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IA É A NOVA BOMBA ATÓMICA OU O PAPA ESTÁ A EXAGERAR?

Observador Online

2026-05-25 21:04:56

O Papa quer desarmar a "bomba" da IA, enquanto o MAI se entretém com compadres no SIRESP. O Tribunal de Contas arma-se em engenheiro e o Estado continua a meter água nas tempestades. Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões. E o Vencedor é na Rádio Observador e em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Edição da tarde política de segunda-feira, 25 de maio, hoje com o Ajudo de França, o António Costa e a Raquel Abecasis. Raquel, ia começar por ti e pela encíclica do Papa Leão XIV, a primeira deste Papa. Como é que esta encíclica posiciona não só a Igreja Católica quanto à inteligência artificial, mas também o Papa Leão XIV? Eu acho que é mais um documento deste Papa que se enquadra muito bem na sequência de documentos que compõem a doutrina social da Igreja e, como o Papa hoje recordou, começaram com o seu antecessor de nome, Leão XIII, que publicou na altura a Rerum Novarum para falar de uma nova ordem de trabalho e das relações laborais que era importante acautelar naquela altura, finais do século XIX, princípios do século XX. E agora o Papa diz que este momento, o momento que estamos a viver com a introdução da inteligência artificial, é um momento igualmente revolucionário na história da humanidade. Eu não li ainda o documento com toda a atenção, mas parece-me muito importante que o Papa não tenha querido ficar de fora do momento atual que estamos a viver, em matéria de inteligência artificial e do que isso pode provocar nas nossas sociedades. Me parece que ele faz uma reflexão abrangente e, do meu ponto de vista, bastante compreensível. Ele faz quase um paralelo, que eu acho que é um dado interessante nesta encíclica, com o nuclear e com a forma como a descoberta do nuclear trouxe grandes avanços à humanidade, mas trouxe também grandes riscos à humanidade. E recorda que a Igreja tem se batido sempre pelo controle das armas nucleares e pela ideia de que as armas nucleares não devem ser utilizadas. E ele acaba por dizer quase a mesma coisa sobre a inteligência artificial, ou seja, reconhece o grande avanço e os grandes contributos que a inteligência artificial pode trazer à nossa vida, mas quando pede que seja sequer necessário desarmar a inteligência artificial, a ideia é exatamente esta, de que a inteligência artificial pode ser uma arma contra a humanidade. E ele depois refere alguns pontos, refere os pontos de que a inteligência artificial não substitui em nenhuma circunstância a consciência humana e diz que há um risco efetivo de que ela possa ser utilizada contra o homem no sentido em que toma decisões que devem ser eminentemente humanas e enquadradas numa visão de sociedade e que a inteligência artificial, por exemplo, no recrutamento de pessoas ou na utilização alusiva que pode ser feita na parte criativa, pode ser uma arma muito perigosa e muito destrutiva das nossas sociedades. Eu acho que é uma primeira reflexão, é uma reflexão importante e que, num certo sentido, não está fora do mundo. Acho que a partir do dia de hoje, os vários players que intervêm neste setor podem e devem levar em linha de consideração, e também os governos, aquilo que o Papa aqui diz, porque me parece que são reflexões. Ele próprio diz que recorreu a cientistas e a outras pessoas na sociedade para chegar a estas conclusões e acho que elas são úteis para não afastando uma evidência, que é a introdução da inteligência artificial no nosso cotidiano, ter as cautelas que a possam tornar num instrumento útil de conhecimento e de avanço da sociedade e não num retrocesso, porque, como ele diz, a inteligência artificial não é neutra e portanto é preciso olhar pra ela dessa forma. Nota positiva para o Papa. Dou a nota positiva, dou um 16 ao Papa Leão XIV. Eu obviamente também não li a encíclica completa, li espaços e sínteses, mas eu acho que como