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BURNOUT E VIOLÊNCIA NA ENFERMAGEM: A URGÊNCIA DE PROTEGER QUEM CUIDA

Observador Online

2026-05-25 21:05:41

Proteger os profissionais de saúde é proteger o próprio sistema. A violência compromete a qualidade dos cuidados e afeta a saúde física e mental dos profissionais. Em Portugal e na Europa, os indicadores são claros: a saúde mental deteriorou-se de forma preocupante, especialmente após a pandemia. Segundo o Eurobarómetro de junho de 2023, 46% dos europeus enfrentaram problemas psicossociais como ansiedade ou depressão no último ano, sendo estas as perturbações mais comuns. Antes mesmo da pandemia, mais de 84 milhões de pessoas na União Europeia já viviam com algum tipo de doença mental. Perguntemos então se, mais do que reflexões e análises, não será tempo de ação. A Organização Mundial da Saúde confirma que a pandemia agravou o sofrimento psicológico a nível global, enquanto a Comissão Europeia alerta para as dificuldades no acesso a cuidados especializados: um em cada quatro cidadãos europeus encontrou obstáculos quando procurou apoio em saúde mental. Em Portugal, o cenário não é diferente. Um estudo recente da Escola Superior de Enfermagem de Lisboa revela que a maioria dos portugueses reconhece sofrer de problemas de saúde mental, mas apenas 3% procura terapia. O estigma, a falta de recursos e a dificuldade de acesso continuam a ser barreiras significativas num país onde o sofrimento silencioso ainda é regra. Vivemos, portanto, numa espécie de emergência de humanidade. Basta olhar em redor: pobreza, discriminação, conflitos económico-financeiros, invisibilidade dos mais vulneráveis, alienação do sofrimento, políticas centradas em indicadores e não em pessoas. Parece que tentamos resgatar a humanidade do abismo mantendo tudo igual. Veja-se o exemplo da saúde em Portugal. Os enfermeiros continuam impedidos de exercer plenamente a sua profissão. Quem está na linha da frente é empurrado para uma realidade que teima em não mudar. Jornadas longas, escassez de recursos, falta de reconhecimento e ambientes de trabalho exigentes alimentam um desgaste profundo, com impacto direto na vida dos profissionais e na qualidade dos cuidados prestados à população. Quando não há espaço para a qualidade de vida dos enfermeiros, também não há espaço para uma saúde robusta, responsável e verdadeiramente centrada nas pessoas. Os números são inequívocos: cerca de 42% dos enfermeiros apresentam níveis moderados ou elevados de burnout. O estudo NursesMH Survey 2024, da ESEL, envolvendo quase 1900 profissionais, mostra que 74,3% percecionam negativamente a sua saúde mental, 87,4% reportam sintomas de ansiedade e insónia, e quase 30% reconhecem sintomas de depressão grave. Intervir nesta realidade é urgente, antes que seja tarde de mais. Também no Ensino Superior os sinais são preocupantes. Num estudo de 2022-2023 realizado em seis universidades portuguesas, 22,9% dos estudantes relataram diagnóstico de doença mental, quase metade destes casos identificados após a pandemia. Que cuidados estamos a garantir a estes jovens que serão os profissionais de amanhã? E é precisamente quando olhamos para estes futuros profissionais que percebemos que a crise não termina na formação. Prolonga-se, agrava-se e ganha contornos ainda mais severos quando entram no mercado de trabalho. Porque, para muitos, o sofrimento emocional não nasce apenas da pressão assistencial, da falta de recursos ou da exaustão acumulada: nasce também da violência. Uma violência que não é episódica, nem excecional, nem periférica. É estrutural. É crescente. E atinge de forma particularmente dura uma profissão que é maioritariamente feminina - mais de 80% dos enfermeiros são mulheres - tornando-a também um problema de desigualdade, de vulnerabilidade e de segurança no trabalho. A violência contra profissionais de saúde tornou-se um fenómeno