BRUNO TAVEIRA: “A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL JÁ PROJETA CENÁRIOS CLÍNICOS. MAS OS PROFISSIONAIS DE SAÚDE CONTINUAM A DECIDIR
2026-05-25 21:05:42

05/25/2026 “A sustentabilidade do SNS constrói-se antes das crises, não durante elas” Bruno Taveira Healthnews (HN): A Becton, Dickinsom and Company (BD) desenvolve soluções que acompanham todo o percurso de cuidados de saúde, desde a colheita de amostras e os acessos vasculares até à inovação em áreas como urologia, oncologia ou cirurgia, incluindo também a gestão e dispensação de medicamentos. Como é que isso se materializa em Portugal, sobretudo na articulação entre o diagnóstico laboratorial e a intervenção clínica em oncologia? Bruno Taveira (BT): Essa articulação é um dos nossos focos. O valor já não está apenas na capacidade de diagnosticar mais cedo, mas em ligar esse diagnóstico a uma decisão clínica mais segura, mais consistente e mais atempada. Em oncologia, o diagnóstico precoce exige estruturas cada vez mais automatizadas e com rastreabilidade total. Nós temos soluções que ligam o momento do diagnóstico à preparação de terapêuticas. Por exemplo, na quimioterapia, isto traduz-se num ecossistema integrado de automação da farmácia hospitalar: desde software que suporta o planeamento de prescrições a longo prazo e a preparação e administração de citóxicos e outras substâncias críticas, a robôs inteligentes que aprendem dia a dia com a dinâmica da farmácia, garantindo um processo eficiente de entrada, armazenagem e entrega de produtos, até soluções de gestão conectada de medicação e materiais que aumentam a visibilidade do inventário e asseguram que os medicamentos estão disponíveis quando e onde são necessários. Tudo isto, unidicado numa plataforma baseada em inteligência artificial (IA) e na cloud, que transforma a sobrecarga de dados em interações claras e objetivas, reduzindo erros de medicação e libertando os farmacêuticos para funções mais clínicas. Mas o salto qualitativo está na monitorização contínua do doente oncológico, que muitas vezes é crítico. Com os sistemas de monitorização hemodinâmica avançada que adquirimos recentemente (Advanced Patient Monitoring), conseguimos, através de um simples dedo, medir parâmetros hemodinâmicos e, com algoritmos de IA, projetar cenários de descompensação. Isto permite antecipar uma sépsis ou uma reação adversa, intervindo antes do agravamento. O diagnóstico dá o alerta inicial; a intervenção clínica ganha capacidade preditiva. É isso que queremos expandir nos hospitais portugueses. HN: Um estudo da APORMED - de cujo Conselho Fiscal é membro - aponta que as tecnologias médicas reduzem internamentos e custos no SNS. Como é que as soluções da BD, nomeadamente na gestão de medicação e monitorização de doentes críticos, criam esse valor acrescido? BT: O valor cria-se quando conseguimos reduzir dano evitável, libertar capacidade e melhorar a utilização dos recursos existentes. O exemplo mais claro é a hospitalização domiciliária com acessos vasculares avançados. Em Portugal, entrámos nesse segmento precisamente porque havia doentes a fazer antibióticos de uso hospitalar que ficavam internados só para receber a medicação. Esse é o chamado “hotel sanitário”, um custo imenso sem benefício clínico adicional. Com um acesso vascular avançado, o doente vai para casa, a equipa de saúde faz a manutenção, e o SNS poupa o custo do internamento, o tempo dos enfermeiros e liberta camas para casos mais complexos. A isso juntamos a gestão inteligente de medicação: armários inteligentes de dispensa e gestão conectada de medicação e materiais que registam cada dose administrada, aumentam a visibilidade do invesntário, reduzem o desvio de medicamentos e evitam ruturas e desperdício de stock em cuidados intensivos. O retorno é direto: menos dias de internamento, menos infeções associadas aos cuidados e profissionais mais focados no