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VIDA & PAIXÕESCRISTIANO RIBEIRO

Paredense (O)

2026-05-24 21:09:05

Médico de clínica geral, histórico militante do PCP e fgura marcante da vida cívica em Paredes, Cristiano Ribeiro, 69 anos, natural de Rio Tinto (Gondomar) e residente em Cete, construiu um percurso onde medicina e intervenção social caminham lado a lado. Foi autarca em várias candidaturas e, perante falhas do Serviço Nacional de Saúde, chegou a dar consultas gratuitas na Junta de Freguesia de Parada de Todeia. Nesta conversa, revisita a infância, o 25 de Abril, a profssão e o sentido de compromisso com a comunidade. Origens e infância Quem é o Cristiano Ribeiro antes da vida pública? Que memórias guarda da infância? Nasci em Medancelhe, em Rio Tinto. Guardo memórias de uma infância feliz, embora muito circunscrita ao mesmo espaço geográfico, com jogos ao ar livre futebol, bicicleta e exigência escolar. Tive uma família nuclear com um irmão mais velho e três avós presentes, embora tenham falecido cedo. Há algum momento que ainda hoje o acompanhe? A consciência da pobreza que nos rodeava. A minha família vivia com alguma estabilidade a minha mãe tinha uma mercearia e o meu pai era encarregado de armazém e sócio de um armazém de vinhos em Campanhã , mas recordo particularmente os “anjinhos”: procissões silenciosas de recém-nascidos que partiam de zonas pobres para o cemitério de Rio Tinto. Parávamos os jogos e ficávamos em silêncio. Como era a comunidade onde cresceu? Fechada, no sentido em que todos se conheciam, mas muito solidária. O Alto de Medancelhe era quase uma “ilha”, com cerca de 70 pessoas, três mercearias, um sapateiro, uma fábrica de móveis, uma pequena escola informal e outros pequenos negócios. Que valores familiares o marcaram? O valor do trabalho, da exigência intelectual e do respeito. E a ambição de alcançar um curso universitário algo inédito na família. Houve infuências decisivas na escola? Sim. O professor primário Pimenta foi determinante. Era exigente, duro, mas premiava o mérito. Uma Vida de Coerência e Entrega Juventude e formação O que mudou na juventude? A exigência de autonomia. Fui para o Liceu Alexandre Herculano e depois para a Faculdade de Medicina do Porto. Que desafos enfrentou? Foi um período difícil. A família não compreendia bem o novo contexto despesas, relações, exigências e o apoio era limitado. Que interesses começaram a ganhar forma? O desporto, sobretudo o atletismo, embora com limitações impostas pela família, e a leitura. O 25 de Abril e a consciência política Como viveu o 25 de Abril de 1974? Já desde 1973 acompanhava grupos de estudantes com atividade política contra a repressão, a censura e a guerra colonial. No dia 25 de Abril estava em casa e vi com surpresa as mudanças na televisão. Foi aí que se consolidou a sua ligação ao PCP? Sim. Primeiro através da União dos Estudantes Comunistas e, a partir de 1976, como militante do Partido. Defne-se como um “comunista dos sete costados”? Não gosto da expressão, mas sim. É uma questão ideológica, de valores e de experiência de vida. Medicina como missão Porque escolheu ser médico? Foi uma decisão repentina, quase um “flash”. A família esperava que seguisse engenharia. Como foi o percurso académico? Difícil. A atividade política condicionou bastante o percurso. Além disso, o curso era mal estruturado e desmotivador. Quais foram os momentos mais gratifcantes da carreira? O final. Serviço à comunidade Como surgiu a decisão de dar consultas gratuitas em Parada de Todeia? Da necessidade da população, do desafio do então presidente da Junta, Álvaro Pinto, e da vontade de dar à política um lado útil. Que realidade encontrou? Pessoas com necessidade de cuidados médicos, que inicialmente estranharam, mas depois compreenderam a iniciativa. Política e intervenção cívica O que o levou à intervenção autárquica? A política local é um pilar da cidadania. Seja no poder ou na oposição, o importante é intervir e propor. Acredita que fez a diferença? Sim. Como vê a sociedade atual? Mais afastada da política e mais vulnerável à irracionalidade e à violência. Que prioridade defniria para o concelho? A criação de lares, centros de dia e bibliotecas locais. Vida pessoal e interesses Para lá da medicina e da política, quem é Cristiano Ribeiro? , Que hobbies mantém? Gosto de ler, escrever, ouvir música, teatro e campismo. Há algo que gostaria de ter começado mais cedo? O teatro. Que referências culturais destaca? Tenho gostos pouco comuns na minha geração: gosto de Placebo, do filme As Horas e de A Mulher Leopardo, de Alberto Moravia. Figuras que admira? Álvaro Cunhal e José Saramago. Olhar sobre o tempo Como vê hoje o mundo? Estou mais pessimista, mas também mais exigente. Como encara o envelhecimento? Com naturalidade, apesar de uma doença que atualmente me limita. Identidade e legado Como se defne? Sério, humano, necessário com humor. Há projetos por concretizar? Publicar um livro com experiências de vida e crónicas, e voltar ao teatro. Que diria ao “menino Cristiano”? Que devia ter ousado mais. E às novas gerações? O presente não garante o futuro. Sonhar é essencial para enfrentar as difci uldades. PUB António Orlando