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FORÇA AÉREA - F-35, GRIPEN OU EUROFIGHTER? A BATALHA EURO-ATLÂNTICA PELA SUBSTITUIÇÃO DOS F-16

Público

2026-06-08 06:00:15

F-35, Gripen ou Euro ghter? A batalha euro-atlântica pela renovação dos F-16 Entre a geopolítica e as promessas de impulso industrial, eis os argumentos dos principais candidatos A escolha do sucessor dos velhinhos F-16 nacionais obedecerá também a critérios gepolíticos, reiterou há dias o ministro da Defesa, Nuno Melo, após a Força Aérea Portuguesa (FAP) ter voltado a insistir que há só uma solução: o F-35 da norteamericana Lockheed Martin. “Neste momento todas as opções são opções: americanas, francesas, suecas ou opções de consórcio”, declarou Melo ao Expresso, depois de João Caldas, vice-chefe do EstadoMaior da FAP, ter afirmado numa conferência no Estoril a 28 de Maio, como noticiou o PÚBLICO, que “a adaptação ao F-35 irá permitir a integração num vasto ecossistema dos aliados, melhorar a dissuasão, a interoperabilidade e o acesso a conhecimento operacional”. O processo formal de decisão “ainda não começou” e “é da tutela”, respondeu o ministro da Defesa no dia seguinte. “Há um conjunto de circunstâncias que temos que ter em conta. O que se pretende, faz-se na Europa ou não se faz na Europa? Do ponto de vista da protecção dos nossos militares em situação de combate, o que protege melhor? Letalidade: o que é que é mais efi# caz? Incorporação de tecnologia e participação da base tecnológica. Tudo isto será tido em conta”, declarou entretanto ao Expresso. Já há um ano, Melo admitia ao PÚBLICO comprar caças europeus a par do avião norte-americano. Não estão assim afastados, pelo menos, outros dois candidatos: o Gripen E/F da sueca Saab e o Eurofighter Typhoon do consórcio liderado pela Airbus. A opção “francesa” referida por Melo é um quarto avião, o Rafale da Dassault. A empresa, no entanto, está desaparecida em combate, não tendo seguido as pisadas da Saab, Airbus e Lockheed na celebração de acordos exploratórios com a indústria portuguesa ou posto em marcha qualquer campanha de relações públicas. A substituição dos F-16 é portanto, e de momento, uma corrida a três na qual importa recapitular os ar-gumentos dos concorrentes a um negócio que rondará 2% do PIB português. Con ito geracional Com um valor estimado em 5 mil milhões de euros ao longo de dez anos para 27 aeronaves, o F-35 é o único caça de quinta geração na disputa. De desenho furtivo, quase invisível para os radares actuais, podendo ocultar o armamento no interior da fuselagem, beneficia da tecnologia de fusão de sensores, que processa algoritmicamente os dados recolhidos pelo aparelho para reduzir o tempo de decisão do piloto. Um estudo interno da FAP, noticiado pelo Expresso em Maio, coloca o F-35 à frente da concorrência entre 20 critérios técnicos como a letalidade, sobrevivência, furtividade ou conectividade. O Gripen E/F da Saab surge em segundo lugar, à frente do Eurofighter e do Rafale. Uma análise do Departamento de Defesa do Canadá, outro país dividido entre juntar ou não o caça sueco ao norte-americano na renovação da sua frota, colocava em 2021 o F-35 também à frente do Gripen E/F. Já voltaremos ao Canadá. A Saab diz bater a concorrência com um custo ao longo do ciclo de vida do aparelho dois terços menor, que decorre em parte de uma taxa de disponibilidade (ou seja, de quantos aviões estão disponíveis a dado momento, e não em manutenção) de 80 a 90%, que será o dobro dos seus competidores. Outro argumento dos escandinavos está no carácter aberto e evolutivo do software do Gripen E/F: os suecos comparam a plataforma a uma “loja de aplicações” de um telemóvel, tendo já testado a integração de inteligência artificial (IA) na navegação e combate aéreo, por oposição ao sistema fechado e controlado pelos norte-americanos do F-35. Esta carac-terística leva a Saab argumentar que o Gripen E/F, que o sector coloca na geração “quatro e meio” dos caças, transpõe essa escala, e que garante a soberania operacional e de dados dos seus clientes. A Lockheed, que nega a teoria de que Washington detém um mecanismo, um kill switch, para travar remotamente a utilização dos aparelhos, diz que disponibiliza todos os dados e capacidades operativas aos países que escolhem o F-35 e que os envolve nos processos de actualização. A empresa contrapõe ainda que a evolutividade prometida pela Saab esbarra nos limites físicos do caça sueco, que não é inerentemente furtivo. A Airbus, por seu turno, apresenta o Eurofighter Typhoon como um bimotor (o único entre os três) de grande agilidade, velocidade e capacidade bélica, e de alcance extenso que o torna ideal para patrulhar o Atlântico. O caça, apesar de enquadrado na geração “quatro e meio”, é vendido como “uma ponte para futuros sistemas de combate aéreo de sexta geração”. Tal como a Saab, a Airbus diz que a sua plataforma é uma solução “soberana”, “europeia” e “sem caixas negras”. O teste iraniano A ampla adopção do F-35 por países da NATO é um dos argumentos