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O MUZEU QUE REJEITA HIERARQUIAS ABRIU HÁ UM MÊS E JÁ TEVE 16 MIL VISITAS

Jornal de Notícias Online

2026-05-25 21:05:31

Novo espaço cultural de Braga com procura acima das expectativas. Exposição permanente fica até outubro de 2027, mas há também programação complementar Irrequieto como é normal que um rapaz de quatro anos seja, Afonso corre, salta, olha, pergunta e chama a atenção no Muzeu. A mãe vai uns metros à frente, compenetrada nos quadros pendurados nas paredes, atenta às descrições que acompanham cada um deles, enquanto o pai o segue mais de perto, cauteloso, à distância de um esticar de braço para que nenhum gesto brusco da criança sirva para criar despesas desnecessárias. Foram ali movidos pela curiosidade. Como eles, muitos outros têm feito o mesmo. Aberto há exatamente um mês, o Muzeu - Pensamento e Arte Contemporânea, o novo espaço cultural que Braga ganhou por iniciativa da empresa dst, já recebeu cerca de 16 mil visitantes, segundo os dados oficiais. "Aproveitámos a entrada livre de quinta-feira para conhecer o novo Muzeu. Não somos propriamente entendidos em arte, mas somos curiosos", diz ao JN o pai de Afonso, Rodrigo Ribeiro, que não levou de casa nenhuma ideia preconcebida do que iria ver. De todos os 85 artistas que fazem parte desta primeira exposição ("Sejamos realistas, exijamos o impossível", um dos maiores lemas do Maio de 1968 em França), destaca Picasso como o nome que mais curiosidade lhe despertou. Quando o JN o encontrou, porém, Rodrigo ainda não tinha lá chegado. Aliás, ao contrário do que até se poderia supor, a única obra do consagrado pintor espanhol que o Muzeu tem não está no centro de um dos amplos e luminosos espaços de exposição, nem sequer com qualquer adorno especial ou indicação que leve imediatamente os visitantes para lá. "Painter and Seated Naked Model, with a Female Spectator" tem apenas uma iluminação própria, mas ténue, que é usada à noite para fazer sobressair no escuro o quadro de 19,7 por 23,9 centímetros que Picasso fez com água-forte, ponta seca e buril. É mais uma obra da coleção, no fundo. O primeiro da coleção Praticamente em frente a Picasso, a parede junto a uma janela com vista para o edifício da Câmara de Braga é ocupada por trabalhos de Alberto Péssimo, que foi com quem José Teixeira, o patrão da dst e fundador do Muzeu, se estreou no colecionismo de arte. "Este é o primeiro quadro da coleção", diz ao JN a diretora-geral da nova casa da arte contemporânea de Braga, Helena Mendes Pereira, apontando para "Pietá", obra de 1987, durante uma visita pelos cinco pisos do edifício reabilitado pelo arquiteto Carvalho Araújo. A história é curiosa: Teixeira e Péssimo conheceram-se por causa da Companhia de Teatro de Braga, o artista precisou de um portão para casa, a dst fê-lo e, como recompensa, o empresário recebeu uma obra de arte. Foi a partir daí que a coleção nasceu, há quase 40 anos. Não admira, por isso, que Alberto Péssimo tenha ali tanto destaque, o que também vai ao encontro de uma das premissas do Muzeu: ser um espaço para todos. "Os artistas estão misturados, independentemente de onde vêm ou dos currículos que ostentam, apenas em volta dos temas que definimos. Não criamos hierarquias e isso é disruptivo no contexto da curadoria contemporânea", afirma Helena Mendes Pereira. Talvez por isso, um dos visitantes que o JN ouviu na visita que fez ao Muzeu disse que saiu com uma "sensação de alguma confusão" quanto à montagem da exposição. "Acho que vou ter de voltar cá para ver melhor", graceja Pedro Duarte. Helena Mendes Pereira garante, no entanto, que faz tudo parte de uma estratégia e de um posicionamento vincado. "Por exemplo, no piso -1, temos a Evgeniya Antonova, que é uma artista ucraniana que está cá há quatro anos, ao lado do Pedro Cabrita Reis, um nome consagrado. Esta é