pressmedia logo

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL REDEFINE INDÚSTRIA DE DEFESA PORTUGUESA

Negócios Online

2026-07-21 19:47:03

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa futura para se tornar parte central da forma como empresas e forças armadas portuguesas planeiam, decidem e operam no domínio da defesa e da segurança. Francisco Vilhena da Cunha, Mónica Dias, Sérgio Barbedo, e André de Almeida Campos, defenderam que a inteligência artificial está a transformar o setor da defesa, mas deve preservar o controlo humano, a responsabilidade e os princípios éticos, durante o debate O impacto da IA no setor da defesa e segurança , moderado por Rui da Rocha Ferreira. “A operação dos satélites é uma atividade que, há alguns anos, acontecia naqueles grandes centros de operações que vemos nos filmes, também com os lançamentos, etc. Hoje, normalmente, acontece a partir de um computador portátil ligado a uma cloud, que está ligada aos satélites”, afirmou Francisco Vilhena da Cunha, CEO da GeoSat, durante o debate “O impacto da IA no Setor da Defesa e Segurança”, na talk “IA - Defesa e Segurança: O que vem a seguir?”, iniciativa do Negócios e do Now.O debate contou ainda com a participação de Mónica Dias, professora associada e diretora do Instituto de Estudos Políticos (IEP) da Universidade Católica Portuguesa; Sérgio Barbedo, country director da Thales e CEO da Thales Portugal; e André de Almeida Campos, coronel e chefe da Divisão de Inovação e Transformação Organizacional da Força Aérea. A moderação esteve a cargo de Rui da Rocha Ferreira, jornalista do Negócios. .div-embed {display: flex; justify-content: center; margin-top: 40px; margin-bottom: 40px;} .div-embed iframe {aspect-ratio: 16 / 9; max-width: 900px; width: 100%;} O CEO da GeoSat acrescentou que “do ponto de vista operacional, muitas vezes, o que queremos fazer é atrasar o momento em que tem de intervir um operador humano, mas a responsabilidade é sempre do operador humano. Não se pode substituir a responsabilização, mas mudou radicalmente a forma de operar na empresa”. Francisco Vilhena da Cunha lidera um dos dois operadores europeus de satélites de alta resolução ótica, equipados com câmaras. A transformação provocada na GeoSat pela inteligência artificial não foi isenta de resistências internas. Segundo Francisco Vilhena da Cunha, entre 50% e 70% das funções da empresa mudaram substancialmente. “Antes, um operador de satélites que trabalhava oito horas à espera de um alerta hoje pode ser um gestor de agentes de inteligência artificial, especialista na operação daquele satélite”, descreveu, considerando tratar-se de uma mudança profunda na cultura de trabalho das equipas. Sérgio Barbedo, country director em Portugal e CEO da Thales Portugal, colocou a tónica na necessidade de manter o controlo humano sobre sistemas cada vez mais complexos. “É absolutamente fundamental manter o controlo, a rastreabilidade e a compreensão de como as coisas realmente funcionam”, defendeu. Acrescentou que estes equipamentos fornecidos às Forças Armadas têm uma grande importância, uma vez que “desempenham papéis absolutamente cruciais naquilo que são, em alguns momentos, conflitos e, em outros momentos, simplesmente situações de segurança em que as pessoas querem ter a certeza de que vivem num ambiente seguro”. Força Aérea tecnológica Para Sérgio Barbedo, a multiplicação de sensores e de fontes de dados, porque hoje “temos uma sociedade interligada”, obriga a um novo tipo de gestão da informação. “A inteligência artificial traz-nos essa capacidade de acelerar a decisão. Temos de conseguir transformar essa informação, gerir essa informação e, no fundo, tomar decisões em tempo real com essa informação e, acima de tudo, manter no ser humano a decisão final em situações críticas, saber distinguir o que é crítico do que não é”, sublinhou. André de Almeida Campos, coronel e chefe da Divisão de Inovação e Transformação Digital da Força Aérea, garantiu que a instituição introduz a inteligência artificial de forma planeada, faseada e priorizada, dando primazia às áreas onde é possível extrair mais valor com menos risco. “A