ponto de princípio, tens razão. Há uma primeira reflexão e isso é importante. Eu acho que é útil que o Papa se envolva nesta discussão e tenha uma visão. Mas confesso que esta visão é uma visão que eu diria confortável. Eu diria que é difícil alguém não partilhar a maior parte do que é escrito. O problema é o que não é escrito. Vamos ver, dois ou três pontos, de memória. É evidente que há destruição de postos de trabalho. Isso é uma evidência. Nós sabemos, todas as revoluções tecnológicas tiveram destruição de postos de trabalho. Não é preciso caricaturar e lembrar-nos o que aconteceu às pessoas que conduziam, se pode dizer assim, carroças, quando os carros emergiram como o meio de transporte favorito. O ponto não é apenas dos perdedores, que nós sabemos. O ponto é que também há ganhadores na sociedade. Não é ganhadores diretos no sentido econômico do termo, ganhadores beneficiados, que são pessoas que são beneficiadas por essas transformaçõesE o que os Estados podem e devem fazer na transição? Esse é o ponto difícil de fazer. Numa transformação tecnológica, que sabemos todos é muito mais rápida do que outras, elas têm sempre perdedores e ganhadores. Isto acontece sempre. Nesta, tem uma escala, uma dimensão, um impacto e uma rapidez que torna ainda mais necessário que os Estados garantam o apoio a quem não tem outra alternativa que não ser apoiado pelo Estado, porque não há maneira de se adaptar ao novo contexto, ou a criação de condições para que essas pessoas façam a transição. E esse é que é o ponto difícil. Como eu digo, sublinho, eu não li obviamente tudo, li excertos, procurei as primeiras notícias sobre a encíclica, mas esse ponto para mim é importante. Depois, há um tema que eu creio que o Papa, eu acho que é justo dizer, há quem defenda isto, que é preciso uma contenção na inteligência artificial. Não é muito comum, há dois ou três livros que eu confesso que não me lembro de nomes de autores, mas um deles, aliás, quando o escreveu, era professor na Universidade Americana, uma das primeiras pessoas a fazer reflexão estruturada sobre a inteligência artificial há 20 anos, e que hoje está, se não me engano, na empresa que desenvolve a inteligência artificial na Microsoft. Eu prometo que num próximo "Peça do Areia" vou trazer o livro só para não ser apanhado na curva, mas como não vinha preparado, não trouxe. Identificava grandes transformações na humanidade, identificava numa vintena. Estamos a falar desde a roda até à internet. E dizia que talvez apenas numa dessas grandes invenções, que foi a bomba atómica, houve acordos entre Estados, lá atrás, há uns anos, nós sabemos, infelizmente, isso até teve os seus percalços, mas em que se verificou uma contenção, isto é, não continua a haver uma corrida a mais bombas atómicas, a mais força atómica, e os Estados perceberam que era tão perigoso continuar nessa corrida, que a expressão é mesmo esta, houve uma contenção. Há quem defenda, eu aliás já ouvi o Sam Altman do OpenAI dizer que provavelmente era adequado haver uma contenção no desenvolvimento da inteligência artificial. O líder da Anthropic, que tem o Claude, e que entrou em discussão com o governo americano por causa da utilização da inteligência artificial, nomeadamente em decisões militares, também tem refletido sobre isso. O Papa, eu creio que não o dizendo, pelo menos não li ainda dessa forma, apela a uma contenção e a uma distribuição dos benefícios. Nessa área, exatamente. Concordo contigo. Sim, na questão do armamento. Não, isso seguramente, mas em todas. E dizendo: é preciso distribuir o benefício que a inteligência artificial está a criar por todos. Isso é uma coisa com que nós todos concordamos. Onde é que está o problema? É que a inteligência artificial chegou aqui, como outras invenções, porque há um incentivo económico a quem desenvolve e beneficia diretamente desse desenvolvimento. Se há uma decisão política, que do ponto de vista coletivo podemos no mundo, em Portugal e nos Estados