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QUASE 200 MIL NA RUA EM BELGRADO CONTRA VUCIC: “OS ESTUDANTES ACORDARAM-NOS”

Público Online

2026-05-25 21:05:32

No segundo maior protesto desde a queda do último ditador jugoslavo, sérvios saíram às ruas para exigir eleições antecipadas, em apoio ao movimento dos estudantes em protesto há um ano e meio. “Somos veteranos de guerra e estamos aqui para proteger os estudantes. O que quer que lhes façam, nós seguimo-los”. Zoran Milovanov, 62 anos, acredita que a sua geração perdeu a oportunidade de reformar a Sérvia. Permitiu que, nos últimos 12 anos, Aleksandar Vucic e o Partido Progressista Sérvio (SNS) erodissem a imprensa livre, as instituições democráticas e abrissem caminho para um autoritarismo alimentado por uma corrupção endémica. E, antes ainda, durante os anos 1990, que os seus antecessores tivessem mandado homens como ele para a frente de combate "matar irmãos" nas guerras da Jugoslávia. “Sentimo-nos culpados por termos ficado calados tanto tempo", afirma. Por isso, quando há 18 meses os estudantes sérvios começaram a bloquear as escolas e a ocupar as ruas exigindo eleições antecipadas e propondo-se como uma nova força política, ele foi também. Primeiro, não lhe passou pela cabeça que o faria como militar. Não fez carreira no Exército, quis enterrar esse passado. Mas nas manifestações encontrou outros como ele: veteranos, alguns oficiais com décadas de serviço militar, críticos do governo do SNS e da presidência de Vucic, alinhados com as reivindicações de transparência e as propostas de reforma democrática, e revoltados com uma elite política "refém da criminalidade” organizada. "Não se trata apenas tirar um homem do poder, é mudar todo o sistema”, explica. O protesto deste sábado na praça Slavija, em Belgrado, terá sido o segundo maior desde a queda do ditador jugoslavo Slobodan Milosevic, em 2000, reunindo 180 a 190 mil manifestantes, segundo cálculos da organização não-governamental Arhiv Javnih Skupova, especializada na medição de reuniões públicas. A polícia estimou cerca de 34 mil. Maior só a concentração de há um ano, que terá levado 300 mil pessoas à rua. A mobilização dos estudantes começou no final de Novembro de 2024, 25 dias após o colapso de uma cobertura, recém-construída, na estação de comboios de Novi Sad, que matou 16 pessoas, cuja obra está sob suspeita de corrupção e negligência. A partir da Faculdade de Artes Dramáticas de Belgrado, o movimento espalhou-se por universidades e escolas secundárias por todo o país. Estudantes e professores ocuparam lugares de ensino, bloquearam estradas, organizaram manifestações locais e nacionais, e organizaram um movimento político que se propõe a disputar eleições legislativas antecipadas, que o Presidente Vucic prometeu, na sexta-feira, realizar até meados de Novembro. A solidariedade dos veteranos com os estudantes tornou-se visível no início de 2025, quando apoiantes do Governo protagonizaram agressões e atropelamentos intencionais contra os manifestantes, e uma associação de antigos pára-quedistas começou a organizar a sua protecção. Os mais diversos colectivos da sociedade civil foram-se juntando: sindicatos, de profissionais de saúde e artistas, a taxistas, agricultores e mineiros. "Vieram nacionalistas, liberais, esquerdistas, pessoas de inúmeras esferas políticas dizer: os estudantes têm razão", descreve Mirzad*, veterano bosnio-sérvio de 54 anos, pai de um dos estudantes nos bloqueios. "Sou um tipo pacifista que gosta de rock, que preferia ter ficado em casa e só voltar a ter pegado nesta boina [militar] para jogar frisbee. Mas temos que travar esta loucura.” A loucura que descreve é a perpetuação de condenados por crimes de guerra em cargos públicos, a corrupção, as execuções extrajudiciais e a colaboração da polícia no crime organizado , como a recente detenção do chefe da polícia de Belgrado pelo encobrimento do assassinato de um dos seus líderes. Foto Os manifestantes exigiram eleições antecipadas REUTERS/Zorana Jevtic A escolha é entre "a Sérvia e a máfia”, escreve o movimento Estudantes em Bloqueio. "Deixamos de conseguir distinguir quem nos protege de quem nos ataca”, afirma Natasa Maravic Jevtovic, engenheira de 58 anos, segurando fotografias de grupos armados e da polícia