ENTREVISTA - “NÃO PODEMOS SER A FAVOR DA LEGALIZAÇÃO DA CANNABIS”
2026-05-25 21:05:41

Primeiro hospital de dia do Porto para o tratamento intensivo do álcool abre em Junho Joana Teixeira Presidente do ICAD anuncia a abertura de dois hospitais de dia para tratamento intensivo dos problemas de alcoologia: em Lisboa abriu em Abril, no Porto abre a 1 de Junho Entrevista Daniel Rocha Fotografia Uma das decisões do novo Conselho Directivo do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), presidido por Joana Teixeira desde Janeiro, é a criação de dois hospitais de dia do próprio instituto para o tratamento da dependência do álcool em ambulatório, uma resposta que não existia em Portugal. A médica com especialidade de Psiquiatria exerceu funções na Unidade de Tratamento e Reabilitação Alcoológica do Hospital Júlio de Matos e coordenou a Unidade de Alcoologia e Novas Dependências do Centro Hospitalar de Lisboa. É docente convidada da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa desde 2025, ano em que apresentou a prova de doutoramento Influência das Alterações Cognitivas no Tratamento da Dependência de Álcool. Encara como “uma responsabilidade” a sua nomeação para dar continuidade ao legado de João Goulão que começou por dirigir aquele que era então o Instituto da Droga e da Toxicodependência. Muitas coisas mudaram num tempo em que as dependências graves eram apenas associadas à heroína. São novos desafios, que Joana Teixeira encara com uma preocupação: “Há um desvalorizar do problema das dependências como se estivesse resolvido, e não está.” Com a reintrodução do modelo centralizado de tratamento nas unidades do ICAD está a conseguir reduzir as listas de espera para tratamento das dependências? No início de 2025 havia 1600 pessoas em espera para o primeiro acolhimento. A lista de espera está um pouco menor do que no ano passado. A evolução é positiva, mas tem resultado num esforço acrescido dos nossos recursos humanos. Precisamos de mais profissionais para darmos esta resposta que é especializada. O tempo médio de espera é de 30 dias. Mas, mais importante do que isso, é a acessibilidade ao tratamento. Isso é que é a mais-valia que enquanto sistema nacional de saúde queremos aumentar. Os próprios doentes, se se sentirem motivados e a necessitar de tratamento, podem dirigir-se às unidades e pedir o agendamento de uma consulta. Isto é claramente diferenciador. Muitas vezes nos restantes cuidados é preciso haver uma referenciação do médico. Esta acessibilidade aos serviços é essencial para a eficácia do tratamento. Temos uma janela muito curta da oportunidade de intervenção: só enquanto estão motivados é que realmente conseguem dirigir-se às unidades e isso é uma vantagem, sobretudo nas drogas ilícitas. E nas restantes dependências? O ICAD também tem essa responsabilidade da resposta à dependência do álcool e às dependências sem substância, o jogo, os problemas de ecrã, da Internet. Neste tipo de patologias, se calhar até é mais fácil haver a referenciação dos médicos e esperar por uma consulta pela via normal do SNS. Temos a possibilidade de olhar para estes doentes como doentes que são e integrá-los no sistema de saúde. Nestes primeiros meses, o que já foi concretizado? Reactivámos os internamentos que estavam, há vários anos, encerrados nas unidades de alcoologia de Lisboa e do Porto. Neste momento, as unidades de alcoologia do ICAD já têm capacidade de internar os doentes com dependência de álcool se necessitarem. Significa que há capacidade de internar 16 pessoas nestas unidades oito em Lisboa e oito no Porto. Em Coimbra, nunca fecharam. Além disso, nas instalações das unidades de alcoologia abrimos dois hospitais de dia de alcoologia. Em Lisboa, abriu em Abril. No Porto, vai abrir no dia 1 de Junho. O que distingue esta valência das que já existiam? O hospital de dia é para um tratamento intensivo por três meses, em ambulatório, para a reabilitação psicossocial do doente, que lhe permita desenvolver competências para se manter abstinente e se reintegrar do ponto de vista social e laboral [mantendo a intervenção farmacológica ao longo desse tempo]. Não havia este tipo de respostas diferenciadas e