tecnologia está no centro da Força Aérea. Somos um ramo das Forças Armadas muito tecnológico e os nossos meios de operação são tecnologicamente avançados”, afirmou, recordando que a instituição já opera meios não tripulados e satélites há vários anos, tornando a adoção da inteligência artificial mais uma etapa de um processo contínuo. Considerou que estão habituados aos saltos tecnológicos e à IA e que esta “é mais uma tecnologia ao dispor da Força Aérea e das Forças Armadas para potenciar o seu produto operacional: garantir a melhor disponibilidade dos meios, mais eficiência na disposição dos meios, acelerar os ciclos de decisão e garantir que as decisões são tomadas com base em informação mais fiável, mais fidedigna e mais trabalhada”, referiu André de Almeida Campos. Destacou a fusão de informação como área prioritária, face ao volume de dados recolhidos pelos meios aéreos, espaciais e de superfície. Sublinhou ainda que a manutenção preditiva e a logística são outras frentes com impacto significativo nos próximos anos. Defesa europeia acelera investimento em IA O aumento do investimento europeu em defesa, impulsionado por programas como o SAFE e pela exigência da NATO em elevar a despesa militar até 5% do PIB, está a criar oportunidades para empresas portuguesas ligadas à inteligência artificial e à tecnologia espacial. “Passámos de um mundo unipolar para um mundo multipolar, em que começamos a ter uma série de grandes potências que se desafiam entre si”, afirmou o CEO da Thales Portugal, que traçou um retrato da mudança de paradigma na Europa, recordando que a guerra na Ucrânia representou um alerta para sociedades que tinham secundarizado os temas da defesa. Segundo Sérgio Barbedo, a Thales cresce em Portugal assente em três pilares: sistemas de controlo de tráfego aéreo, defesa aérea e sistemas de combate naval, prevendo passar dos atuais 450 para 700 colaboradores no país nos próximos três anos. “Esta é uma área da defesa aérea em que estamos a trabalhar bastante, porque entendemos que o país tinha aqui um défice grande”, disse Sérgio Barbedo, acrescentando que Portugal pretende assumir um papel relevante na defesa do flanco ocidental europeu. Lembrou ainda que a Thales, além dos sistemas de tráfego aéreo, é líder mundial em tecnologias de guerra submarina. “Esta é uma das áreas onde a inteligência artificial é absolutamente crítica, porque hoje a nossa capacidade de deteção no mar aumentou 100 vezes em termos de rapidez.” Os nichos da defesa Um dos principais objetivos de uma defesa forte é assegurar a paz. Este investimento em defesa não corresponde a uma política expansionista, nem a nível nacional nem europeu, defendeu Francisco Vilhena da Cunha, CEO da GeoSat. O responsável admitiu que operar no setor da defesa obriga a empresa a tomar posições éticas com frequência. “Não podemos vender a imagem de uma fronteira a dois países em conflito, porque a mesma imagem serve aos dois. Há uma necessidade de assumir uma posição e de ser muito claro com todos”, explicou, reconhecendo que essa clarificação já levou colaboradores a deixar a empresa quando esta reforçou a aposta na área da defesa. Para o CEO da GeoSat, o crescimento da empresa passa também por mais satélites e por uma maior capacidade de extração de informação a partir de imagens. Lembrou que “a constelação que vamos lançar, com mais de duas dezenas de satélites de uso civil e militar, representa 300 milhões de euros em satélites que passam a ser ativos portugueses, por meio de uma plataforma tecnológica desenvolvida com a Força Aérea”. Reforçou que “a inteligência artificial não vai fazer o contacto com a realidade, vai processar aquilo que a compõe. Por isso, precisamos cada vez mais de sensores, estejam em drones, satélites ou nas nossas cidades”. O coronel da Força Aérea, considerou que Portugal não pode aspirar a uma autonomia tecnológica total, dada a dimensão dos investimentos exigidos pela nova geração de armamento. “Não podemos aspirar a ter grandes autonomias em termos tecnológicos. Temos de cooperar no âmbito das instituições em que estamos inseridos, a União Europeia e a NATO”, afirmou André de Almeida Campos, defendendo