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TRAVÃO NAS CIRURGIAS: HOSPITAIS DE SANTA MARIA E DE BRAGA REGISTAM QUEBRAS DE 30%

Público Online

2026-08-02 15:14:02

Até Maio, SNS fez menos 19 mil operações do que no mesmo período de 2025. Hospitais justificam com novas regras na cirurgia adicional e falta de médicos. Críticas à gestão do caso Miguel Alpalhão. Entre Janeiro e Maio deste ano, os hospitais do SNS realizaram menos 19 mil cirurgias programadas do que no mesmo período de 2025, uma quebra de 5,4%. A descida foi particularmente acentuada na ULS de Santa Maria e na ULS de Braga, onde a actividade caiu 29,6% e 31,5%, respectivamente. As novas regras da cirurgia adicional são apontadas pelas unidades como uma das razões para esta redução. Já o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares fala numa "muito má gestão" da polémica do dermatologista de Santa Maria, que levou alguns hospitais a parar a cirurgia adicional. E não antevê uma recuperação a curto prazo porque há vários constrangimentos nesta área que permanecem por resolver. Os dados constam do Portal da Transparência do SNS, actualizados a Maio deste ano. Nos primeiros cinco meses de 2026, as 39 unidades locais de saúde (ULS), o Hospital de Cascais (gerido em regime de parceria público-privada) e os três institutos de oncologia (IPO) do país realizaram 332.455 cirurgias programadas (convencionais e de ambulatório), menos 19.018 do que no mesmo período do ano anterior. A redução global é de 5,4%, mas, olhando a cada unidade, há desempenhos muito diferentes. As ULS de Santa Maria e de Braga destacam-se pela negativa. O maior hospital de Lisboa fez menos 6515 cirurgias programadas do que no ano anterior, num total de 15.506. Já o Hospital de Braga fez 11.571 intervenções, menos 5332 do que no mesmo período do ano passado. Seguem-se as ULS do Médio Ave e de Trás-os-Montes e Alto Douro, com quebras de 22,1% e 21,5%. Entre os institutos de oncologia, o IPO de Lisboa foi o único a diminuir a produção cirúrgica: menos 16,1%, o que corresponde a menos 609 cirurgias a doentes oncológicos. O PÚBLICO questionou as ULS que apresentaram as variações mais significativas, sendo que à data de envio das perguntas (no início da semana) os dados disponíveis eram de Abril. Ainda assim, com excepção da ULS do Médio Ave, todos os questionados apresentaram resultados idênticos ou piores em Maio comparativamente a Abril. Nas respostas, as unidades apontam várias razões para as quebras: falta de médicos e de disponibilidade de blocos operatórios, greves, introdução da cirurgia robótica, internamentos sociais. E há três ULS que justificam a descida abrupta com as novas regras internas que criaram para a produção adicional. Recorde-se que, na sequência do polémico caso em torno de Miguel Alpalhão - o dermatologista do Hospital de Santa Maria que ganhou 700 mil euros por cirurgias fora do horário normal de trabalho no âmbito do programa de recuperação de listas de espera -, a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde fez auditorias em todos os hospitais do país para detectar eventuais abusos. Confrontadas com falhas de controlo interno ao sistema, várias administrações adoptaram novas regras internas e a tutela avançou com a criação do Sistema Nacional de Acesso a Consultas e Cirurgias (Sinacc), que vai substituir o Sistema Integrado de Gestão de Inscritos em Cirurgia (SIGIC). Estava previsto que o Sinacc entrasse em vigor este sábado, 1 de Agosto, mas após os vários alertas da Ordem dos Médicos, que tem insistido que devia ser adiado por haver constrangimentos que põem em risco a sua implementação, a Direcção Executiva do SNS anunciou na tarde de sexta-feira o adiamento da sua entrada em vigor. A ULS de Santa Maria, onde operava Miguel Alpalhão, justifica a descida abrupta com a contracção da actividade adicional. Entre Janeiro e Abril, a produção cirúrgica para recuperar listas de espera naquele hospital recuou 58% face ao mesmo período de 2025, revela a unidade. Acrescentando que o novo regulamento interno da produção