CARROS QUE TIVERAM DE MUDAR DE NOME À ÚLTIMA HORA
2026-05-24 21:09:04

Antes de chegarem aos concessionários, muitos automóveis, alguns bastante conhecidos, quase tiveram nomes completamente diferentes. Dar nome a um automóvel parece simples, mas não é. Às vezes, basta escolher a palavra errada para transformar uma decisão de milhões de euros em dores de cabeça e embaraço a nível internacional. Entre barreiras linguísticas, choques culturais e batalhas legais, há modelos que chegam ao mercado já condenados a mudar de identidade. Um nome que funciona num país pode soar ofensivo noutro. E aquilo que parecia uma ideia brilhante numa sala de reuniões pode tornar-se um problema de relações públicas à escala global. O mais curioso? Continua a acontecer, mesmo numa indústria onde existem equipas inteiras dedicadas a evitar precisamente esse tipo de desastre. E quando o problema explode já depois da apresentação oficial, o recuo custa muito caro. Não apenas em dinheiro, mas também em imagem. Hoje, recordamos alguns dos casos mais insólitos da indústria automóvel. Carros que mudaram de nome à última hora e as razões que obrigaram as marcas a voltar atrás. Milano é palavra amaldiçoada na Alfa Romeo Este é um dos casos mais recentes e um dos mais caricatos. Antes de ser Junior, o B-SUV da Alfa Romeo foi apresentado em 2024 com o nome Milano, uma homenagem à cidade natal da marca, Milão. Parecia uma escolha natural e emotiva, mas durou muito pouco tempo devido a uma intervenção pouco usual do governo italiano. © Razão Automóvel Estivemos lá, na apresentação do Alfa Romeo Milano, mas foi um momento que acabou por envelhecer mal Adolfo Urso, o ministro italiano da indústria, declarou a utilização do nome ilegal: “um carro chamado Milano não pode ser produzido na Polónia. Isto é proibido pela lei italiana”. Na altura foi mais uma “acha para a fogueira” na relação conturbada entre a Stellantis e o governo italiano. Poucos dias depois, a Alfa Romeo anunciava a mudança do nome para Junior e Milano, mais uma vez, desaparecia da história oficial da marca. Mais uma vez? Sim. O que torna esta história mais caricata, é que não foi a primeira vez que o construtor se viu obrigado a abdicar do nome Milano. No início da década passada, a Alfa Romeo já tinha tentado batizar o Giulietta (2010-2020) com o mesmo nome. Já estava tudo pronto para lançar o novo familiar compacto chamado Milano. Mas viviam-se tempos turbulentos - estávamos em plena crise financeira global - obrigando muitos construtores a tomar decisões difíceis. Para reduzir custos, o então Grupo FIAT decidiu levar a Alfa Romeo de armas e bagagens para Turim, abandonando a sua cidade-berço, Milão, e encerrando a histórica fábrica de Arese. Os trabalhadores revoltaram-se com a ideia de ver Milano, o nome da sua cidade, atribuído a um carro que simbolizava precisamente a sua saída. A marca cedeu à pressão e resgatou o histórico nome Giulietta à última hora. Descubra o seu próximo automóvel: Renault não gostou do FIAT Gingo No início deste século (2003), a FIAT preparava-se para reformar o Panda original e o Seicento, com um citadino muito mais moderno e prático de seu nome Gingo. Foi mostrado em Genebra, já tinham sido impresso os catálogos e outros materiais de comunicação e as primeiras unidades já saíam da linha de produção, quando a Renault bateu à porta . Apresentação pública do FIAT Gingo durante o Salão de Genebra em março de 2003. A semelhança fonética com Twingo era demasiado evidente para ser ignorada e a marca francesa ameaçou a marca italiana com um processo judicial caso esta não recuasse. Apesar de estar a pouco mais de um mês do lançamento, a FIAT acabou por recuar. O nome Gingo foi engavetado e a solução mais rápida