a nossa forma de exercer poder. É dizer: estas são as nossas propostas e o público, através do seu olhar, decide", assegura a curadora. A exceção a esta lógica é o alemão Anselm Kiefer, que tem uma sala própria, com oito obras, uma delas a escultura "Ave Maria Turris Eburnea". "Até chegar ao Kiefer temos que passar por várias etapas", salienta Helena Mendes Pereira, para quem o objetivo do Muzeu é "despertar" uma reação nos visitantes. "É suposto não saírem daqui iguais", garante. Teresa Soares e Marta Pereira, outras duas visitantes que o JN encontra, saem "mais curiosas" sobre Kiefer. "Não conhecíamos, mas ficámos impressionadas com o trabalho dele", admite Marta. Museu vivo Além desta exposição que estará patente até ao final de outubro de 2027, onde há também obras de Nan Goldin, Candida Höfer, André Butzer, Paula Rego ou Julian Opie, o Muzeu tem propostas noutras áreas, com destaque para a música e a dança, através de vários ciclos temáticos. A programação deste mês encerra no dia 28, às 21 horas, com um concerto de jazz, a cargo do Quarteto de Rita Caravaca. "Há uma aposta muito forte para termos um museu vivo, com uma programação paralela que lança uma convocatória a todas as tribos", aponta a diretora-geral do Muzeu. Para Helena Mendes Pereira, esta é também uma das razões para que os números do primeiro mês de funcionamento tenham "superado muito as expectativas iniciais", porque "tem provocado a repetição dos públicos e feito com que outras pessoas que não têm necessariamente o interesse inicial da arte contemporânea descubram o Muzeu". Todas estas atividades complementares acontecem na Assembleia, nome dado ao auditório criado no quinto piso do edifício, com 146 lugares e mais quatro para pessoas com mobilidade reduzida. Neste último piso, há também uma exposição de fotografia de Alfredo Cunha, com rostos de diversas personalidades. Uma delas está virada ao contrário e tem uma indicação na parte de trás: "Quando merecer esta companhia, virem-me". Será que alguém o faz? Quintas-feiras grátis e horário alargado Fechado à segunda-feira, o Muzeu abre diariamente das 11 às 19 horas, incluindo fins de semana. Às quintas-feiras tem horário alargado até às 23 horas e pode ser visitado de forma gratuita - nos restantes dias, o bilhete de adulto custa 10 euros, metade para estudantes e maiores de 65 anos e é grátis para menores de 12 anos. "À quinta-feira, temos sempre superado as mil pessoas. O facto de o horário ser alargado até às 23 horas permite-nos chegar a uma população mais jovem, que tem menos disponibilidade durante o dia", explica Helena Mendes Pereira. Programa Ciclo de Jazz Em junho, o ciclo "Jazz no Museu" integra um concerto com o quinteto Maria João Vieira Leite, Mateus Oliveira, Francisco Melo, Vicente Oliveira e Afonso Henrique. É no dia 25, às 21 horas, no auditório do Muzeu. Clube de Escuta A 6 de junho, no âmbito do "Clube de Escuta", que concebe a música como espaço de experimentação e resistência, será recordada a obra "Oceanos", de Cândido Lima. Tem início marcado para as 19 horas. Dansa Contínua Integrado na programação "Dansa Contínua", Daniel Cardoso leva a palco, no dia 13 de junho, às 17.30 horas, um espetáculo inspirado em Aristides de Sousa Mendes, o cônsul de Portugal em Bordéus no ano da invasão da França pela Alemanha nazi. Introdução à Política "O que foi fácil e o que foi difícil na Constituição de 1976" é o mote para uma conversa com Jorge Miranda e Maria Inácia Rezola, no dia 6 de junho (17 horas), integrada no ciclo "Introdução à Política". Prémio de Literatura A fechar junho, no dia 27, a partir das 15 horas, o Muzeu vai receber o vencedor da edição de 2026 do Grande Prémio de Literatura dst para uma conversa sobre o livro premiado. O prémio celebra anualmente o melhor da literatura portuguesa, este ano dedicado à poesia. Ricardo Reis CostaMiguel Pereira