adicional da ULS “originou negociações de novos contratos para esta linha de actividade e adaptações às novas orientações”, com impacto nos resultados da cirurgia adicional nos primeiros meses do ano. Na ULS Braga, a quebra da actividade cirúrgica programada “explica-se por vários factores em simultâneo”: mais greves médicas, mais ausências de profissionais e “a saída de médicos ao longo do trimestre”. A isto soma-se “a entrada em funcionamento do novo regulamento interno” para a actividade cirúrgica, que implicou um “período de adaptação que também condicionou o volume”. A introdução da cirurgia cardíaca e da cirurgia robótica, as obras em curso no bloco operatório, bem como a activação “mais regular” do plano sazonal (do Inverno) são outras justificações para a redução da actividade cirúrgica em Braga. As respostas não surpreendem o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH). Para Xavier Barreto, “os resultados são péssimos” e resultam, fundamentalmente, de uma “muito má gestão” do caso do dermatologista do Hospital de Santa Maria. “Quando tudo começou, o Ministério da Saúde e a Direcção Executiva do SNS podiam e deviam ter dito aos hospitais que, apesar do ruído, era importante dar resposta aos doentes, mas isso não aconteceu, e houve hospitais que quase pararam a actividade adicional”, diz, considerando que esta é a principal explicação para reduções tão abruptas. Recuperar actividade perdida "é muito difícil" Xavier Barreto considera “muito difícil” recuperar nos próximos meses a actividade perdida, ainda mais num contexto em que as ULS continuam a trabalhar sem os contratos-programa assinados, ou seja, sem conhecer os objectivos de produção para 2026 e os meios com que podem contar. Pior, o impacto nos doentes e os custos desta redução da actividade ainda estão para vir. “O cenário não é nada positivo”, alerta, considerando essencial que os constrangimentos com a cirurgia adicional , nomeadamente as correcções exigidas pela Ordem dos Médicos aos diplomas associados ao Sinacc , estejam todos resolvidos no próximo mês. “Em Setembro isto tem de estar resolvido. Temos de ter equipas a produzir e a fazer cirurgia adicional sem qualquer tipo de limitações”, avisa. A ULS do Médio Ave também justifica a quebra das cirurgias com as “alterações relevantes” na organização da cirurgia programada, nomeadamente no enquadramento da cirurgia adicional. E aponta constrangimentos na disponibilidade de médicos de especialidades cirúrgicas e anestesiologistas. Salientando, porém, que o reforço das equipas já está a produzir efeitos, “prevendo-se uma recuperação gradual da actividade cirúrgica ao longo dos próximos meses”. Por outro lado, a ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro invoca, como um dos principais factores, “o aumento do número de internamentos sociais, que prolonga a ocupação de camas hospitalares e condiciona a disponibilidade necessária para a admissão de doentes cirúrgicos”. As obras de requalificação nos internamentos dos hospitais de Chaves e de Vila Real também obrigaram a ajustamentos e “reduziram a capacidade instalada disponível”. Já o IPO de Lisboa refere que a evolução está “globalmente em linha com o expectável”, tendo em conta as alterações nas referenciações e o aumento da complexidade das cirurgias, que exigem maior disponibilidade de bloco operatório. Os períodos de greve também são invocados por este instituto de oncologia como factores que condicionaram o normal funcionamento da actividade cirúrgica. Apesar da quebra geral na actividade cirúrgica programada, uma tendência que já se vem observando desde o segundo semestre de 2025, os dados do Portal do SNS também mostram o outro lado. A ULS de Barcelos-Esposende, a ULS do Baixo Mondego e a ULS do Algarve registaram subidas expressivas nos primeiros cinco meses do ano, com aumentos de 19,7%, 15,6% e 15,2%, respectivamente. tp.ocilbup@kcerhcs.seni Nos primeiros cinco meses do ano, hospitais do SNS fizeram menos 19 mil cirurgias do que no mesmo período do ano passado Manuel Roberto (arquivo) Inês Schreck