Unidos, na China, obviamente, os grandes países que investem em inteligência artificial e que têm estas empresas, decidir isso. Mas se acabas com os incentivos, como é que se continua a inovação? Onde é que está a inovação? Porque a inovação resulta da existência de incentivos. Se eu digo assim: "Tu vais trabalhar muito e os teus benefícios vão para mim", provavelmente a tua decisão a seguir é: "Se calhar, não vou trabalhar tanto". E esse é um problema que eu creio que nos está interçado. Um terceiro, que me parece também relevante, é a regulação. E vai tirar o mesmo tema. Para tudo é preciso regulação e nós na Europa até sabemos que temos muita. A verdade é que, por um lado, nós europeus dizemos que temos regulação a mais e percebemos que os americanos e os chineses estão a trabalhar a 100 à hora. De repente, dizemos: é muito bom relatórios como o Draghi, e eu ouvi muita gente também aqui nesta nossa discussão dizer que relatórios como o Draghi de coleta sobre a independência europeia, a autonomia europeia estratégica, o excesso de regulação e é preciso libertar a economia europeia. Ora, vamos lá ver. A regulação é feita por quem? Pelos Estados. Admite-se. Precisamos de mais regulação e mais Estados. Mas nós também discutimos aqui muitas vezes que estas grandes empresas são os melhores lobistas, quer cá na Europa, em Bruxelas, quer nos Estados Unidos, para garantir que a regulação é feita a medida dessas empresas. Eu diria que é um documento muito importante, e até a comparação que fazias, não foi por acaso, a data desta encíclica não resultou por acaso. Não foi uma pura coincidência. É muito importante que isto se discuta. Mas eu esperava mais risco. Mais risco não é mais irresponsabilidade. Mais risco, mais compromisso, mais capacidade nesta coisa de não dizer apenas aquilo que nós todos sabemos que é, isto de facto está a transformar muito, isto de facto coloca-nos perante desafios que nós nunca tivemos, que estas grandes empresas, meia dúzia, estão com um poder maior que muitos Estados, não é de agora, esta inteligência artificial já traz. Precisava de ler, mas vou ler com maior profundidade para ver se isto nos leva a outros caminhos. Ainda assim dou um 12 à iniciativa, que eu acho que é obviamente muito importante. Judite Freire, vamos virar agora um bocadinho para a atualidade nacional e para esta polémica com o Ministério da Administração Interna e o presidente da empresa SIRESP, que é um problema que se vai também prolongando no tempo. Sempre que se fala em SIRESP vem normalmente com problemas associados. Sim, porque o general Paulo Viegas Nunes foi nomeado de novo para presidir ao SIRESP. Já lá tinha estado entre 2022 e 2024. E é o mesmo general a quem, segundo a carta de demissão do secretário-geral-adjunto do Ministério da Administração Interna, António Pombeiro, se atribuem, e passo a citar, "graves irregularidades, como contratações a compadres", que é uma expressão sempre muito curiosa, "pagamentos por serviços não prestados, nomeações em acumulação irregular e a tentativa de adjudicar um contrato à empresa da esposa de um colaborador." No rol destas irregularidades está, por exemplo, a contratação de uma empresa, interessa de quê, ligada ao tal suposto compadre de Viegas Nunes, que assinou contratos superiores a 94 mil EUR através de ajuste direto. António Pombeiro faz uma exposição a Luís Nunes, ao ministro da Administração Interna. Também faz referência a outro elemento da direção de Paulo Viegas Nunes, que é um colaborador que teria tentado requisitar uma prestação de serviço à empresa da sua própria esposa na ordem dos 12 mil EUR. Pombeiro disse isto ao ministro da Administração Interna, o ministro ouviu, mas há aqui uma sequência que merece atenção. O número dois da Secretaria-Geral do MAI apresenta a demissão por escrito e apresenta essas ditas evidências anexas. Não é apenas saber se o general fez ou não fez o que o Pombeiro diz que fez, não sabemos. É saber o que é que