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"BRAGA DESAPARECIDA". RUI FERREIRA LANÇA ALERTA CÍVICO SOBRE PATRIMÓNIO PERDIDO EM NOVO LIVRO E PERCURSO HISTÓRICO

RUM

2026-07-18 19:16:02

O bracarólogo lança no próximo sábado um livro, acompanhado de um percurso guiado, num forte alerta pela defesa do património.Rui Ferreira sobre o projeto "Braga Desaparecida." O autor reflete sobre a destruição arquitetónica das últimas cinco décadas, apela à criação de um inventário municipal e antecipa a viagem guiada que, com o apoio de fotografias antigas, percorrerá os locais exatos dos edifícios perdidos no centro histórico de Braga. No sábado, 18 de julho, a cidade dos Arcebispos vive uma jornada inteiramente dedicada à memória do seu património arquitetónico perdido. O investigador e bracarólogo Rui Ferreira apresenta a obra “Braga Desaparecida”, uma compilação de crónicas que denuncia a destruição de monumentos ao longo dos séculos. O lançamento, marcado para as 15h30 na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, é antecedido por um percurso pedestre matinal, que arranca às 10h00 no Largo Carlos Amarante, pelos locais exatos onde outrora se ergueram os edifícios extintos, numa iniciativa que visa alertar a comunidade e o poder político para a urgência de classificar e proteger a identidade visual da mais antiga cidade portuguesa. O Resgate da Memória em mais de 60 Artigos A memória coletiva bracarense materializa-se agora em livro. Constituída por mais de seis dezenas de artigos, originalmente publicados na rubrica “Trilhos Bragueses” do jornal Diário do Minho, a obra evoca templos, portas da muralha, praças e equipamentos coletivos que sucumbiram à expansão urbana. Capa do livro A compilação destes textos nasceu de um gosto pessoal contínuo em investigar a história local. Como explica Rui Ferreira, o facto de “ter que escrever com regularidade obriga-me também a ir esburacando um bocadinho mais o meu conhecimento sobre Braga”. Ao transpor estes artigos da imprensa para o papel, o autor sublinha que “compilado em livro faz mais sentido, dá-se uma organização mais lógica”. O autor explica o foco temporal da obra e o impacto das perdas arquitetónicas mais recentes. “Vamos evocar principalmente monumentos, espaços e lugares que faziam parte da identidade de Braga, faziam parte do quotidiano bracarense, que foram desaparecendo ao longo do tempo.” Castelo de Braga De Perdas Seculares ao Fim do Bairro Araújo Carandá A viagem literária começa com demolições marcantes de séculos passados. No entanto, o livro não foge a perdas urbanísticas mais presentes na memória viva dos bracarenses. O desaparecimento do Bairro Araújo Carandá, em 1978, é um dos pontos altos da investigação. Sendo o único bairro operário construído no espaço urbano de Braga, Rui Ferreira descreve-o como um “exemplar único na história” da cidade, com “características muito claras” e um vincado “espírito comunitário”. Da mesma forma, são recordadas intervenções rodoviárias que apagaram a história, como o alargamento da Avenida da Liberdade que ditou o fim da antiga Igreja de São Lázaro (na foto abaixo). DR A destruição destes ícones e a falta de visão para salvaguardar espaços de vivência coletiva servem de mote para a vertente mais crítica da obra. O autor lamenta que a cidade não tenha sabido proteger os seus bairros com valor histórico e de interesse cultural, contrastando a inação local com o exemplo de Lisboa, onde vários bairros “já tem alguns protegidos, inclusive do ponto de vista patrimonial, porque de facto são relevantes”. É perante esta perda irreparável da identidade urbana que Rui Ferreira deixa o aviso aos sucessivos decisores políticos: “A cidade devia fazer um grande inventário dos edifícios relevantes, classificá-los como bem cultural de interesse municipal e assim estariam protegidos e salvaguardados em futuras urbanizações. Acho que isso nunca foi feito, nenhum executivo ainda o fez e era muito importante