O IMPACTO DA GUERRA NA PROCURA DE USADOS
2026-05-26 21:06:03

Num mundo globalizado, poucos acontecimentos têm impacto tão imediato no quotidiano dos consumidores como uma crise energética. O recente conflito entre OS Estados Unidos e o Irão é um desses momentos. Embora geograficamente distante de Portugal, os seus efeitos fizeram-se sentir rapidamente no preço dos combustíveis e, por consequência, nas decisões de mobilidade dos portugueses. O que estamos a observar hoje não é apenas uma reação conjuntural, mas sim um possível ponto de viragem estrutural no mercado automóvel. Historicamente, sempre que há instabilidade no Médio Oriente, o preço do petróleo reage e, com ele, os combustíveis. Esta volatilidade tem um impacto direto no bolso dos consumidores, sobretudo num país como Portugal, altamente dependente de importações energéticas. Mas o mais interessante é perceber como esta pressão económica está a alterar comportamentos. Os dados mostram que, nas semanas seguintes ao início do conflito (28 de fevereiro de 2026), houve uma mudança clara na procura: em Portugal, quase 1 em cada 4 pesquisas automóveis passou a ser por veículos elétricos, quando antes era cerca de 1 em 7. Ou seja, o aumento do custo dos combustíveis não apenas pesa mas também acelera decisões que já estavam latentes. ã nível global, olhando para mercados onde o Standvirtual opera, como Polónia (Otomoto), Roménia (Autovit) ou ãfrica do Sul (Autotrader), o padrão repete-se: o interesse por veículos elétricos cresceu entre 9% e 31% logo na primeira semana do conflito, chegando a aumentos de até 50% em alguns mercados. Ao mesmo tempo, a procura por carros a combustão, especialmente diesel, caiu de forma significativa, em alguns casos até-49%, como na Roménia. Este movimento é particularmente relevante: não estamos apenas a ver mais interesse em elétricos, estamos a ver uma substituição ativa da intenção de compra. E, ainda assim, há um dado que contraria o senso comum: OS preços dos elétricos não dispararam. Apesar da forte procura, o mercado de usados elétricos mostrou uma surpreendente estabilidade de preços. Em Portugal, por exemplo, os preços têm vindo a subir de forma muito moderada e com pouco impacto. Cerca de 186, em média, por dia desde o início do conflito, o que representa menos de 1% face ao crescimento. Isto sugere um mercado mais equilibrado do que seria expectável: . A oferta está a acompanhar a procura Os consumidores continuam sensíveis ao preço Não há sinais de especulação Aliás, o próprio tempo médio de venda está a diminuir em Portugal (de 79 para 72 dias), o que indica que a procura é real e está a converter-se em transações. Embora cada mercado tenha as suas particularidades, a tendência geral é clara, e em Portugal, vemos uma forte aceleração da procura por elétricos. Este comportamento transversal reforça uma ideia-chave: a transição para a mobilidade elétrica não depende apenas de políticas públicas ou incentivos, pode ser acelerada por choques externos, como crises energéticas. Se os elétricos ganham terreno, os veículos a combustão enfrentam um desafio crescente. A incerteza sobre o preço dos combustíveis está a alterar o cálculo económico dos consumidores: o custo total de utilização passa a ser mais imprevisível. Mais do que uma queda abrupta na procura, o que se observa é uma perda gradual de atratividade, especialmente no diesel, tradicionalmente dominante em mercados europeus. Ainda assim, é importante sublinhar: o mercado não está a colapsar. Há até um aumento de anúncios de veículos diesel, impulsionado sobretudo por vendedores particulares que procuram aproveitar o momento para vender. o que este contexto nos mostra é que estamos perante uma aceleração, não uma disrupção imediata. A guerra entre EUAe e Irão funcionou como catalisador: Transformou interesse latente em procura ativa Aumentou a perceção de risco associada aos combustíveis fósseis Reforçou o valor da independência energética Mas o futuro dependerá de fatores estruturais: Infraestrutura de carregamento Oferta de veículos a preços acessíveis Evolução dos preços da eletricidade Em Portugal, o impacto já é visível com mais procura por elétricos, decisões mais rápidas e uma mudança clara de mentalidade. o automóvel deixou de ser apenas uma escolha de mobilidade e tornou-se também uma escolha de proteção contra a incerteza. E essa pode ser, no longo prazo, a consequência mais duradoura deste conflito: não apenas preços mais altos no imediato, mas consumidores mais conscientes, mais exigentes e cada vez mais elétricos. Marta Espadeiro Business Analyst do Standvirtual Marta Espadeiro