TABULEIRO GLOBAL - A GUERRA DOS ´DRONES´ GANHA-SE NA FÁBRICA
2026-07-27 06:00:09

Aguerra na Ucrânia ensinou-nos muita coisa, mas a mais incómoda é também a mais simples. O drone não mudou apenas as armas da guerra. Mudou quem se pode dar ao luxo de a fazer. Um aparelho que custa alguns milhares de euros obriga o adversário a gastar milhões para o abater. A aritmética não é sustentável. e é essa aritmética, não a coragem, nem a superioridade tecnológica, que decide uma guerra de atrito. Convém, porém, olhar para além do engenho. A verdadeira lição desta guerra não é táctica. ê industrial. A Ucrânia passou das garagens para milhões de unidades por ano, a aperfeiçoar em semanas aquilo que os nossos sistemas de aquisição certificam em anos. O drone é a arma dos pobres, precisamente porque é barato de produzir e rápido de melhorar. E isso desloca o poder. Passa a estar do lado de quem produz e adapta depressa, não do lado de quem tem a plataforma mais sofisticada. O próximo salto já não está no aparelho. Está no software. Quem dominar o algoritmo e a produção que o sustenta dominará a próxima década. ê aqui que um país pequeno pode competir. Não tanto na massa, mas no nó inteligente, nos sensores, na integração. A Europa acabou de o admitir. O muro anti-drones que se ergue no flanco leste existe porque alguém fez as contas: responder a engenhos baratos com caças e mísseis de milhões é insustentável. A curva de custo que aqui descrevi há um ano é hoje o problema central da Defesa aérea europeia. Uma Europa que não sabe produzir massa ba-rata e integrá-la depressa é uma Europa que entregou a outros a sua própria Defesa. Isso traz-nos a Portugal. E aqui há uma boa notícia, porque me recuso a terminar em lamento. Não nos faltam ideias, nem engenheiros. Falta-nos a interface, o mecanismo que transforma inovação em capacidade soberana, esse espaço intermédio onde o utilizador, a engenharia e a indústria trabalham em conjunto. Há exemplos, e são tanto mais úteis quanto percorrem caminhos diferentes. O CTI nasceu do Estado. ê a Força Aérea, o utilizador que sabe do que precisa, a organizar-se com parceiros privados. O mesmo poderiam fazer a Marinha, o Exército ou as forças de segurança. O CEiiA fez o caminho inverso. Nasceu da indústria automóvel e foi evoluindo até desenhar e entregar à Marinha observatórios submarinos autónomos, OS Landers, que aterram no fundo do mar para vigilância acústica. Duas direcções, o mesmo espaço intermédio. E nenhuma delas é fórmula única. Cada sector pode desenhar a sua. Sobretudo, existe já uma indústria a que vale a pena chamar pioneira. Portugal produz drones, e à sua volta cresceu um ecossistema que merece ser alimentado, dos compósitos aos sensores, dos materiais ao software. ê desse tecido, e não de uma encomenda avulsa, que nasce a capacidade soberana. Falta impedir que esse tecido morra entre a bancada e a fábrica. ê isso que estas estruturas resolvem. São parcerias público-privadas, com entidades públicas como sócias e accionistas, sob a forma de empresa sem fins lucrativos. ê esse desenho que permite levar um projecto do protótipo à produção. Quem conhece o terreno sabe porque é que, entre nós, essa travessia quase nunca se completa. Fica por dizer o óbvio. Temos a maior Zona Económica Exclusiva da União e responsabilidades atlânticas que não escolhemos. e é no mar que o droneestá a reescrever a dissuasão. A inovação não se compra. Constrói-se. E já a estamos a construir. Falta levá-la até ao fim e fazê-la chegar onde a geografia não nos deixa escolher. Analista de Estratégia, Segurança e Defesa Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico 66 A Europa acabou de o admitir. O muro anti-drones que se ergue no flanco leste existe porque alguém fez as contas: responder a engenhos baratos com caças e mísseis de milhões é insustentável. (...) Isso traz-nos a Portugal. (...) Existe já uma indústria a que vale a pena chamar pioneira.” Jorge Silva Carvalho