o ministro da Administração Interna fez com a informação que recebeu e o que decidiu fazer com ela, ao que parece, foi nada. Diz que já houve uma auditoria, mas era interessante saber concretamente, perante estas denúncias, também elas concretas, como é que a auditoria as descartou. Só para ficarmos todos esclarecidos sobre a questão. Entretanto, a Iniciativa Liberal e o Chega pediram audições parlamentares, como seria de esperar, e o trabalho de um governo é sempre fugir às polémicas, não é cair nelas desta forma e, portanto, eu espero para ver quais são os desenvolvimentos deste caso, que eu imagino que haja algum desenvolvimento muito em breve. Sim, também um esclarecimento do Ministério da Administração Interna, no fundo, a reafirmar a confiança em Paulo Viegas Nunes e a dizer que essas desconformidades foram corrigidas na altura e, portanto, não são um problema. Nota para tudo isto. Eu enquanto não ouço do ministro da Administração Interna essa reafirmação, vou-lhe dar um 10. António Costa, vamos provavelmente ter de passar depois o tema também para a segunda parte, mas a questão da reforma do Tribunal de Contas que, para já, conta com a viabilização do PS e a continuidade para ir a debate face à proposta do governo. O que é interessante, apesar de tudo, porque parte de um princípio, eu não me recordo de uma reação tão corporativa de instituições como a que tenho visto nesta do Tribunal de Contas e até com o envolvimento de associações internacionais onde o Tribunal de Contas e responsáveis do Tribunal de Contas estão presentes. O que me parece, de facto, eu diria, excessivo face ao que se espera de uma posição de um Tribunal de Contas, que obviamente era uma posição crítica ou não. Acho que o Tribunal de Contas e a sua presidente já passaram há algumas semanas da linha de parecer técnico à intervenção política. Isto coloca aqui dois problemas. Por um lado, esta mistificação de que o visto prévio é que é o garante do combate à corrupção, como se o Tribunal de Contas existisse para combater a corrupção. O Tribunal de Contas não existe para combater a corrupção. Aliás, foi-lhe dado demasiado poder e eu acho que os sucessivos políticos, por razões diversas, umas boas, outras não tão boas, seguramente, foram fechando os olhos a uma crescente afirmação do Tribunal de Contas, muito para lá do que é garantir a legalidade dos contratos à luz da lei que os próprios políticos fazem. Eu recordo-me sempre, isto não tem muito tempo, da decisão de não parecer o Tribunal de Contas a um visto prévio, o Tribunal de Contas ter decidido que o novo hospital de Todos os Santos, que está por construção, deve ter infraestrutura sísmica. Vamos lá ver, não é o Tribunal de Contas que tem que decidir isto. Eu até acho muito razoável que tenha isso, não é obviamente o ponto, e até estou disponível para juntar-me à manifestação dos que perguntam: "Mas afinal, por que não tinha?" Embora eu também saiba a resposta, é porque é mais caro. Mas o Tribunal de Contas não tem que se meter num concurso público. No projeto em si. No projeto de um governo e dizer: "Atenção, que isto é que é verdadeiramente perigoso e mostra..." A menos que a lei diga que é obrigatório. Não, mas não diz. Portanto, não diz que o concurso foi feito. O que o Tribunal de Contas veio dizer? Aliás, citando para o efeito notícias, foi buscar notícias, e as notícias estavam bem feitas, dizendo: "Atenção, vai haver um hospital e nós temos a experiência histórica do que temos aqui em Lisboa e este hospital vai ser construído sem zona sísmica, sem proteção sísmica." O Tribunal de Contas diz: "Atenção, meus amigos, é bom que tenha, porque se não tiver, os senhores que estão a decidir isso vão ter problemas conosco." Isto é uma coisa que vai para lá de qualquer coisa aceitável do ponto de vista daO que é a função do Tribunal de Contas? O Tribunal de Contas não é o Ministério Público, não é a Polícia Judiciária, também não investiga corrupção, como também se