CLUSTERS EM PORTUGAL: COMPETITIVIDADE REAL OU CONSTRUÇÃO ARTIFICIAL?
2026-05-26 21:06:06

A política de clusters (redes de empresas ou instituições) é relevante para o desenvolvimento económico do país ou de uma região. Mas o seu sucesso depende da capacidade de gerar investimento, desenvolvimento institucional e dinâmicas de aglomeração entre empresas e instituições Portugal tem hoje 21 clusters de competitividade reconhecidos. As iniciativas de “clusterização” empresarial têm sido impulsionadas por políticas públicas e por uma narrativa centrada na inovação, na internacionalização e no reforço da competitividade. Mas a questão que se coloca é simples: as políticas públicas estão a fomentar as dinâmicas reais da economia ou a construir estruturas artificiais com base em incentivos públicos? A ideia de cluster não é nova. Desde Marshall a Porter, a literatura económica evidencia que a concentração geográfica de empresas e instituições favorece a partilha de conhecimento, a inovação colaborativa e estimula a competitividade, criando redes onde as empresas cooperam, mas também competem. As empresas tendem a concentrar-se porque beneficiam de um mercado de trabalho qualificado, fornecedores especializados e disseminação do conhecimento. Casos como o Silicon Valley ou o Parque Científico de Zhongguancun mostram que os clusters de alta tecnologia se desenvolvem ao longo do tempo, através de investimento público, desenvolvimento institucional e forte iniciativa privada. São sustentados por uma elevada concentração de empresas, capital humano, universidades, centros de investigação e outros atores do ecossistema. A intervenção governamental ajuda a catalisar estes ecossistemas, mas não substitui as dinâmicas reais da economia. É aqui que começa a tensão com as políticas públicas aplicadas na economia portuguesa. Em Portugal os clusters são: reconhecidos por decisão governamental; enquadrados por ciclos formais de reconhecimento; acompanhados pelo IAPMEI; e com acesso a financiamento público para dinamizar as suas atividades. Este modelo institucionaliza os clusters, conferindo-lhes estrutura e acesso a escassos recursos. Ao que tudo indica, o modelo em si pode funcionar ,estreita distâncias entre empresas, universidades, centros de investigação e entidades públicas. Mas levanta dois problemas: o primeiro problema surge no final do ciclo de reconhecimento, que é de seis anos. Se o reconhecimento , e, muitas vezes, o financiamento , depende de uma avaliação administrativa, corre-se o perigo de transformar clusters em estruturas dependentes da política pública e de uma decisão administrativa central. Na prática, é o Estado que define quais os clusters reconhecidos em cada ciclo. Daqui resulta o risco de financiar estruturas artificiais, clusters que existem no papel e não na economia. O caso do cluster das smart cities é elucidativo: foi reconhecido como cluster, mas atualmente não consta na lista para o período 2024-2030. O segundo problema, mais profundo, surge quando se confunde o reconhecimento formal dos clusters com as dinâmicas reais da economia. Na economia portuguesa, o reconhecimento formal nem sempre corresponde a uma verdadeira concentração de empresas. Alguns setores, como o calçado ou o têxtil, apresentam características claras de “clusterização”. Outros, como o ferroviário ou a economia do mar, são mais difusos. Em certos casos, cria-se primeiro a estrutura no papel e espera-se que surjam os efeitos da aglomeração ,como parece ser o caso do cluster das baterias, onde o potencial económico precede a consolidação do ecossistema. Um cluster não passa a existir porque foi reconhecido; existe quando há efeitos positivos de aglomeração e dinâmicas económicas que se consolidam ao longo do tempo. Neste contexto, o papel do Estado não deve ser “criar” clusters por decreto, mas sim dinamizar ecossistemas. Isso exige políticas públicas diferenciadas para clusters consolidados e emergentes, contrariando parcialmente a lógica homogénea dos “Pactos para a Competitividade e Internacionalização” (2021). Nos clusters consolidados, a política pública deve reforçar condições estruturais ,em capital humano, centros de investigação e infraestruturas,, eliminar ineficiências que bloqueiem a transferência de conhecimento e a inovação colaborativa, e criar incentivos que estimulem a produtividade e a competitividade. Nos clusters emergentes, a prioridade é criar essas condições estruturais, partindo de atividades que revelam potencial de mercado. É precisamente neste contexto que o Estado pode aprender com os casos de sucesso internacionais, apostando, por exemplo, no desenvolvimento de parques de ciência e tecnologia. Estas infraestruturas podem impulsionar os ecossistemas, aproximando a ciência e a tecnologia das necessidades da indústria e tornando-se um dos recursos essenciais para o desenvolvimento de clusters bem-sucedidos. A política de clusters é relevante para o desenvolvimento económico do país ou de uma região. Mas o seu sucesso depende menos do reconhecimento formal dos clusters e mais da capacidade de gerar investimento, desenvolvimento institucional e dinâmicas de aglomeração entre empresas e instituições. Sem isso, os clusters arriscam tornar-se uma boa intenção política, mas com impacto económico limitado. Os clusters não se decretam; constroem-se. Rolando Vaz Professor no Departamento de Economia e Gestão da Universidade Portucalense Rolando Vaz