global, transversal a todos os sistemas. Os dados internacionais mais recentes revelam que entre 8% e 38% dos profissionais sofrem violência física ao longo da carreira, enquanto mais de metade é alvo de violência verbal, ameaças ou assédio moral. Até 54% admitem ponderar abandonar a profissão, um número que, por si só, deveria ativar todos os alarmes. Em Portugal, a realidade acompanha esta tendência: 10% a 20% dos profissionais já sofreram algum tipo de violência, 75% relatam episódios de violência verbal, ameaças ou assédio, e cerca de 20% foram vítimas de agressão física. Em 2024, registaram-se 2.581 episódios de violência no SNS, um aumento de 9% face ao ano anterior, e em 2025 a comunicação social reportou mais de 2.500 casos. Esta violência, que se normaliza, que se banaliza e que tantas vezes se silencia, é também um fator de desmotivação, de insatisfação profissional e de abandono. É mais uma camada de desgaste num corpo profissional já profundamente marcado pelo burnout, pela exaustão e pela falta de reconhecimento. E é, sobretudo, um obstáculo à retenção de enfermeiros, uma profissão que é pilar essencial de qualquer sistema de saúde e que, sem proteção, sem condições e sem dignidade, não consegue garantir a continuidade dos cuidados nem a segurança dos cidadãos. Em Portugal, a realidade acompanha esta tendência. A Direção-Geral da Saúde estima que 10% a 20% dos profissionais já sofreram algum tipo de violência, sendo que cerca de 75% relatam episódios de violência verbal, ameaças ou assédio, e aproximadamente 20% foram vítimas de agressão física. A subnotificação continua a ser um obstáculo estrutural. Muitos profissionais não denunciam por receio, descrença nos mecanismos de proteção ou pela perceção de que “não vale a pena”. Uma parte significativa dos casos acaba arquivada, perpetuando a invisibilidade do problema. A violência é multifatorial: expectativas frustradas, tempos de espera, ansiedade, consumo de substâncias, sobrecarga dos serviços, falta de recursos, ambientes físicos inadequados, ausência de políticas preventivas, normalização social da agressividade e subfinanciamento crónico do setor. Tudo converge para um cenário que fragiliza quem cuida - e que, inevitavelmente, agrava o sofrimento emocional dos profissionais. Portugal tem avançado no plano legislativo, com a criação do Gabinete de Segurança, a inclusão destes crimes como prioridade de investigação, o Plano de Ação para a Prevenção da Violência no Setor da Saúde e, mais recentemente, a Lei n.º 26/2025, que reforça o quadro penal e clarifica a isenção de custas para profissionais vítimas de agressão. São passos importantes, mas ainda insuficientes perante a dimensão do fenómeno. Proteger os profissionais de saúde é proteger o próprio sistema. A violência compromete a qualidade dos cuidados, afeta a saúde física e mental dos profissionais, agrava a escassez de recursos humanos e fragiliza a relação terapêutica. Não é apenas uma questão ética. É uma condição de sobrevivência do SNS. Que este Dia Internacional do Enfermeiro seja o início de um compromisso renovado com essa mudança. E para que isso aconteça, é necessário mudar políticas. Os enfermeiros estão - como sempre estiveram - disponíveis. Hoje, celebrando a Enfermagem, olhemos para a saúde mental como um direito e uma prioridade coletiva. Proteger os enfermeiros, aqueles que tantas vezes colocam o bem-estar dos outros à frente do seu, é também um ato de cuidado, de justiça e, acima de tudo, um compromisso com a saúde dos cidadãos. Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente. Uma parceria com: Com a colaboração de: Ângelo Marinho Secretário do Conselho Diretivo Regional da Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros e especialista na área da saúde mental [Additional Text]: Hospital da Luz Johnson & Johnson Innovative Medicine Ordem dos Médicos Ordem dos Psicólogos Ângelo Marinho