foi fazer regressar o nome Panda, que se mantém até hoje. Volvo pisa calos da Audi e quase envolvia a Ferrari Em 1995, a Volvo estava prestes a lançar o sucessor dos 440/460 com dois novos modelos: a berlina S4 e a carrinha F4. O “S” era referência a sedan e o “F” a flexibilidade. Uma lógica interna simples e coerente. © Volvo Não é foto-montagem: esta foi uma das primeiras imagens oficiais do Volvo S40. Só que “S4” era também o nome da versão desportiva do Audi A4 e a marca alemã não estava disposta a partilhar a designação. A solução da Volvo para resolver o problema foi simples: acrescentar um zero, nascendo assim o S40. A designação da carrinha, contudo, passaria a ser F40 e, como deve imaginar, complicava um pouco as coisas: é só o nome de um dos Ferrari mais conhecidos e icónicos de sempre. Para evitar problemas com os italianos, os suecos trocaram o “F” pelo “V” de versatilidade. E assim nasceu a V40, que durou décadas e deu origem a uma carismática família de carrinhas. Arranque a Frio Não estão a ver mal. É mesmo um Volvo S4 Mãozinha da Peugeot dá à Porsche o seu maior ícone Era uma vez um Porsche 911 É, talvez, a mudança de nome à última hora mais conhecida de todas. O desportivo mais icónico do mundo nasceu inicialmente como Porsche 901. Chegaram a ser até produzidas 82 unidades com esta denominação antes do nome ser mudado. Porsche 901 A razão para a alteração veio diretamente de França. A Peugeot protestou formalmente a designação 901, invocando que tinha os direitos de exclusividade globais sobre qualquer nome de automóvel composto por três algarismos com um zero no meio (203, 504, 905, etc.). A pequena Porsche não quis criar fricção com a maior Peugeot, com a marca alemã a simplesmente trocar o “0” por um “1” e o resto é história. Ford impedida de usar nome que já foi seu Quando a Ford decidiu ressuscitar o lendário GT40 para este século - o carro que derrotou a Ferrari em Le Mans nos anos 60 -, revelando-o no Salão de Detroit de 2005, a escolha do nome era óbvia: GT40. © RM Sotheby s O primeiro Ford GT era a cara chapada do original GT40, mas a marca ficou impedida de usar o nome. O único problema? A Ford já não tinha os direitos sobre essa designação. Tinham sido vendidos há décadas à empresa Safir GT40 Spares, especializada em peças de substituição. Quando a Ford tentou readquiri-los, o valor pedido era de vários milhões de dólares, uma quantia que a marca considerou simplesmente absurda. A solução foi, por isso, descomplicar. Retirou o “40” da designação, ficando apenas como Ford GT, mais curto e limpo, mas também mais genérico. GT já identificou e continua a identificar modelos de várias marcas, como a Opel, Alfa Romeo ou a Mercedes-AMG. Felizmente, além do design único, o superdesportivo da Ford era uma máquina excelente, o que o tornou memorável e desejável. Porsche ameaça Aston Martin para proteger 911 GT3 Neste caso não há vítimas nem vilões, há apenas uma reviravolta curiosa. A mesma Porsche que, décadas antes, tinha sido obrigada a mudar o nome do seu 911 por pressão da Peugeot, também ameaçou a Aston Martin com um processo judicial caso não mudasse o nome da sua nova coqueluche: o Vantage GT3 (2015). Aston Martin Vantage GT12 A razão era simples de compreender. A marca alemã detinha os direitos comerciais da sigla “GT3” para carros de estrada, protegendo o nome e legado do 911 GT3, que continua a ser hoje uma das versões mais desejadas do desportivo alemão. Relembramos que GT3 identifica também uma das categorias dos campeonatos de resistência, com o Vantage GT3 a ser a versão de estrada correspondente do Vantage GT3 de competição. A Aston Martin acedeu e mudou o nome para GT12, numa alusão ao motor V12 que o equipava. Mariana Teles