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REGULAR A IA OU REINVENTAR O ENSINO? A NOVA PERGUNTA DA UNIVERSIDADE

Observador Online

2026-06-22 22:52:04

A IA na universidade não é apenas uma ferramenta de produtividade, mas uma tecnologia que toca a justiça, a autonomia, a avaliação e o futuro dos estudantes. Vale a pena ir às aulas como escrevi no início de junho. A resposta continua a ser esta, quase austera, quase antiga, mas agora precisa de ser dita com uma nova gravidade. Defendi que a aula não é apenas transmissão de conteúdos: é presença, pertença, atenção partilhada, disciplina intelectual e formação humana. Essa ideia deve permanecer como ponto de partida, porque a universidade não é um armazém de ficheiros nem uma sucessão de tarefas submetidas numa plataforma; é uma comunidade onde se aprende a pensar com outros. A evolução e adoção generalizada da inteligência artificial generativa veio tornar esta discussão mais urgente. Se antes já era possível faltar e recuperar parte dos materiais através do Moodle, de vídeos ou de apontamentos, hoje é possível pedir a um sistema de IA que explique, resuma, traduza, programe, compare, argumente e até simule uma resposta académica. A ausência ficou mais confortável. Mas o conforto, em educação, nem sempre é sinónimo de progresso. Há aprendizagens que exigem demora, fricção, escuta, reformulação e contacto com a dificuldade. Uma máquina pode oferecer uma resposta, mas uma aula bem construída pode ensinar o estudante a merecê-la. A mudança já não é marginal. No Reino Unido, o estudo da HEPI publicado em 2025 indicou que a percentagem de estudantes que dizia usar alguma ferramenta de IA passou de 66% em 2024 para 92% em 2025; o mesmo relatório assinala que muitos estudantes usam IA para gerar texto, editar trabalhos e apoiar atividades de estudo. O Digital Education Council, num inquérito internacional de 2024, reportou que 86% dos estudantes usavam IA nos seus estudos e que 54% a usavam pelo menos semanalmente. Estes números dizem-nos algo simples: a pergunta já não é se os estudantes usam IA. Usam. A pergunta decisiva é se a usam para aprender melhor ou para atravessar a universidade com menor contacto com o próprio ato de aprender. As universidades de referência perceberam que não basta responder com medo ou entusiasmo. Oxford afirma que qualquer uso não autorizado de IA em trabalho submetido para avaliação constitui fraude e plágio segundo as regras da instituição, podendo ter sanções graves; ao mesmo tempo, a própria universidade disponibiliza orientações sobre utilização segura e responsável. Cambridge declara que o uso de conteúdo gerado por IA numa avaliação sumativa, sem reconhecimento e como se fosse trabalho próprio, constitui má conduta académica, salvo indicação explícita em contrário. Stanford recomenda que, na ausência de uma orientação clara do docente, o uso de IA generativa seja tratado como ajuda de outra pessoa; acrescenta ainda que os estudantes devem reconhecer esse uso sempre que não seja meramente incidental. A UCL oferece uma das abordagens mais pedagógicas, ao organizar a utilização de IA em três categorias: situações em que a IA não pode ser usada, situações em que pode ter um papel de assistência e situações em que faz parte integrante da avaliação. Harvard, por sua vez, recomenda que os docentes explicitem de forma clara, nos programas das unidades curriculares, como a IA pode ou não pode ser usada, em vez de deixarem os estudantes presos a zonas cinzentas de interpretação. O MIT vai ainda mais longe no plano pedagógico, ao sugerir que os docentes redesenhem objetivos, avaliações e atividades considerando as capacidades da IA, a equidade no acesso, a privacidade e a necessidade de tornar explícitas as expectativas de uso. Deste conjunto de políticas emerge um padrão comum. As universidades mais fortes não estão apenas a escrever regulamentos para proibir ou permitir. Estão a tentar reconstruir a confiança. Essa confiança exige clareza, transparência, responsabilidade, proteção de dados, justiça no acesso e avaliação mais autêntica. Exige que o estudante saiba quando pode usar IA, como deve declarar esse uso e que responsabilidade mantém sobre o trabalho entregue. Exige, também, que o professor deixe de imaginar que pode avaliar da mesma forma num mundo em que uma ferramenta digital produz, em segundos, textos fluentes, código funcional, resumos convincentes e respostas aparentemente sofisticadas. A UNESCO defende que a IA generativa em educação deve ser regulada e usada a partir de uma visão centrada no ser humano, com atenção à inclusão, à equidade, à diversidade linguística e cultural, à proteção de dados e ao desenvolvimento de capacidade institucional. O AI Act europeu confirma que a educação é uma área sensível: sistemas de IA usados para determinar acesso, admissão, avaliação de resultados de aprendizagem ou monitorização de comportamentos em testes podem ser classificados como sistemas de alto risco, precisamente porque podem influenciar o percurso educativo e profissional das pessoas. A mensagem é clara, a IA na universidade não é apenas uma ferramenta de produtividade, mas uma tecnologia que toca a justiça, a autonomia, a avaliação e o futuro dos estudantes. Fernando Moreira Professor Catedrático, Universidade Portucalense Fernando Moreira