fôssemos ingénuos acharmos que quem quer ser corrompido ou corromper não manda tudo direitinho para o Tribunal de Contas para o visto prévio. Vai já com o anexo a dizer: "Olha, vai mais aqui uma nota com o contrato anexo com os 5% de comissão." E António Costa estavas a dar um exemplo de como às vezes o Tribunal de Contas pode exceder no seu alcance. Excede mesmo, tem excedido mesmo. E depois esta ideia, um bocado peregrina, de que o Tribunal de Contas tem essa competência e que é por causa do Tribunal de Contas que a corrupção é maior ou menor, o que obviamente também não é verdade. Eu acho que a passagem para a discussão na especialidade parece-me útil, porque eu percebo o que o governo quis fazer quando alterou as condições de responsabilidade financeira dos titulares de cargos políticos, alinhando com a legislação dos gestores do setor privado. Na parte técnica, essa que vale a pena refletir, o Tribunal de Contas, por exemplo, o parecer alerta que se está a desresponsabilizar, mais do que a alinhar público e privado, a desresponsabilizar o público. Eu aí devo dizer que eu acho que é preciso garantir uma coisa que o governo não pode dar nem a perceção, nem as condições para que a uma responsabilidade e um contrato de confiança de uma fiscalização a posteriori, se junte a ideia de que os titulares, que acho que não são só os gestores, podem arriscar mais, sendo que o dinheiro é de todos, é dos contribuintes, não é daquelas empresas em particular, nem das direções gerais, nem dos ministros, nem dos presidentes de câmara. Eu acho que aí pode haver lugar a uma clarificação ou até a manutenção do regime tal como ele está, embora eu também perceba que um titular de cargo público, político, numa entidade reguladora, numa empresa pública, autárquica ou não, que começa a olhar para uma decisão e percebe que a facilidade com que pode ser acusado pelo Tribunal de Contas e ser responsabilizado financeiramente, cria obviamente um incentivo que nós não queremos irresponsabilidade, mas também não queremos seguramente que os decisores sejam com simbolismo e medo, e não decisão por medo e não por convicção e fundado, porque erros cometem-se no setor público e setor privado, com titulares de cargos políticos e não políticos. Não se pode criar essa irresponsabilidade ou essa perceção de irresponsabilidade, mas eu acho que é importante criar condições para que quem é escolhido para gerir o dinheiro público possa decidir em consciência, obviamente fundada e fundamentada. Não estou a admitir obviamente decisões com dolo ou negligência grosseira, em que há 10 pareceres que dizem vai pela esquerda e a pessoa decide ir pela direita só porque sim. Isso obviamente tem que ser responsabilizado. Mas essa discussão na especialidade eu acho que é um aspeto positivo e é interessante que tenha sido o PS, que obviamente foi governo durante anos, porque eu até percebo o incentivo do Chega. São todos os corruptos, todos querem é roubar e portanto vocês vão aqui arranjar maneira de haver mais roubo do património público. Quem foi governo? Aliás, eu aconselho a leitura, agora vou citar a concorrência que é o Jornal de Negócios, de um artigo do ex-ministro Fernando Medina, sobre o Tribunal de Contas, porque quem viveu a decisão pública, política e tem de conviver com o processo de decisão que o Tribunal de Contas impõe e os chefes de intervenção que impõem, obviamente que têm uma sensibilidade diferente para esta discussão. Acho que há um terceiro ponto, finalmente para acabar, é que isto se tornou de tal forma que se o governo for derrotado pelo Tribunal de Contas, não é só este governo que está em causa. De facto, estamos nas mãos das corporações e as corporações decidem melhor entregar o poder às corporações e elegemos corporações. Tens uma data para atribuir? Eu dou um sete ao Tribunal de Contas e à sua presidente, não é pelo parecer em si, é pela forma como se posicionou nesta discussão. Eu, aliás, estou para ver se o Parlamento