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BEN, O MICROCARRO PORTUGUÊS QUE QUER GANHAR ESPAÇO NAS CIDADES

Público

2026-07-17 06:00:04

Criado pelo Ceiia, o Ben estreia-se nos aeroportos de Lisboa e do Porto com a Lufthansa e aposta numa arquitectura digital para baixar custos e emissões Nas cidades europeias, o espaço encolhe à medida que os automóveis crescem. Há ruas estreitas para carros cada vez maiores, mais tempo perdido no trânsito e demasiada energia gasta a transportar, quase sempre, uma só pessoa. É neste cenário que surge o Ben, um microcarro eléctrico desenvolvido pelo Ceiia, em Matosinhos. O projecto prepara-se para sair da fase de desenvolvimento e entrar na industrialização. No Ceiia, a ideia é apresentada como uma resposta prática à transformação das cidades. Se os centros urbanos caminham para velocidades mais baixas, restrições crescentes à circulação e novos modelos de uso, então também o carro terá de mudar de natureza. Para Helena Silva, directora de tecnologia do Ceiia, essa mudança abre espaço a uma categoria de veículos que, até aqui, foi muitas vezes tratada como periférica. “Os microcarros são uma oportunidade importante. Porque as cidades em toda a Europa estão a exigir cada vez velocidades menores”, disse ao PÚBLICO. Essa é a premissa central do Ben. Mais do que um automóvel eléctrico em miniatura, o Ceiia quer fazer dele uma plataforma de mobilidade para trajectos curtos, repetidos e controlados. Pode servir municípios, operadores de frotas, condomínios, parques empresariais ou recintos fechados. A ambição não está em disputar o imaginário do carro particular tradicional, mas em criar um veículo prático, adaptável a diferentes serviços e utilizadores. A história por trás do Ben é mais longa do que o lançamento agora sugere. O Ceiia acumulou, ao longo de duas décadas, experiência em engenharia automóvel e em mobilidade, com vários projectos que nem sempre chegaram ao mercado. “O que o tornou possível foi a nossa persistência em virmos a desenvolver e a industrializar um veículo a partir de Portugal”, diz Helena Silva. E acrescenta, sem romantizar esse percurso: “Nós já enterrámos e desenvolvemos vários projectos para chegar até aqui.” Tecnologia na nuvem O Ben mede 2,5 metros de comprimento por 1,5 de largura, tem velocidade máxima de 65 km/h e autonomia variável entre 100 e 200 km, consoante use uma ou duas baterias. São números que o colocam no universo dos microcarros, pensados para percursos de proximidade e estacionamento fácil. Mas, para o Ceiia, o traço mais distintivo do projecto é a arquitectura tecnológica. Em vez de concentrar toda a tecnologia no veí- culo, o Ben desloca uma parte importante dessa camada para a nuvem. A opção procura simplificar a componente física, reduzir custos e tornar o sistema mais fácil de actualizar sem obrigar a redesenhar o veículo de cadavezqueo software evolui.“A tecnologia está fora do carro”, resume Helena Silva. “O Ben não será mais caro do que o Ami ou o Topolino, mas toda a camada de inteligência está fora, exactamente para reduzir os custos e poder ser evolutivo ao longo do tempo e se adaptar a qualquer serviço de mobilidade e a qualquer forma de uso.” Na prática, isso traduz-se num veículo ligado à rede móvel, com conectividade desenvolvida com a Nos, e sem chave mecânica convencional. O acesso é feito através de uma chave digital segura no telemóvel do utilizador. Se houver falha de cobertura, o sistema pode recorrer ao Bluetooth. Para uma frota, é um ganho operacional evidente. Num aeroporto, num condomínio ou numa empresa, a dis-tribuição e circulação de chaves físicas é um problema logístico que o Ben tenta eliminar. É precisamente num ambiente desses que será primeiro posto à prova. A Lufthansa Ground Services Portugal, que faz assistência em terra nos aeroportos nacionais, vai testar o microcarro nos aeroportos de Lisboa e do Porto. A empresa procurava reduzir emissões nas suas operações terrestres e viu no Ben uma resposta natural. “Soubemos da existência do Ben e, de imediato, achámos que isto seria o carro ideal para as operações de terra nos aeroportos portugueses”, afirma Paulo Geisler, director executivo da empresa. A utilização prevista inclui supervisão de rampa, deslocações entre aeronaves, zonas de carga, bagagens e mercadorias. São trajectos curtos, em áreas controladas, onde a autonomia de um microcarro chega e onde a dimensão reduzida pode ser uma vantagem. “Estamos sempre à procura de startups portuguesas. Já criámos vários produtos para a aviação com startups portuguesas e achámos que este Ben responde ao que procuramos: é sustentável, temos o talento português, a engenharia portuguesa”, diz Paulo Geisler. Se os testes correrem bem, o Ben poderá ser alargado a outras operações aeroportuárias e a futuros espaços industriais da Lufthansa em Portugal. Mas o Ceiia quer ir mais longe do que as pistas. O veículo está a ser pensado para redes de partilha urbana, operações municipais e soluções de proximidade em bairros ou condomínios. A componente ambiental também não se esgota no facto de ser eléctrico. O Ben integra um sistema de monitorização da pegada carbónica assente numa plataforma digital desenvolvida pelo Ceiia. A ideia é contabilizar as emissões associadas ao ciclo de fabrico e permitir que o utilizador acompanhe as emissões evitadas ao longo do uso. “O nosso objectivo é que todo o utilizador tenha consciência da pegada carbónica que aquele veículo teve até chegar à sua mão e ao seu uso”, explica Helena Silva. O produto final deverá ter mais de 70% de incorporação europeia. A montagem em volume está prevista para Turim, nas linhas da Cecomp, onde é produzido o Microlino, numa decisão que procura aproveitar capacidade industrial existente. Em Portugal ficarão componentes importantes, como a montagem das baterias, painéis exteriores e interiores e módulos electrónicos. O objectivo é chegar à produção em larga escala em 2027, com um preço entre 8000 e 10.000 euros, quando o volume ultrapassar as 5000 unidades anuais. Pelo menos numa primeira fase, o Ben não deverá ser vendido como carro individual. O Ceiia aponta antes para subscrições e parcerias com municípios, operadores de frota, condomínios e instituições. Entre o aeroporto e a cidade, o Ben ainda tem de provar que o modelo funciona fora dos laboratórios. Mas já sugere um caminho possível para a mobilidade urbana: menos carro, mais serviço; menos posse, mais uso; menos excesso, mais adequação. “O que o tornou possível foi a nossa persistência em virmos a desenvolver um veículo a partir de Portugal” DR O Ben é um veículo eléctrico para dois passageiros Sérgio Magno