pressmedia logo

INFEÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS AUMENTAM NA EUROPA: “TODOS NÓS PODEMOS TER UMA IST, INDEPENDENTEMENTE DO NÚMERO DE PARCEIROS SEXUAIS”

SIC Notícias Online

2026-05-26 21:06:11

Em toda a Europa, o número de Infeções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) tem vindo a aumentar de forma consistente, ao mesmo tempo que o uso do preservativo diminui. E Portugal não é exceção. Os motivos prendem-se com um menor receio de contrair HIV. No podcast O Prazer é todo Meu, Mafalda Cruz conversa com a médica Margarida Graça Santos sobre aquilo que ainda não sabemos (ou fingimos não saber) quando falamos de ISTs Os motivos prendem-se com um menor receio de contrair HIV, falta de educação sexual entre os jovens ou fatores sociais como pressão e estigmas. Mas é um erro associar as ISTs exclusivamente aos jovens. Hoje sabemos que estas infeções afetam pessoas em diferentes fases da vida, e que os comportamentos de risco não estão necessariamente ligados à idade. Falar de ISTs é também reconhecer que fomos pouco preparados para lidar com os rastreios, a prevenção e a comunicação em torno da saúde sexual. As IST não dão sempre sintomas, e esse é parte do problema Uma das grandes dificuldades no controlo das infeções sexualmente transmissíveis é o facto de muitas serem assintomáticas. Clamídia, gonorreia, sífilis ou mesmo o Vírus da Imunodeficiência Human (VIH) podem estar presentes durante meses ou anos sem sinais evidentes. Isso significa que uma pessoa pode ter uma infeção, transmiti-la a outros e não saber. Na prática clínica, as infeções mais frequentemente identificadas continuam a ser o HPV (Vírus do Papiloma Humano), a clamídia, a gonorreia e o herpes genital. Este último, apesar de muito comum, continua a ser pouco falado. Muitas pessoas desconhecem que o mesmo vírus que causa herpes oral pode manifestar-se na região genital, muitas vezes com dor significativa. Carol Yepes Diagnóstico tardio também acontece Apesar dos avanços enormes no tratamento do VIH, continuam a existir diagnósticos tardios, já em fases avançadas da infeção. Isto acontece não por falta de meios, mas por falhas no acesso, na comunicação e na perceção de risco. Hoje, o VIH é uma doença crónica controlável, com pessoas em tratamento a atingirem cargas virais indetetáveis e, por isso, intransmissíveis. Existe também a PrEP (profilaxia pré-exposição) uma medicação altamente eficaz na prevenção da infeção em pessoas com maior risco. Ainda assim, o desconhecimento sobre a PrEP é grande e, mais importante, esta não protege contra outras IST, o que pode criar uma falsa sensação de segurança e contribuir para o abandono do preservativo Boy_Anupong O HPV: frequente, estigmatizado e muitas vezes mal compreendido O HPV merece um capítulo à parte. Estima-se que 80 a 90% da população tenha contacto com o vírus ao longo da vida. Um teste positivo não significa cancro, nem comportamento de risco, nem falha pessoal. Na maioria dos casos, o sistema imunitário elimina o vírus espontaneamente. O rastreio existe precisamente para identificar os casos raros em que a infeção pode evoluir para lesões pré-cancerosas ou cancro do colo do útero. A vacinação contra o HPV, integrada no Programa Nacional de Vacinação, é outra ferramenta fundamental na prevenção, e um dos grandes sucessos da saúde pública. José Fonseca Fernandes Rastreios existem, mas continuam a existir barreira Atualmente, no SNS, é possível rastrear VIH, sífilis, hepatite B, clamídia e gonorreia de forma comparticipada. Ainda assim, muitas pessoas não sabem onde ir, quando fazer, ou sentem-se constrangidas em pedir estes exames ao médico de família, sobretudo em contextos mais pequenos, onde existe proximidade pessoal. O estigma continua a ser uma das maiores barreiras. Ter uma IST não diz nada sobre carácter, moralidade ou promiscuidade. Diz apenas que houve contacto humano, algo que atravessa toda a vida, inclusive em idades mais avançadas. A sexualidade não termina aos 50, 60 ou 70 anos, e ignorar isso contribui para diagnósticos tardios e cuidados inadequados. No fim, a mensagem é simples Não existe sexo 100% livre de risco, e isso não é motivo de medo, mas de responsabilidade partilhada. Preservativos, vacinação, rastreios regulares e comunicação aberta continuam a ser as ferramentas mais eficazes que temos. Talvez o maior desafio não seja médico, mas cultural: aprender a falar de infeções sexualmente transmissíveis de forma informada, leve e sem vergonha. Pontos altos da conversa: “Todos nós podemos ter uma infeção sexualmente transmissível, independentemente do número de parceiros” “É muito sexy a pessoa dizer: Olha, eu tenho os meus rastreios todos em dia, as minhas infeções tratadas, está tudo bem” “Ter uma infeção sexualmente transmissível não é significado de nada. Não diz nada sobre a nossa personalidade, se somos promíscuos ou não” “O medo do profissional de saúde é sempre deixar a outra pessoa desconfortável. Não queremos que fique a achar que invadimos o seu espaço ou privacidade” “Em consulta, ainda sinto que as infeções sexualmente transmissíveis são um tema difícil de trazer” “Sempre tive uma educação muito promotora da curiosidade e acho que essa se calhar foi a forma de eu ter educação sexual” O Prazer é Todo Meu é um podcast sobre saúde sexual, relações e intimidade, para promover a literacia em saúde sexual com uma abordagem científica acessível e empática. Objetivo: desmistificar conceitos, quebrar tabus e incentivar a discussão sobre prazer, consentimento, disfunções sexuais e bem-estar emocional. A cada episódio, a médica Mafalda Cruz revela o que nunca se costuma dizer sobre sexo, dor e relacionamentos. O Prazer É Todo Meu conta com convidados especialistas e também histórias reais. Porque todos temos uma sexualidade para explorar sem filtros. Todas as terças-feiras um novo episódio no Expresso e na sua app de podcasts.