virá aprovar isto, se a presidente do Tribunal de Contas continua em funções, tendo em conta a natureza não só das críticas, como das insinuações que deixa perceber em relação à proposta que está em cima da mesa. E salvo erro, entrou já durante o governo de Luís Montenegro. Sim, tem dois anos e tem mais dois anos de mandato, mais ou menos. Ricardo Cacis, o Diário de Notícias publicou um barómetro que dá conta que os portugueses querem uma reforma laboral, só que não querem esta. Ora pois, claro. O que é que quererão? Apesar de as sondagens valerem o que valem, como nós aqui hemos sempre dito. E são retratos do momento. E são retratos do momento. Eu acho que era interessante Não tanto nos grandes números, porque a primeira percepção que se tem é que todos querem uma reforma, mas não querem esta. É como se todos achassem que deve ser mudado tudo menos o meu cantinho, e eu acho que é um pouco essa a perspectiva deste resultado. As pessoas acham que é importantíssimo, mas depois não venham mexer nos meus direitos. Acho que o grande número tem muito também essa leitura, mas no entanto mostra aqui alguma abertura. Olhando para o pormenor da sondagem, acho que ela tem dados interessantes que deviam levar o governo a fazer uma análise séria aos dados que aqui estão e agir em conformidade, porque depois na discriminação dos eleitores dos vários partidos e o que pensam sobre a reforma laboral, chega-se à conclusão que no Chega, 80% dos eleitores concordam que deve haver uma reforma laboral. 53% são contra aquilo que o governo está a propor. A Iniciativa Liberal também tem um número altíssimo, 83%, e esses não têm nenhuma questão em relação à reforma que está em cima da mesa, mas os eleitores da AD, 44%, discordam também daquilo que o governo está a propor. E o que eu acho que isto devia levar a pensar, eu já disse isto antes destes dados desta sondagem e volto com este tema, não sei se foi aqui que eu disse, mas até tenho ideia que também já falei disso aqui, é que o retorno a certas questões, como a questão da amamentação neste diploma que foi agora para o Parlamento, vem contaminar a discussão de uma forma que desresponsabiliza, por exemplo, o Chega, cujos 80% de eleitores até concordam com uma reforma laboral. E vem dar argumentos a André Ventura, que já não os tinha quando se meteu naquela trapalhada de baixar a idade da reforma e começou a tentar emendar a mão, eis senão quando lhe aparece uma proposta a retomar questões que não têm nenhum significado para esta reforma laboral, que não têm nenhum peso, que não têm nenhuma importância e, no fundo, voltou a focar a discussão em coisas que são completamente acessórias e não têm nenhum interesse. E com isso, o governo é capaz de estar a comprometer o sucesso de uma reforma que evidentemente terá que ser negociada com os parceiros no Parlamento, e estes números mostram que é à direita que esses parceiros estão, mas é preciso ter algum tato político para fazer esta negociação. Não é recentrar nos pressupostos errados. Exatamente, e é tudo aquilo que não aconteceu até agora e que eu já não sei muito bem se tem emenda. Até porque a sondagem diz também que há uma grande percentagem que já deu esta reforma como perdida, à volta de 40%. De facto, ao fim de um ano desta discussão, não se percebe muito bem que direção política é que existe dentro do governo, que deixa que estas coisas aconteçam, que não se aproveitem o tempo passado e o tempo corrido para tentar tirar vantagem e tentar obter resultados, e se volta com o caminho todo para trás por causa de uma questão que é manifestamente residual. Não é só residual, não há nenhuma justificação. O próprio governo não é capaz de dar uma justificação para insistir com esta questão. Que nota é que dás à atitude do governo? Eu dou à atitude do governo um seis, porque acho mesmo que um pormenor pode ter deitado por água abaixo uma reforma. E aos meses que já se fala dessa parte específica da reforma laboral que agora