quase todo. Criou-me, deu-me imenso prazer. Foi muito interessante. E por que o outro, que é depois eu vi está a colar o cartaz. Pois claro. Mas depois eu vi está a colar. Na verdade, era uma maquete, era já a minha ideia de: eu quero fazer isto em azulejos, mas ainda não tenho possibilidade. Então mandei imprimir e colei aquilo tudo na parede lá na Árvore, no Porto. Foi em 2023, a inauguração desta arte pública, no fundo. Exatamente. Muito bem. Esta homenagem ao José Mário Branco, também fizeste à margem, de certa maneira, desta exposição na Árvore, que tu fizeste também em 2022. Foi aí que começou um pouquinho esta ligação aos poetas revolucionários, porque os poemas, principalmente o poema da inquietação, que foi o que eu mais trabalhei, eram tão atuais. Eu lia aquele poema e eu entendia como se eu estivesse a ler hoje, como se tivesse sido escrito hoje. E isso fez toda a diferença no meu trabalho e eu explorei muito esse lado do José Mário Branco no que ele escrevia. Falamos também da ZET, claro, e a Helena, que te entrevistou neste "Quando eu morder a palavra, por favor, não me apressem" da Conceição Evaristo, é um poema dela, não é? Da calma e do silêncio. Muito bonito que isto, e também tinha lá coisas do Nunes Júdice, claro. E esta mesa da paz, muito bonito, que tu fizeste lá, esta mesa enorme, mesa das conversações. Porque eu gosto do teu trabalho por causa disso, porque nos faz pensar também. E aqui é essas conversações de paz, e estamos tanto a precisar, Manuela, a toda hora. Porque eu descobri através desta socióloga, que não me lembro do nome dela agora, esqueci-me. Não faz mal, já lá vamos, não interessa. Ela tem um nome. Agora esqueci-me. Já vai surgir. Vai já surgir. E eu descobri que ela fez um estudo em que se estivessem 50% de mulheres sentadas nas mesas de conversação de paz, os resultados seriam bem diferentes. Neste momento, são 6% de mulheres sentadas. Eu pensava que era 3, de certeza que são seis. Eu vi uma coisa tua a falar em 3%. Não é quase nada. 3 ou 6 é quase nada, é a mesma coisa. Exatamente. E ela tem um estudo sobre isso, e eu acho que de facto a mulher tem essa capacidade de cuidar, que é muito intrínseca no instinto ser mulher. Eu acho que esse lado do cuidar é mesmo muito importante não deixar. Celia L. Hershey, é esta socióloga britânica, é isto? Exatamente. Celia L. Hershey. Não vás embora triste porque não te lembraste. Agora já está aqui homenageada esta socióloga britânica que disse isto. E foi muito interessante, porque nós fizemos uma espécie de, com a curadoria da Helena, fizemos este mapa dentro da galeria como se fosse uma galeria sem teto. Portanto, eram as ruas ou os largos. Como tu gostas da rua, é a casa sem teto. Exatamente, era a Praça da Liberdade, era a Praça da Silva, era a Praça do Nunes Júdice, o corredor do Nunes Júdice. E isso foi muito interessante também. Muito bonito isto da Celia, já agora, Celia L. Hershey, que diz: " Wars wont truly end until women are at the peace tables." As guerras não vão terminar enquanto não se sentarem as mulheres. E a cada 100 pessoas que estão naquelas conversações, entre três e seis são mulheres, de resto. E eu achei tão importante colocar esse trabalho e fiz este trabalho in loco na galeria. Foi muito interessante também fazer esse trabalho lá, mexer no gesso e moldá-lo e trabalhá-lo lá, pôr a mão na massa e ter a colaboração da própria equipa da ZET. E eu achei tão interessante mexer neste assunto, porque estamos a viver uma coisa que está a levar coisas que já estão resolvidas em relação às mulheres de uma forma tão natural e normal, e de repente ouvimos coisas tão horríveis. Indescrávais, não é possível. Que achamos que isso é da Idade Média, já não devia estar a acontecer no século XXI, às portas de Portugal. Que só podemos dizer: "Mas ainda estão aí? Isso já passou, já está resolvido, já estamos um pouquinho mais à frente." Exatamente. Tens toda a razão. E foi por isso, foi com essa intenção. "Eis-me sou um poeta, irei ao entardecer." Portanto, já sabe, está na Galeria Underdogs em Marvila até 15 de agosto, terça a sábado, das 14h às 19h, portanto à tarde. Vá conhecer as obras da querida Manuela e talentosa Manuela Pimentel. É extraordinário. Siga-a nas redes dela, é manuelapimentel.pt, as tuas redes é? Sim. Pronto. A não perder o que ela vai fazendo, as exposições dela. Não perca esta mulher que consegue fazer, às vezes, quase do lixo, luxo, e consegue fazer artes pobres, artes nobres. Faz bel. Portanto, é extraordinário. Não perder. Manuela, estou muito contente com esta conversa. E é um convite à contemplação. Esta exposição tem esse lugar, que é: ela não se fecha, ela está aberta a este lugar de pensamento, em que eu tenho três pufes dentro da galeria que convidam à contemplação das nuvens, que é aquele lugar que nós em crianças olhávamos para o céu, estávamos no chão e olhávamos para o céu. E víamos formas das nuvens e coisa, é tão bom. Exatamente. Manuela, bem-haja por ter vindo. Muito obrigado e tudo de bom. Obrigado. Obrigada pelo convite. João Paulo Sacadura