que são uma mais-valia na possibilidade de oferecer tratamento diferenciado por níveis de gravidade da patologia dos doentes. E este é um feito importante dos primeiros meses de actividade deste conselho directivo. Não havia hospital de dia. Quem se quisesse tratar da dependência do álcool ou ia às consultas ou ia para o internamento. Não havia a possibilidade de fazer um tratamento em ambulatório de intensidade elevada. E ainda há os internamentos. Esse é o nível de intensidade superior. A partir desses internamentos de desintoxicação, alguns doentes poderão depois ser encaminhados para comunidade terapêutica, outros para o hospital de dia. A responsabilidade do ICAD é a de disponibilizarmos os melhores tratamentos, mais eficazes do ponto de vista da evidência científica, e disponibilizá-los aos cidadãos para podermos ter um tratamento adequado ao grau da dependência e do problema que as pessoas apresentam. A possibilidade de tratamento intensivo da dependência do álcool era uma prioridade sua? Um dos nossos objectivos para 2027, do ponto de vista de estratégia, é aumentar o acesso porque temos um grande problema do acesso destes doentes ao tratamento. Vejamos: nas nossas unidades de tratamento, temos cobertura de 50% a 60% dos doentes consumidores de heroína em Portugal. Na cannabis, temos só cerca de 10% de doentes em tratamento, também pela ausência de percepção de que é preciso um tratamento, de que isto é uma dependência. Esta ideia da “droga leve” também induz a uma desvalorização do risco associado. E no álcool, só 20% doentes entram nas unidades de tratamento. Se a literatura científica e a gestão de serviços identificam um gap [diferença] entre os doentes que precisam de tratamento e os que chegam aos serviços, temos a responsabilidade de diminuir esse gap. Sabendo que ele existe, não é razoável que seja tão grande em Portugal. Olhando para todo o tipo de dependências, o que mais a preocupa? Preocupa-me que haja um desvalorizar do problema. Se, nos anos 80 e 90, havia a consciência e a enorme visibilidade do consumo de heroína e da toxicodependência, hoje em dia, como não há uma visibilidade social tão marcada destes comportamentos aditivos, muitas vezes até se pode pensar que está resolvido e que não há grande pertinência de intervenção na área dos comportamentos aditivos e dependências. E não é nada disso. A gravidade mantém-se? Temos assistido a uma mudança nos padrões de consumo, a uma evolução dos próprios mercados de venda de substâncias. Ainda há consumo de heroína, é certo, mas há uma maior venda de cocaína, de cannabis e de novas substâncias psicoactivas que vão surgindo e que, embora não tão visíveis como a heroína, são muito importantes. Um exemplo deste fenómeno é a dependência de jogo, que teve um aumento de 118% nos últimos anos. É um aumento muito rápido de uma problemática não muito visível para a sociedade, mas que existe. E que faz com que estes doentes porque falamos de doentes precisem de tratamento e procurem os nossos cuidados. Também no tratamento das dependências sem substâncias houve novidades. Temos o programa para as dependências de videojogos, o gaming, no Porto estruturado para abrir em 29 de Junho. E temos o centro de tratamento para gambling, jogo de dinheiro, para abrir em Lisboa em 18 de Junho. Além disso, estamos a rever a portaria para a comparticipação de tratamento de programas de jogo nas comunidades terapêuticas, uma vez que estas só são comparticipadas para os programas de substâncias ilícitas ou de álcool. Estamos neste momento a articular com a tutela a revisão da portaria, no sentido de incluir a comparticipação dos programas de tratamento de jogo. Qual é a taxa de sucesso dos tratamentos a partir do que tem sido a frequência das recaídas? As recaídas fazem parte de qualquer patologia aditiva. Os estudos que existem de álcool e de recaídas são a nível internacional. Não são estudos nacionais. O que dizem os estudos internacionais? Que as recaídas são muito frequentes, sobretudo no primeiro ano, a altura mais crítica. São na ordem dos 70%. É muito difícil, ao fim de um ano, haver doentes abstinentes. É fundamental haver programas diferenciados e o mais