que fosse feito.” A crítica aberta aos sucessivos executivos e o apelo à criação de um inventário de salvaguarda O Antigo Paço do Concelho e a Porta da Ajuda, edifícios e passagens marcantes que sucumbiram ao planeamento e expansão de Braga Uma Viagem Guiada aos “Fantasmas” de Pedra Antes do lançamento oficial do livro, o dia 18 de julho começará com uma incursão no terreno. Pelas 10h00, no Largo Carlos Amarante, tem início um percurso pedestre com a duração de 90 minutos. Esta iniciativa de participação livre é promovida pela associação Braga Mais em parceria com a União de Freguesias de São Lázaro e São João do Souto. O investigador clarifica a dinâmica visual da visita: “Não vamos ver o que desapareceu. Vamos ver os sítios onde se implantava, vamos ver algumas fotos que eu vou levar”. O intuito, acrescenta Rui Ferreira, é que as pessoas consigam “perceber o que é que existia naquele sítio e perceber porque é que desapareceu, como é que nasceu e porque é que desapareceu”. O investigador clarifica a dinâmica visual da visita guiada pelas ruas do centro histórico Durante a caminhada, os participantes vão poder mapear na paisagem urbana atual o sítio exato onde se erguiam imponentes construções religiosas e infraestruturas civis que já não constam no mapa. O percurso traçado abrange as áreas mais fustigadas pelas demolições levadas a cabo nos séculos passados. Os históricos edifícios do Theatro de São Geraldo e Banco do Minho avivam a nostalgia pelas ruas do passado Apoiado nessas antigas imagens que funcionarão como janelas temporais, o roteiro arranca pelas áreas mais fustigadas do património local. Como antecipa Rui Ferreira, o grupo vai “lembrar o Convento dos Remédios, em primeiro lugar, depois o Castelo da Cidade, que estava ali ao lado”, seguindo depois os traços da muralha para evocar a Porta de São João e a Porta do Souto. A viagem no tempo prossegue pelas artérias principais, convidando os participantes a “recordar a Capela Santana, que estava implantada no centro da Avenida Central” e a imaginar “o Banco do Minho e o Teatro de São Geraldo, duas instituições fundamentais” do século XIX que moldaram aquela praça. Pelo caminho, haverá ainda espaço para redescobrir a Capela de Santo António dos Esquecidos e a Capela de Santo António da Praça. Um roteiro detalhado pelos “fantasmas” de pedra que outrora preenchiam o espaço urbano bracarense Ao chegarem ao Campo da Vinha, o bracarólogo salienta que irão lembrar “ainda o Seminário de São Pedro, que foi um dos edifícios mais vastos da cidade”, bem como a Capela da Senhora do Amparo e os antigos Paços do Concelho. Na reta final, a evocação centra-se nos históricos locais de abastecimento. Além do antigo mercado municipal, Rui Ferreira destaca “o mercado do peixe, que foi demolido já há quase 100 anos, mas que estava na Praça do Comércio”. O icónico Passeio Público A jornada histórica culmina às 15h30, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, com a apresentação pública da obra. A cargo do lançamento estará Luís Tarroso Gomes, autor do prefácio do livro. A obra é editada pelo Ponto Braguez com artes gráficas de Ana Amorim, e estará à venda nas livrarias da cidade. Embora profusamente ilustrado com fotografias antigas e postais cedidos pela ASPA e pela fototeca do Museu Nogueira da Silva, o investigador não deixou de expressar o seu desagrado quanto ao acesso a arquivos municipais: “Lamento pela Câmara Municipal de Braga não ter dado resposta às fotos que eu solicitei para este livro. Portanto, acho pena, porque como cidadão tenho o direito a aceder a elas”, atirou o autor. Ainda assim, o projeto contou com o apoio institucional de entidades como a DST, Santa Casa da Misericórdia de Braga e União de Freguesias de São Lázaro e São João do Souto. E para quem acompanha o trabalho de Rui Ferreira, fica a promessa de que as investigações não ficam por aqui, revelando já ter alinhados os textos para o seu próximo livro: “A Braga Maldita”.