que Portugal se deve concentrar em nichos onde a criatividade nacional pode fazer a diferença, como os sistemas não tripulados, área em que empresas nacionais como a Tekever já competem ao mais alto nível internacional. Mais ética e menos alienação tecnológica A atual revolução da inteligência artificial deve ser lida à luz da história, evitando tanto o otimismo ingénuo como o pessimismo paralisante, defendeu Mónica Dias, que alertou ainda para a “imprevisibilidade que gera muita, muita incerteza”. No seu entender, o que estamos a viver com a introdução da inteligência artificial é um momento semelhante ao que aconteceu no Renascimento, “com a introdução da pólvora nos exércitos europeus e a utilização do telescópio, que representaram um alargamento dos nossos sentidos e uma nova forma de ver o mundo”. O telescópio foi uma das invenções mais revolucionárias desse período. Nos campos de batalha, permitiu melhorar a vigilância e o planeamento militar. Na navegação, aumentou a segurança e a eficácia das viagens. Na cartografia e na construção de cidades, favoreceu medições e observações mais precisas. Mas o seu efeito mais importante foi intelectual: mudou a forma como os seres humanos compreendiam o universo e abriu caminho à ciência moderna.  Para Mónica Dias, é possível estabelecer um paralelismo entre essas mudanças e as implicações atuais da inteligência artificial em diferentes áreas. “Tal como o telescópio permitiu olhar muito para além da nossa visão, a inteligência artificial permite transformar por completo a atuação do ser humano, o que se vai refletir em mudanças geopolíticas fundamentais”, afirmou a professora associada e diretora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. E acrescentou que os Estados e as empresas que dominarem esta tecnologia ditarão a nova cartografia do mundo.  Segundo Mónica Dias, as invenções tecnológicas atuais criam uma dinâmica na economia e no desenvolvimento geral que altera a geopolítica e, no seu entender, “esta mudança geopolítica deve ser vencida por quem tem uma forma de atuar mais inteligente e, sobretudo, com mais preocupações éticas, e não por quem tem mais capacidade tecnológica”. Ao nível europeu, Mónica Dias alertou para a incerteza sobre o rumo político do continente, num contexto no qual o reforço do investimento militar alemão pode ser lido de forma diferente, consoante a orientação política dos governos futuros. “Se tivermos uma Europa de Estados alinhados com os princípios fundamentais dos direitos europeus, temos uma Europa. Mas há outros projetos, partidos que defendem uma Europa das nações”, observou, citando o risco de novos conflitos internos entre a Alemanha e a Polónia ou a França. A alienação e a opacidade No plano educativo, manifestou maior preocupação. Para Mónica Dias, o principal risco da inteligência artificial não é a substituição do trabalho, mas a alienação. “É a doença da alienação, de consumirmos tanto a inteligência artificial que deixamos de pensar, deixamos de ter pensamento crítico”, alertou. Recorrendo a Kant, defendeu que o esclarecimento consiste em tornar-se autónomo e utilizar a inteligência de forma crítica, superando a preguiça e o medo. “Evitamos a alienação, porque a alienação leva sempre à servidão”, resumiu. Questionada sobre a opacidade da Rússia e da China no desenvolvimento de inteligência artificial militar, remeteu para a recente encíclica do Papa Leão XIV, leitura que considerou incontornável sobre o tema. Segundo a professora, o documento coloca a dignidade humana no centro da reflexão e propõe repensar o direito da guerra à luz das novas tecnologias. “A defesa propõe-se precisamente a evitar as guerras”, sustentou, manifestando ceticismo quanto à ideia, atribuída a Putin, de que quem dominar a inteligência artificial dominará o mundo. Considerou que os regimes autoritários enfrentam fragilidades estruturais que os tornam maus modelos para o futuro, defendendo que a ciência, a economia e a política em liberdade prevalecerão sobre alternativas autocráticas. Filipe S. Fernandes [Additional Text]: IA em debate: O que vem a seguir para a indústria de defesa? Filipe S. Fernandes