acessíveis possível aos doentes. Também a detecção precoce nos problemas associados ao álcool é fundamental. É crucial haver uma articulação com as unidades locais de saúde para que os profissionais fiquem capacitados o mais possível para a detecção precoce dos problemas de dependência de álcool numa fase inicial, tanto nos cuidados de saúde primários como nas outras especialidades hospitalares. Estamos a pôr esta questão em cima da mesa e vai entrar no nosso plano estratégico para o próximo ano. Consumos de risco “Não podemos ser a favor da legalização da cannabis” As pessoas estão a consumir menos substâncias ilícitas e álcool, mas os que consomem, fazem-no de forma mais excessiva. No nosso país, o problema da toxicodependência é maior do que já foi? É diferente. Os consumos problemáticos são mais graves. E mais frequentes? Mais frequentes e mais graves. Então o problema é maior. Das dependências, sim, e também do consumo nocivo. O consumo problemático inclui o consumo nocivo, que provoca danos na saúde física ou mental ou consequências para o indivíduo, e também a dependência, que já é uma doença psiquiátrica grave, com um conjunto sintomático característico. Portanto, apesar de haver menos pessoas a consumir substâncias ilícitas e álcool, na população em geral, os que consomem, consomem de uma forma mais excessiva. O mesmo acontece com o consumo de cannabis? A questão da cannabis é muitíssimo importante porque há uma desvalorização enorme das consequências negativas do consumo de canabinóides, em geral, e das novas substâncias psicoactivas e de outros tipos de substâncias. Por parte dos jovens, e não só. Na questão da cannabis, isso é muito relevante. Temos assistido a um aumento dos casos de dependência de cannabis na população. Apesar de haver um consumo sobreponível, ligeiramente menor, de cannabis na população em geral, os casos que existem são de maior gravidade. São consumos já muito problemáticos, com uma dependência associada desta substância. Não é só um consumo esporádico. Essa maior dependência está relacionada com a crescente potência? Quando estamos a falar de aumento de potência, estamos a falar, sobretudo, das novas substâncias psicoactivas. As novas substâncias psicoactivas, geralmente, são os canabinóides sintéticos. Os canabinóides sintéticos têm essa questão da maior potência, 100 vezes superior ao cannabis normal. Além de ter esse aumento da potência, que está associado a consequências muito mais graves, porque aumenta a impulsividade, aumenta a agressividade, aumenta a violência e o risco de surtos psicóticos. Para lá disso, não é detectado nos testes toxicológicos normais e podem ser importados nas compras online e, portanto, o acesso está muito facilitado. Como encara o debate sobre a legalização da cannabis? A cannabis tem aqui a questão do THC [tetra-hidrocanabinol]. O THC é, na lei nacional, completamente proibido. É ilegal. E não existe ainda evidência científica que demonstre uma vantagem na sua comercialização. Nós, enquanto instituto de saúde e enquanto não houver evidência científica que nos permita tomar alguma posição em contrário, não podemos ser a favor da legalização. Umacoisaéa cannabis parafins medicinais, que é legal. Outra é compra para fins recreativos. Pela legislação portuguesa está completamente proibido. Os riscos para a saúde do consumo de cannabis são conhecidos. E, portanto, é isso que nos preocupa, enquanto ICAD e enquanto instituto na área da saúde. Há dependência crescente de cannabis no nosso país, há surtos psicóticos associados à cannabis. Muitas vezes, há o desencadear de patologias psicóticas, como esquizofrenia, pelo consumo dos canabinóides. Isto são riscos sérios para a saúde e essa é a nossa principal preocupação. Joana Teixeira a dirige instituto na área das dependências s Sociedade, 14/15 Quem se quisesse tratar da dependência do álcool ou ia às consultas ou ia para o internamento Temos a possibilidade de olhar para estes doentes como doentes que são e integrá-los no sistema de saúde A questão da cannabis é muitíssimo importante porque há uma desvalorização enorme das consequências negativas do consumo de canabinóides, em geral Ana Dias Cordeiro