da Lockheed que a FAP refere. Até 2035, haverá cerca de 700 aparelhos no continente europeu, entre 12 membros da Aliança Atlântica, para além dos EUA e do Canadá. O F-35 está testado em combate real, mais recente na guerra do Irão, integrando também a Força Aérea de Israel. O conflito expôs, por outro lado, o caça furtivo aos seus limites: pelo menos um F-35 foi atingido, embora sem perda total. Essa adopção não decorre, contudo, sem percalços. No Canadá, os custos da aquisição de 88 aeronaves decidida em 2022, ainda por Justin Trudeau, dispararam cerca de 50% nos três anos seguintes, segundo uma auditoria nacional, e o regresso à Casa Branca de Donald Trump, que imediatamente abriu um conflito económico e diplomático com o vizinho do Norte, levou Otava a reponderar, já com Mark Carney no poder, a sua dependência face aos F-35. Este sábado, a televisão canadiana CBC noticiou que Otava pondera agora a compra simultânea do F-35 e do Gripen E/F. Na Suíça, o Governo respondeu a uma subida, por Washington, do preço inicialmente acordado por 36 F-35 (6,5 mil milhões de euros) com a redução da encomenda para 30 caças. O Gripen E/F vai ter o seu verdadeiro baptismo de fogo, nos próximos meses, na Ucrânia. Kiev vai adquirir 20, podendo o negócio final envolver 150 aeronaves. Será o derradeiro teste para um avião idealizado para resistir em modo de guerrilha a uma força invasora, podendo aterrar e deslocar em estradas rurais e ser reabastecido e rearmado em menos de 15 minutos. Até aqui, o historial do Gripen limitava-se sobretudo a missões de policiamento aéreo, com a excepção do recente conflito entre a Tailândia e o Camboja. Os maiores operadores do Gripen na versão E/F, a que está em cima da mesa para Portugal, são a própria Suécia e o Brasil. O Eurofighter, por seu turno, é operado pelo Reino Unido, Alemanha, Áustria, Itália, Espanha, Arábia Saudita, Kuwait, Omã e Qatar, com a Turquia prestes a entrar no programa. Sobretudo através da Força Aérea britânica, adquiriu experiência de combate nos céus da Líbia e Médio Oriente. Ao PÚBLICO, a Airbus realçou a utilização espanhola do Eurofighter como uma vantagem para Portugal, com os dois países a poderem partilhar recursos e utilizar a mesma plataforma para patrulhar o seu espaço atlântico. As propostas industriais A Saab é a única concorrente que admite a montagem parcial do seu caça em Portugal. Os suecos já compram componentes nacionais e estão a colaborar com a Critical Software no campo da simulação e IA. Os escandinavos apontam o modelo de colaboração e transferência de tecnologia operado com o Brasil, onde também se fabrica o Gripen E/F. A Embraer é a parceira brasileira da Saab e é sócia maioritária da OGMA portuguesa, que os suecos querem integrar, a par de outras entidades nacionais, no seu programa. A Airbus diz ao PÚBLICO de forma conservadora que a montagem depende “dos volumes envolvidos”. Ou seja, que a encomenda portuguesa não deverá atingir o limiar de viabilidade de uma linha de montagem do Eurofighter. Mas a gigante europeia sublinha a possibilidade de alargar à defesa a presença que já tem em Portugal, onde emprega 1700 trabalhadores, e de envolver o país “numa integração de longo termo numa cadeia europeia e global de abastecimento”. O consórcio também está em contacto com empresas nacionais como o CEiiA, a Critical, a Tekever ou a OGMA. Sem sequer referir a possibilidade montagem do F-35 em Portugal, a Lockheed diz ter na manga “uma lista muito robusta de projectos”, tendo identificado “16 potenciais” parcerias em áreas como a IA, a autonomia ou a vigilância marítima, e abordado entidades como a OGMA, a Critical, a Tekever ou a EID, entre outras. Fontes da indústria nacional dizem ao PÚBLICO que, mais do que a entrada portuguesa na cadeia de produção de uma plataforma tendencialmente mais fechada como o F-35, a Lockheed acena com o potencial de colaboração com outras divisões daquele gigante norte-americano. A Europa, o Atlântico, ou as duas dimensões em simultâneo? Com a decisão de substituição dos F-16, Portugal regressa a um dilema perene, agora intensificado pelo cisma entre Washington e os aliados europeus. “Escolher o Eurofighter significa que o investimento permanece dentro da base industrial de defesa europeia”, disse ao PÚBLICO Iván González Expósito, responsável pela campanha da Airbus em Portugal. A Saab argumenta que o Gripen E/F é uma solução europeia que explora sinergias com outro aliado atlântico, o Brasil. A Lockheed, que sublinha uma relação de mais de cinco décadas com a FAP, diz que o F-35 já é “25% europeu” em termos de componentes. Há um ano, Nuno Melo afirmava que “o mundo já mudou” e que o regresso de Trump tinha introduzido outra variável no processo. Quanto mudou desde então? Em cima, o F-35 da Lockheed Martin em pleno voo e o Gripen E/F da sueca Saab. À direita, o Eurofighter Typhoon Até 2035, haverá cerca de 700 aparelhos F-35 no continente europeu, entre 12 membros da Aliança Atlântica, para além dos EUA e do Canadá Pedro Guerreiro