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EMPREGO EM PORTUGAL COM DESAFIOS SALARIAIS E DEMOGRÁFICOS, EXPÕE RELATÓRIO

Human Resources Portugal Online

2026-06-01 12:13:12

Um novo relatório sobre o mercado de trabalho português conclui que Portugal enfrenta problemas estruturais que estão a comprometer a capacidade das empresas recrutarem trabalhadores, aumentarem a produtividade e sustentarem o crescimento económico Ouça este artigo em formato áudio O estudo, coordenado pelo laboratório colaborativo CoLABOR em parceria com empresas como Sonae, Mota-Engil, DST Group e ConfMinho e apresentado no final de Maio, identifica dificuldades no crescimento da força de trabalho, desajustamentos entre qualificações e necessidades das empresas, envelhecimento demográfico, salários baixos e fragilidades nas políticas de integração de imigrantes. O documento, intitulado “Emprego em Portugal: Diagnóstico e Recomendações de Política Pública e Estratégias Empresariais”, parte das dificuldades de recrutamento sentidas pelas empresas e analisa três áreas consideradas centrais: competências e qualidade do emprego, movimentos migratórios e políticas fiscais relacionadas com o trabalho. Envelhecimento e emigração estão a reduzir a força de trabalho O relatório alerta que o envelhecimento da população portuguesa e a redução da natalidade estão a limitar o crescimento da força de trabalho disponível. Em 2022, Portugal registava uma idade média de 46,8 anos, a segunda mais elevada da União Europeia, sendo também o país onde este indicador mais aumentou na última década. Ao mesmo tempo, o país continua a perder trabalhadores para o estrangeiro. Apesar do abrandamento observado após a pandemia, Portugal mantém-se como um dos países europeus com maior proporção de emigrantes face à população residente. Em 2022, terão saído do país cerca de 70 mil emigrantes, muitos deles jovens qualificados à procura de salários mais elevados e melhores perspectivas de carreira. Continue a ler após a publicidade Segundo o relatório, áreas como Engenharia e Informática apresentam uma elevada propensão para a emigração, o que representa uma perda significativa para o tecido produtivo nacional, sobretudo tendo em conta o investimento público e privado realizado na formação destes profissionais. Imigração ajuda economia, mas persistem problemas de integração A imigração tem desempenhado um papel essencial na compensação do envelhecimento demográfico e da saída de trabalhadores portugueses. Actualmente, os imigrantes representam cerca de 10% da força de trabalho em Portugal. Continue a ler após a publicidade Ainda assim, o estudo conclui que persistem obstáculos importantes à integração dos trabalhadores migrantes. Entre os principais problemas identificados estão a burocracia nos processos de regularização, a dificuldade no reconhecimento de qualificações obtidas no estrangeiro, falhas de acesso à informação e insuficiência de recursos humanos e tecnológicos nos serviços responsáveis pela gestão migratória. O relatório alerta ainda para situações de sobrequalificação, salários mais baixos e maior precariedade entre trabalhadores estrangeiros, sobretudo em sectores como construção civil, turismo, restauração, limpezas e agricultura. Os investigadores defendem que Portugal precisa de políticas mais eficazes de atracção e retenção de trabalhadores imigrantes, mas também de medidas capazes de fixar trabalhadores portugueses e travar a saída de jovens qualificados. Empresas enfrentam falta de competências e dificuldades no recrutamento Apesar da taxa de desemprego relativamente baixa, as empresas continuam a relatar dificuldades no recrutamento de trabalhadores, sobretudo em áreas técnicas e industriais. Continue a ler após a publicidade O estudo identifica um “mismatch” persistente entre as qualificações da população activa e as necessidades do mercado de trabalho. Embora Portugal tenha registado uma forte subida das qualificações superiores nas últimas duas décadas, continua simultaneamente a apresentar uma das maiores percentagens de trabalhadores com baixos níveis de escolaridade na União Europeia. Em 2023, mais de 41% da população entre os 15 e os 64 anos tinha, no máximo, o ensino básico, enquanto apenas 27,1% possuía formação superior. Entre os jovens dos 25 aos 34 anos, a percentagem com ensino superior subiu de 16,7% em 2003 para 41,5% em 2023. Ainda assim, os autores sublinham que o país mantém um défice de técnicos intermédios e profissionais especializados, agravado pela imagem ainda pouco valorizada do ensino profissional. Jovens e trabalhadores mais velhos continuam subaproveitados O relatório conclui também que existe uma significativa subutilização da população activa potencial. Os jovens continuam a enfrentar dificuldades de entrada no mercado de trabalho, enquanto muitos trabalhadores mais velhos permanecem subaproveitados. Em 2023, a taxa de desemprego jovem atingia os 20,3%, acima da média europeia. Os investigadores destacam ainda o número elevado de jovens que não trabalham nem estudam e alertam para o facto de cerca de metade dos jovens desempregados não estar inscrita nos centros de emprego. Segundo o documento, a entrada tardia dos jovens no mercado de trabalho pode comprometer carreiras futuras, reduzir contribuições para a Segurança Social e aumentar riscos de pobreza e exclusão social. Ao mesmo tempo, os trabalhadores com mais de 55 anos têm vindo a permanecer mais tempo no activo, mas o relatório considera necessário reforçar políticas de requalificação e adaptação às transições digital e verde. Produtividade baixa continua a travar salários Outro dos problemas estruturais apontados é a fraca relação entre produtividade e salários. Portugal continua abaixo da média europeia em produtividade e concentra grande parte do emprego em sectores de baixo valor acrescentado. Os autores alertam que esta realidade limita o crescimento salarial sustentável, reduz o incentivo à qualificação e dificulta a atracção de investimento em inovação. A falta de progressão salarial, acrescentam, contribui para a precariedade e para a saída de trabalhadores jovens e qualificados. Embora a desconexão entre produtividade e salários tenha diminuído desde 2018, o relatório defende que Portugal precisa de acelerar a transformação da sua estrutura produtiva e apostar em sectores mais competitivos. Fiscalidade e Segurança Social também entram no diagnóstico Na componente fiscal, o relatório refere que os benefícios fiscais criados para promover emprego têm tido eficácia reduzida e pouco impacto estrutural no mercado de trabalho. Os investigadores destacam ainda que o chamado “tax wedge” - diferença entre o custo total do trabalho para a empresa e o rendimento líquido recebido pelo trabalhador - continua elevado em Portugal, apesar de ter descido ligeiramente em 2024. Já no que diz respeito à Segurança Social, o documento considera que o sistema permanece globalmente equilibrado no curto e longo prazo, muito devido ao aumento do emprego e dos salários. Ainda assim, alerta para pressões futuras associadas ao envelhecimento demográfico e às mudanças estruturais na economia. Áreas prioritárias de intervenção O estudo apresenta cinco recomendações principais para responder aos problemas identificados no mercado de trabalho português. Entre as prioridades estão a valorização do ensino profissional, o reforço de programas de formação ligados à transição digital e verde, a integração multifacetada de imigrantes, a reconversão da estrutura produtiva para sectores de maior valor acrescentado e o reforço da literacia fiscal. Os autores defendem ainda uma governação “colaborativa e multinível”, envolvendo Governo, empresas, sindicatos, serviços públicos de emprego, escolas, autarquias e entidades ligadas às migrações. Segundo o relatório, só através de uma estratégia integrada será possível reduzir dificuldades de recrutamento, melhorar salários, reforçar qualificações e garantir uma força de trabalho suficiente e sustentável para responder aos desafios económicos do país.