de choque, ambos de cara tapada. Natasa repete o mesmo que Aleksandra Jeremic, 53 anos, e Uro *, 50: desde 2000 e até ao despertar do movimento estudantil não protestaram. “Estávamos adormecidos e os estudantes acordaram-nos. Eles fazem-me sentir como se tivesse 20 anos: cheia de energia e de esperança.” Natasa e Aleksandra contam como crêem na sua luta anti-autoritária por uma Sérvia democrática, que reconstrua um sector cultural e educativo que consideram dilapidado pelos governos do SNS. "Não consigo entender como chegamos novamente a um estado autocrático”, afirma Uros, que colava autocolantes com o slogan “Os estudantes estão a ganhar" - a frase repetida nas t-shirts dos manifestantes, nas paredes por toda a cidade e, de forma particularmente concentrada, nos escritórios da Expo Belgrado 2027, uma das montras internacionais do Governo. "Não temos televisão ou rádio independentes; ainda há meios de comunicação digitais livres, mas este Governo também quer acabar com a liberdade online , é uma situação muito perigosa." Quebrar "uma mentalidade de silêncio" Já Nenad Vladisavljev, a empunhar uma bandeira roma, chama à atenção para a instrumentalização do voto da comunidade cigana nas últimas décadas. “Não temos direito a uma autonomia política: somos a comunidade mais pobre no país, a viver dos rendimentos do trabalho do dia-a-dia, por isso a intimidação e a compra dos nossos votos pelo partido do Governo é aceite”, diz, ecoando os alertas da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa, que monitoriza as eleições. “Mas a nova geração não aceita este país como ele existe”, afirma o sociólogo, de 48 anos. “Não alinha com a letargia da minha geração e das anteriores. Imagina um mundo novo e também nos convenceu que ele é possível.” Alcançável não por uma revolução, acredita, mas por uma luta “pacífica, paciente e persistente" pela substituição da actual elite política nas urnas. O movimento dos estudantes promete candidatar uma lista isenta de representantes partidários ou antigos governantes. Internamente, os estudantes já experimentam uma forma de autogoverno através de democracia directa: o plenum. Cada escola toma decisões, por maioria, em assembleias horizontais e participativas, onde as propostas são debatidas e redesenhadas e, quando maioritárias, levadas ao plenário da universidade ou agrupamento de escolas. Para implementar as decisões, há uma rede de grupos de trabalho, encarregue de funções específicas como estratégia, comunicação, logística, assistência médica e segurança. Foto Manifestante desafia a polícia de intervenção REUTERS/Uros Arsic Como Damián* e Bogdan*, finalistas do ensino secundário, há dezenas de responsáveis pela segurança, distribuídos pelas ruas que desaguam na praça Slavija, de walkie-talkies em constante operação. "O governo tenta silenciar-nos. Paga a quem nos bate, assusta, ameaça. Coage funcionários públicos a participar em contra-manifestações", diz Damián, com 18 anos acabados de fazer. Nas suas costas, ouve-se um cancioneiro folclórico vindo do Parque dos Pioneiros, onde centenas de polícias separam os manifestantes de um alegado grupo de apoiantes do governo. Bogdan acredita que a sua geração quebrou "uma mentalidade de silêncio", marca da repressão estatal de Josip Broz Tito e Milosevic. “Mas nós não vivemos as ditaduras comunistas, não temos medo.” Para Sta a*, estudante de Educação, 21 anos, estar na linha da frente dos protestos desde os 19 foi uma inevitabilidade. “Faço isto para que a minha irmã mais nova não tenha que o fazer: não tenha que o parar em frente ao trânsito para garantir que ninguém é atropelado, aguentar um cordão humano em frente à polícia, ser agredida por acreditar num país diferente. Quero que ela viva num lugar com esperança. E isso conquista-se assim.” Já desmobilizado o protesto, a polícia de choque avançou sobre barricadas de algumas dezenas de manifestantes nas imediações da Faculdade de Direito, onde estudantes reuniam em assembleia pela noite dentro. *Apelidos não mencionados a seu pedido Quase 200 mil pessoas terão participado nos protestos em Belgrado Zorana Jevtic / REUTERS Os manifestantes exigiram eleições antecipadas REUTERS/Zorana Jevtic Manifestante desafia a polícia de intervenção REUTERS/Uros Arsic Margarida David Cardoso