NOVOS BARRANCOS DE CEGOS
2026-05-24 21:09:07

Uma fotografia tirada junto da Assembleia da República deixa ver um pobre indigente deitado num banco de jardim e, junto, um cartaz onde se lê, em mau português, este apelo pungente: “Quero deixar a subesidiodependencia. Para si, Doutor André Ventura. O meu probelema é saude. Preciso de ajuda”. E mais, junto ao cartaz, um pedido de esmola. Esta é uma imagem terrível deste tempo sem memória, nem fraternidade, nem compaixão, em que a cega ignorância pode levar alguém em desespero a clamar pelo milagre salvífico, um milagre que podia chamar-se “Ex-Voto a Santo André Ventura”. A repulsa causada por esta migalha de alienação máxima mostra onde chegámos em indigência, em ignorância e miséria! Miséria física, social e moral: o grito de náufrago não se dirige nem ao Presidente da República, nem ao primeiro-ministro, nem ao Governo, nem ao Parlamento no seu conjunto, nem ao SNS, mas sim ao político evocado. No cartaz, entre erros gramaticais crassos, alguém recorre a quem pensa ser a última bóia de salvação um apelo ao salvador da Pátria! Para que venham tempos novos, temos mesmo de passar pela idade dos monstros, como disse Gramsci? Parece ser essa idade, esse recuo civilizacional, que já está aqui a morar connosco, tal como esta desgraçada imagem revela no seu grito surdo e deslocado! Em 1568, Pieter Brueghel pintou uma excepcional Parábola dos Cegos (Museo de Capodimonte): poucas pinturas existem no mundo que sejam tão actualizadas e comprometidas com dar rosto à miséria. Sim, a ignorância e a cegueira colectiva conduzem ao abismo. E porque a Arte é o ar bom que respiramos e está, como a Poesia, acima das sombras opressivas e abre sempre novos mundos com asas e cores, evoco Camões, que sabia denunciar aqueles que enganam os incautos do “pobre povo” e exploram “o suor da servil gente” e enganam “o pobre povo”, em poemas que trazem um amargo sabor de impotência. Confiemos ainda num futuro com utopia, uma utopia que traga Futuro mais digno, e que imagens como esta não mais se repitam. E se tal não for possível por desígnio dos deuses cruéis, supliquemos ao menos por um futuro com imaginação e decência, em que uma imagem como esta e apelos de miséria como estes não mais tenham lugar! Vítor Serrão