TEOLINDA GERSÃO: BRAGA É UM BOM LUGAR PARA UM GRANDE FESTIVAL
2023-10-22 08:04:05

Festival Literário «Braga é um bom lugar para um grande festival como este» O Festival Literário Utopia nasce em 2023, em Braga, pelas mãos da The Book Company, uma produtora de eventos integrada no grupo editorial Penguin Random House Portugal e que, há mais de 15 anos, concebe e produz de eventos ligados ao livro. De 2 a 12 de novembro, Braga será a porta de entrada para o encontro de todos aqueles que se encontram e manifestam no livro. Numa programação multidisciplinar, com nomes de primeira linha, teremos propostas para todos os públicos. Ao longo das próximas semanas, alguns convidados do Utopia Braga darão entrevistas exclusivas ao Diário do Minho, para que possa conhecer melhor a programação deste festival literário inédito. Acompanhe tudo em festival-utopia.pt, bem como no Instagram e Facebook (@festivalutopiabraga). Diário do Minho - O tema deste ano são os territórios literários. Que livro associa a casa? Teolinda Gersão - A Casa de Bernarda Alba de Federico Garcia Lorca. DM - Quem é que está mais entusiasmada para ver no Utopia? TG - David Mitchell. E Ludmila Ulitskaya. DM - Se tivesse que descrever o festival numa frase, qual seria? TG - Uma aventura fascinante e imprevisível. DM - Como recebeu a notícia deste novo e ambicioso festival literário e o convite para integrar o painel de convidados da sua estreia? TG - Este novo festival literário foi uma bela e gratificante surpresa, particularmente bem-vinda num momento em que estamos assoberbados por notícias más. O convite para integrar o painel da estreia é uma grande honra e uma enorme alegria. DM - O Festival Literário Utopia apresenta-se como tendo “no centro a melhor das invenções, presente em todas as artes, ramos científicos e do saber. O livro, um objeto simples cujas caraterísticas técnicas pouco se alteraram nas últimas centenas de anos, é um instrumento de compreensão do mundo e é, ainda hoje numa época de aceleração o maior transmissor de capital cultural perene”. Enquanto escritora, revê-se nesta interpretação? TG - Sim, completamente. Há milénios que o livro manuseável, concreto, é insubstituível, e acredito que assim continuará, pelo menos durante muito tempo. Não tenho nada contra outros modos de transmissão do conhecimento, como por exemplo a leitura em plataformas digitais. No entanto é com o livro em papel que me identifico, oferece uma proximidade/intimidade que a informática não consegue dar-nos. DM - Que papel considera que o Utopia pode desempenhar no panorama dos eventos literários, distinguindo-se de outras propostas culturais? TG - Utopia, ao contrário de distopia, é um espaço aberto à imaginação, mas sobretudo ao desejo e à esperança. Traz consigo um sinal +, é positiva e não negativa. Apesar de irrealizável, a utopia tem a força e a sedução dos sonhos. Aliás, podemos questionar se o conceito de irrealizável na verdade existe. O que hoje parece sê-lo, tem probabilidades de se concretizar num futuro mais ou menos próximo. É preciso olhar mais de perto para os grandes temas, para que alguma coisa eventualmente aconteça. DM - Como vê o facto de estarmos perante um festival literário que se pretende afirmar como marca global de eventos a nascer em Braga e não em Lisboa ou no Porto? TG - Sou inteiramente a favor da descentralização, antes de tudo na sua vertente cultural. Não é por se ter nascido ou por viver aqui ou ali que, no século XXI, deixamos de estar informados e abertos ao que se passa no mundo global de que somos parte. Lisboa e Porto já têm assegurada uma quantidade assinalável de eventos. Braga é um bom lugar para um grande festival como este. Merece estar na lista dos grandes roteiros culturais do país, porque se tem mostrado capaz de desenvolvimento, empreendedorismo e modernidade a vários níveis. Tornou-se uma cidade universitária, com um património cultural e artístico riquíssimo, que soube preservar e manter vivo, e tem vindo a desenvolver e/ou recuperar novos polos culturais, como o Teatro Circo e o Espaço Vita, que neste evento nos acolhem. Braga é também uma cidade onde o mecenato, em Portugal tão raro, tem desenvolvido um papel notável, e, nesse sentido, gostaria de deixar uma palavra de admiração e de aplauso em especial ao Grupo dst. BIOGRAFIA Teolinda Gersão estudou e viveu três anos na Alemanha, dois no Brasil e algum tempo em Moçambique. É autora de 19 livros (romances e contos) e está traduzida em 20 países. Recebeu alguns dos mais importantes prémios literários portugueses, sendo os mais recentes o Grande Prémio de Literatura dst e o Prémio Literário Guerra Junqueiro Lusofonia, ambos em 2023. Foi finalista do Prémio Europeu de Romance Aristeion e em 2018 recebeu nos Estados Unidos da América o Albert Marquis Lifetime Achievement Award. Foi escritora residente na Universidade da Califórnia, Berkeley. Alguns dos seus livros têm sido adaptados ao teatro e ao cinema. Depois de A Cidade de Ulisses, Prantos Amores e Outros Desvarios, Atrás da Porta de Outras Histórias e Alice e Outras Mulheres, o seu livro mais recente é O Regresso de Júlia Mann a Paraty, 2021.