que realmente exige a sua especialidade. O desafio é convencer as administrações hospitalares a investir baseado em valor, ou seja, a investir um pouco mais por um dispositivo que depois poupa muito em custos operacionais. HN: Os novos regulamentos europeus (MDR e IVDR) impuseram exigências acrescidas. Como é que a BD gere esse equilíbrio para que os custos de conformidade não se tornem uma barreira ao acesso dos doentes portugueses? BT: Do ponto de vista regulamentar, a BD já se preparou há anos. Temos equipas dedicadas que tratam da documentação, estudos clínicos pós-comercialização e notificação de incidentes. O verdadeiro problema não é o MDR ou o IVDR em si, mas a sua transposição e o financiamento. O desafio maior, em Portugal, está menos no enquadramento regulamentar europeu e mais nas condições de financiamento, do processo de aquisição e de atualização do sistema Em Portugal, há uma dificuldade acrescida: a maioria dos dispositivos médicos comparticipados não tem os preços atualizados há anos, sobretudo na área das ostomias e incontinência. Além disso, a taxa de IVA de 23% sobre a generalidade dos dispositivos médicos, assim como a contribuição (já não tão) extraordinária são realidades que merecem uma revisão urgente. Não faz qualquer sentido que um dispositivo para um doente oncológico ou um acesso vascular essencial pague a mesma taxa que um produto de luxo. O vinho tem IVA de 13% e um cateter, que contribui para salvar vidas, tem IVA de 23%. Isto encarece o acesso, penaliza o SNS e afasta inovação. A APORMED tem denunciado esta distorção, principalmente na revogação da contribuição extraordinária, mas é uma lenta batalha política. HN: Como perspetiva a integração dos sistemas de monitorização hemodinâmica nos protocolos nacionais de controlo de infeção, tendo em conta a pressão seletiva antimicrobiana nas unidades de cuidados intensivos portuguesas? BT: Esta é uma área onde a BD deu um salto enorme com a aquisição da área de “critical Care” da Edwards), já integrada na estrutura da BD como unidade de negócio de Advanced Patient Monitoring. Hoje temos monitores menos invasivos que, ligados a bombas de infusão e alimentados por IA, permitem detetar, prever e controlar precocemente a instabilidade associada ao choque séptico ou uma falência hemodinâmica. Ao detetar mais cedo, atuamos mais cedo e melhoramos o prognóstico, reduzindo o tempo de antibiótico empírico de largo espectro e, com isso, combantendo um dos motores da resistência antimicrobiana. Além disso, a futura interoperabilidade entre monitores e sistemas de administração de fármacos pode ajustar automaticamente a noradrenalina ou outros vasopressores, dentro de protocolos validados pelos médicos. A decisão final é sempre humana, mas a tecnologia ajuda a evitar a variabilidade excessiva. Em Portugal, para isto ganhar escala, é essencial investir não apenas em tecnologia, mas também em protocolos, formação e organização das equipas, incluindo maior capacitação de enfermagem especializada (por exemplo na área dos acessos vasculares avançados) e maior integração entre dados, dispositivos e workflows clínicos. HN: A nova direção da APORMED (2026-2028) quer enfrentar a transição digital e a IA na Saúde. Quais são os principais obstáculos técnicos, regulamentares e de integração sistémica em Portugal? BT: Identifico quatro grandes desafios. Primeiro, a visão ainda muito hospitalocêntrica , pensamos o SNS como o local físico, não como um sistema que pode levar cuidados ao domicílio ou ao centro de saúde. Segundo, a fragmentação dos dados: falta interoperabilidade real entre hospitais (sejam do setor público, privado ou social), centros de saúde e cuidados continuados. Terceiro, organizacional, a resistência cultural à redefinição de competências profissionais ainda limita a descentralização de determinadas práticas clínicas. Neste sentido, a nossa visão é clara: maior