voltou. Que tinha desaparecido. Ao longo dos meses, tinha desaparecido. Eu só quero terminar dizendo que, da minha parte, mas essa sondagem, de facto, para lá desses erros que também existem, é que os portugueses não querem reforma nenhuma, na verdade. Nem a esquerda, nem a direita. A pessoa diz que isto está mal, mas na verdade, os portugueses acham que está mal, mas pode ficar pior. É melhor estar assim, está mal, do que ficar muito pior. E por isso é que as pessoas vão dizendo que o país não anda, o país não se mexe. Mas isso é natural, que haja sempre uma resistência à mudança. Agora, por isso mesmo, é preciso habilidade política para conseguir. É natural, e no nosso caso, em Portugal, a dependência do Estado também explica alguma coisa. Mas, sobretudo, obviamente que é preciso capacidade de explicação para mostrar porque é que, de facto, o tema da amamentação não é um bom caminho. Seguramente também não é por causa disso que a produtividade vai aumentar ou vai diminuir. Não contribui para a discussão, só torna tudo muito mais difícil. Mas os portugueses não querem mesmo reformas. Isso é que é um bloqueio, porque há o bloqueio do país que não quer reformas. Eu já estou um bocado cansado do termo reformas, já estou tão gasto. Estás como o outro António Costa. Mas eu quero-as. O outro António Costa não as queria, eu quero-as. Mas mudanças. As pessoas não querem mudanças nenhumas, apesar de perceberem que isto está mal. Isso é que é um bloqueio, que é um bloqueio político que torna uma perspetiva mais otimista difícil de se ter. Já só temos tempo para mais um dos dois temas que ainda tenho aqui no menu. Judite, a questão do relatório publicado pela Presidência da República sobre as tempestades revela mais uma vez que o país não estava preparado para um evento destes. Sim, nós tivemos António José Seguro a passar uma semana em abril Percorrendo os estragos das tempestades, viu, ouviu e tomou notas e um mês e meio depois publicou as conclusões, o que é muito salutar. E as conclusões são um inventário de falhas do governo. A governação da crise revelou insuficiências de coordenação, clareza e interoperabilidade, que é o mesmo que dizer que quando o país mais precisou do Estado- Fizeram as férias. O Estado funcionou a postos ou não funcionou, o Estado funcionou aos bocados. E foi isto que António José Seguro analisou das provas que andou a recolher. Eu acho que o documento é muito cuidadoso na forma, chama-se instrumento de trabalho, um contributo para o futuro. Mas depois a substância é muito clara. A lentidão dos apoios, a persistência de situações por resolver, falhas nas telecomunicações, na energia e nas acessibilidades. E para muitas famílias, aquilo que mais pesa é que esta crise ainda não terminou. Eu acho que é uma questão que vale a pena fazer. A presidência aberta é uma figura legítima, o presidente vai para o terreno, ouve as pessoas, e eu acho que Seguro usou-a bem. E o relatório que dela resultou é, na sua maior parte, factualmente consistente com o que outras vozes já tinham dito sobre a resposta do Estado. Eu acho que há aqui também um exercício de poder que convém nomear. Este relatório foi enviado aos grupos parlamentares antes de ser tornado público e eu acho que isto não é um gesto neutro. É uma peça que entra no debate público com algum peso institucional. E eu acho que nenhum partido, a começar pelo PS, vai deixar de usar como munição. E isso não é mau. Nota positiva. Viste como acabei bem certo? Nota positiva para António José Seguro. Nota positiva. E vai um 15 para António José Seguro. Muito bem, já não temos, infelizmente, mais tempo. Fica por aqui a edição de hoje. Estamos com nota de vencedor. Exato, uma nota positiva nesta edição de hoje de "E o Vencedor?". Estamos de regresso amanhã nas manhãs 360, com a Helena Matos, também com o Miguel Santos Carapatoso e o Bruno Vieira Amaral. Nós ficamos por aqui. Rádio Observador, Bruno Vieira Amaral, José Manuel Fernandes, Paulo Ferreira