ANÁLISES NOS HOSPITAIS AMEAÇAM LABORATÓRIOS NO INTERIOR DO PAÍS
2026-05-27 21:09:15

Laboratórios estão a fechar e situação é mais grave no Interior Há 73 concelhos sem qualquer estabelecimento a fazer análises clínicas em acordo com o SNS. Alentejo tem a menor cobertura rita.n.costa@jn.pt SAúDE Os processos de internalização de análises clínicas e de exames pelas unidades locais de saúde (ULS) está “deteriorar” a atividade de estabelecimentos privados, como laboratórios ou unidades de diagnóstico, que prestam o mesmo serviço para o SNS. A denúncia feita POT duas associações do setor diz que estão em causa os direitos de acesso e de liberdade de escolha dos utentes, em particular no Interior. Segundo a Entidade Reguladora da Saúde (ERS), há 73 concelhos sem oferta convencionada na área das análises: quase metade na região do Alentejo. “A dada altura, não sabemos bem quando, mas ao abrigo do PRR [Plano de Recuperação e Resiliência], algumas ULS deci-diram começar a adquirir equipamentos. Agora, têm de justificar o investimento”, aponta Nuno Castro Marques, diretor-geral da Associação Nacional de Laboratórios Clínicos. De acordo com o responsável associativo, em algumas ULS, que englobam os centros de saúde e os hospitais, a internalização dos meios complementares de diagnóstico e terapêutica é "total", isto é, “deixou de haver possibilidade de prescrever para o exterior”. Em novembro, numa análise ao setor convencionado de análises clínicas, a ERS apontava para uma redução dos laboratórios com convenção (que prestam cuidados de saúde em acordo com o SNS) entre 2023 e 2024. Passaram de 990 estabelecimentos convencionados para 763. A reguladora salientou haver73 concelhos sem oferta con-vencionada: 31 eram õno Alentejo, 18 õno Norte, 12 õno Centro, seis õno Algarve e seis em Lisboa e Vale do Tejo. “Concluiu-se que o tempo de deslocação até um concelho com unidade(s) convencionada(s) variava entre 12 minutos (na região de saúde do Norte) e uma hora e 17 minutos (na região do Algarve)”, lê-se no relatório da ERS. Nuno Castro Marques afirma que, “sem previsibilidade económica”, há laboratórios e unidades de diagnóstico a fechar as portas ou a ser adquiridos POr “grupos económicos maiores”. “As ULS não percebem que em zonas do Interior ou menos populosas estão a destruir a rede convencionada sem qualquer tipo de justificação”, acrescenta. EVIDENCIA DE POUPANçA Também Eduardo Moniz, presidente da Associação Nacional de Unidades de Diagnóstico pOT Imagem, atenta que com "60% a 70%” dos clientes do setor convencionado a virem do SNS, alguns estabelecimentos “não têm como continuar”: “Simplesmente deixam de existir”. Já António Luz Pereira, vice-presidente da Associação Portuguesa de Medicina Gerale e Familiar, lembra que o conceito de ULS, que junta centros de saúde e hospitais sob uma só gestão, foi criado precisamente para que as análises e os exames fossem cada vez mais feitos internamente, isto é, dentro do SNS. Por seu lado, André Biscaia, presidente da Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar, defende que a realidade difere no país. Da mesma forma que há ULS a “tentar internalizar” análises e exames, outras tantas assistem a “grandes atrasos” na resposta do setor convencionado. Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, diz que cada ULS decide o “que é aceitável internalizar” e, caso estejam a fazê-lo, é porque “têm evidências de que é mais barato”. Unidades públicas investem em meios de diagnóstico próprios para poupar nas convenções com setor privado P. 18 INVESTIMENTO Aposta em centros de diagnóstico integrado Várias unidades locais de saúde (ULS), em colaboração com as autarquias, têm apostado na criação de centros de diagnóstico integrado, com o objetivo de reforçar a proximidade e a resposta do SNS. SàO OS casos das ULS de Gaia/Espinho, do Médio Ave e da Região de Leiria. o presidente da Associação Nacional de Unidades de Diagnóstico POr Imagem diz que estas infraestruturas estão a “ser criadas sem necessidade”, porque há resposta no setor convencionado. SABER MAIS Espera Cerca de I9% das ULS mantêm o utente na lista de espera para a realização de exames, mesmo que não exista resposta atempada. Internalização OJN questionou a Direção Executiva sobre a internalização de exames e análises, mas não obteve resposta em tempo útil. das ULS sem vias de acesso para prescrever exames para o setor convencionado, diz a ERS. No Algarve, pode demorar-se até uma hora e 17 minutos para chegar a uma unidade convencionada Rita Neves Costa