colaboração multidisciplinar. Quarto, o subinvestimento crónico em prevenção: estamos nos 2,29% da despesa em saúde, muito abaixo da média europeia. E o desperdício em saúde continua enorme, não apenas do ponto de vista financeiro, mas também de recursos. A IA pode ser um acelerador importante, mas depende sempre de processos bem desenhados, dados fiáveis e objetivos clínicos claros. Se quisermos um sistema mais preditivo, mais seguro e mais eficiente, teremos de continuar a investir na qualidade estrutural do percurso do doente. HN: Como estão a ser adaptadas as soluções de dispensa e gestão conectada de medicação e materiais e plataformas baseadas em IA e na cloud, que unificam dados de sispositivos num único sistema, à realidade hospitalar portuguesa, e de que forma contribuem para a prevenção e gestão de infeções? BT: Essas soluções já estão em vários hospitais, sobretudo nas farmácias hospitalares e em algumas unidades de cuidados intensivos. Os armários inteligente ajudam a reforçar a gestão segura da medicação, com maior controlo sobre acesso, rastreabilidade e stock de medicamentos de alta vigilância; registam cada retirada e devolução; e emitem alertas de expiração ou de stock crítico. O grande desafio em Portugal é a integração com os sistemas de informação hospitalar (PEP, processos clínicos eletrónicos). Muitas vezes temos de fazer adaptações manuais ou “ponteiros” informáticos, porque os hospitais usam plataformas heterogéneas. Mas, quando bem implementadas, estas soluções são um escudo contra o desperdício , um problema que custa milhões ao SNS e vidas todos os anos. HN: A BD é Top 100 Global Innovators pelo quarto ano consecutivo. Onde gostaria de ver a pegada da tecnologia médica em Portugal daqui a 25 anos? BT: Quero ver a inovação como um pilar de sustentabilidade e acesso universal, não como um privilégio para quem tem seguro de saúde. As áreas críticas que mais precisam de rutura tecnológica são: a oncologia de precisão, com diagnósticos rápidos e terapêuticas personalizadas, os cuidados intensivos, com monitorização preditiva e menos invasiva, e os cuidados continuados e domiciliários, com telemonitorização e acesso vascular seguro não só nos hospitais, mas também em casa. O papel da BD é continuar a co-construir ao lado dos profissionais de saúde: redesenhar fluxos de trabalho, demonstrar que um dispositivo mais caro pode gerar enormes poupanças indiretas e contribuir para essa evolução não apenas com tecnologia, mas também com soluções, evidência, formação clínica e colaboração com os profissionais de saúde para redesenhar processos, reduzir variabilidade e demonstrar impacto real. Em linha com os pilares que estruturam os nossos Signature Programmes , Segurança dos doentes, Eficiência e Profissionais de saúde ,, a nossa ambição é apoiar os sistemas na redução de dano evitável, na libertação de capacidade e no reforço das condições para que os profissionais possam exercer com mais segurança, consistência e eficiência. HN: Referiu estudos da OCDE e da Partnership for Health Systems Sustainability. Que lições práticas retira deles para a gestão do SNS? BT: A grande lição é que a resiliência deve ser construída antes das crises. O Country Profile da OCDE de 2025 aponta três prioridades: aliviar a pressão sobre a prestação de cuidados, reforçar infraestruturas e força de trabalho, e adaptar a preparação para emergências. O estudo da resiliência acrescenta 43 recomendações, mas a essência é a mesma: não podemos gerir o SNS apenas com injeções de capital para pagar dívidas. É preciso acabar com a sub-orçamentação crónica, planear o envelhecimento da população e a pressão migratória (metade dos partos em Lisboa já são de mães estrangeiras). Sem investimento na prevenção e na digitalização, o SNS pode tornar-se insustentável. HN: Foi muito crítico em relação à taxa de IVA de 23% e à contribuição extraordinária sobre o setor. Pode detalhar? BT: A contribuição extraordinária , que já nao é tão extraordinária , cria uma pressão adicional sobre as empresas de dispositivos médicos, sem que esse valor seja reinvestido em inovação ou no acesso. É um imposto que não tem finalidade sanitária. Quanto ao IVA, a questão central é a adequação da carga fiscal aplicada a dispositivos médicos essenciais para o tratamento, a monitorização e a qualidade de vida dos doentes. Quando falamos em soluções com impacto clínico direto, importa assegurar um enquadramento fiscal que favoreça acessibilidade e equidade. HN: Falou na resistência de redefinição de competências profissionais. Como vê essa barreira? BT: Vejo este tema como uma oportunidade importante para tornar o sistema mais eficiente, mais multidisciplinar e mais centrado no doente. Em Espanha, Inglaterra ou nos EUA, os enfermeiros experientes colocam acessos vasculares avançados, gerem a hospitalização domiciliária e fazem follow-up de doentes crónicos. Em Portugal, ainda prevalece uma certa resistência à descentralização e à transferência de poderes, pois teme-se que delegar signifique perder qualidade. Mas os números mostram o contrário: temos mais médicos por 100 mil habitantes do que a média europeia, mas muito menos enfermeiros. Isto é ineficiente. O exemplo dos partos é paradigmático: as parteiras (enfermeiras especializadas) sempre fizeram partos de baixo risco com segurança, mas quando se fala em formalizar esse papel, há logo alarme social. Ainda assim, importa continuar a refletir sobre modelos de organização que permitam utilizar melhor as competências disponíveis, reforçar a formação diferenciada e libertar tempo médico para situações de maior complexidade. O objetivo não é substituir funções, mas promover equipas mais complementares, mais bem distribuídas e mais capazes de responder à pressão crescente sobre o sistema. HN: Que mensagem deixa para os decisores políticos portugueses? BT: Que a inovação tecnológica não é um luxo. É uma ferramenta de equidade, segurança, eficiência e sustentabilidade. Se não modernizarmos o SNS, com automação, IA, monitorização remota e novos modelos de cuidados, estaremos a condenar as próximas gerações a um sistema de duas velocidades: quem pode paga seguros e acede ao melhor; quem não pode espera anos por uma consulta ou por um dispositivo. A BD quer ser parceira dessa transformação, não apenas como fornecedora de tecnologia, mas como colaboradora na construção de soluções que ajudem a reduzir dano evitável, melhorar fluxos, apoiar profissionais e gerar valor para o sistema. Temos 25 anos de presença direta nosso pais, mas mais de 125 anos de história global. Queremos que os portugueses saibam que, quando efetuam uma análise clínica, recebem uma medicação administrada com um sistema de infusão, são submetidos a uma cirurgia de reconstrução tecidular, ou veem um sistema automatizado de dispensa de medicação numa farmácia, estão a beneficiar das nossas tecnologias. E que isso é motivo de orgulho e de exigência. Acredito que melhor tecnologia, organização e utilização dos recursos pode traduzir-se em melhor acesso, mais segurança e melhores resultados para os doentes. Essa deve ser uma ambição partilhada por todos os que contribuem para o futuro da saúde em Portugal. Entrevista Miguel Múrias Mauritti Bruno Taveira, Country Lead da BD Portugal, soma uma carreira na área dos dispositivos médicos e na liderança de organizações. À Healthnews, o responsável - que é atualmente membro do Conselho Fiscal da APORMED - detalha como os três pilares a que pretendem responder através das suas soluções (segurança do doente, profissionais de saúde e eficiência do sistema) se aplicam no terreno, quais os obstáculos regulamentares e fiscais que atrasam o acesso dos doentes portugueses e porque é que o país precisa urgentemente de uma visão mais integrada e menos hospitalocêntrica da saúde